Quem tem medo do lobo mau?
Eu. Morro
de medo. Uma vez escutei quando criança que durante a noite os lobisomens, em
busca de suas presas, só enxergavam o branco dos olhos, das unhas e dos dentes
das mesmas. A partir daí meu medo começou a se manifestar durante a noite.
Dormia sempre com a boca bem fechada e escondia as unhas debaixo da coberta e
do travesseiro com medo que ele me visse, se é que visitava meu quarto. Por
sorte ou não o tal do lobisomem nunca deu as caras, pelo menos que eu saiba.
Mas acho que o medo infantil que toda criança carrega não foi embora com o
passar dos anos.
Hoje eu
não tenho mais medo de lobisomem, nem de lobo mau. Quer dizer, acho que acabei
de contradizer o que disse no primeiro parágrafo. A verdade é que nem eu sei o
que habita espaços incertos deste mundo, então melhor não afirmar que não tenho
medo, vai que estou errada. O fato é que mesmo que essa fantasia infantil tenha
diminuído com o excesso de realidade que o amadurecimento nos trás, eu ainda,
por vezes, acordo com as unhas escondidas debaixo do travesseiro igual eu fazia
quando era criança. Acho interessante refletir sobre isso, pois no fundo
significa que ainda carrego um pouco daquele medo que toda criança tem, do
incerto, do mau, do mundo.
Crescer
pode ser estranho. Ainda mais quando nos lembramos de como éramos quando
criança. Seres desajeitados, curiosos pelo mundo e indefesos que fazem uso da
fantasia para interpretar as peripécias mundanas. Não conheço ninguém que viva
uma fantasia com tanta sinceridade como uma criança. Aquelas são construídas
para explicar situações das quais não entendem, não conseguem colocar em
palavras ou simplesmente não perguntam. A vida não é só difícil para os
adultos, que se dizem cheios de responsabilidades e estresse. Ser criança
envolve uma magia e uma incerteza que pode ser angustiante. Explicar as
situações, entender o que se passa na cabeça dos adultos é confuso. Ainda mais
quando as decisões do que irá acontecer não estão em suas mãos, fato que é
sempre certo para quem é criança. Viver em um mundo de novidades faz dele muito
interessante, mas muito duvidoso.
Tomemos-me
como exemplo. Como saber se o lobisomem vem ou não? Se ele existe ou não? O que
esse lobisomem representa? Uma querida amiga sempre dizia, ao conversármos a
respeito do sobrenatural, que tinha muito mais medo das coisas que existem do
que das que não existem. Isso pode ser
verdade, o fruto mundano pode ser mau assim como pode ser bom. E sentir medo é
uma sensação estranha, ansiosa. Este estimula nosso corpo ao estremo, segundos
eternos são estendidos em um pequeno espaço de tempo. Mas o fantasioso do mundo
também gera medo, justamente porque não se sabe tanto sobre a realidade quanto
se pensa. Não tenho certeza se metade das coisas que vejo são de fato verdade,
ou se são realidade interagindo com as construções do meu cérebro. Então esse
conceito de realidade é mais vago e menos aprendível do que imaginamos.
É
engraçado pensar que todos carregam certo medo de alguma coisa. Seja de cobra,
de altura, de aranha ou de lobisomem. Os
“monstros” infantis nos perseguem pela vida afora. Crescemos, ou achamos que
sim, mas ainda carregamos dentro de nós uma criança indefesa. Quando nos
deparamos com situações novas, quando perdemos o controle da situação, nos
sentimos desprotegidos, como uma criança perdida. Mas aí fica muito mais
difícil, pois não dá mais para correr para cama dos pais em busca de proteção.
Crescer é encarar a vida de frente e isso exige um esforço psicológico do
tamanho do mundo. Exige coragem para sentir medo sem fugir dele, aceitando a
eternidade daquele momento angustiante e se possível amadurecendo com ele.
Meu pai
costumava falar que eu nunca gostei de dormir na cama dele e de minha mãe. Sempre
preferi o meu espaço, independente da minha idade. Acho que aprendi a encarar a
solidão e o medo que ela pode implicar sozinha. Tenho que assumir que gosto de
independência, apesar de isso nem sempre significar que o alcance da mesma seja
algo fácil. Lembro-me que por volta dos quatro anos resolvi que não queria usar
mais bico e para resolver este probleminha, joguei-o pela janela logo depois de
acordar. Foi uma manifestação de liberdade sincera e bem caracterizada pela minha
impulsividade. Que é enorme. Quando criança não senti falta do bico, mas jamais
esqueci deste ocorrido.
Faz pouco
tempo que comecei a minha vida adulta e acho que ainda não provei do mel e do
veneno que ela tem a oferecer. Mas já fui criança e me lembro do que a
imaginação infantil é capaz. Ela é uma ferramenta para enfrentar o que não se
sabe, o que não se entende e o que gera medo. E acho que de tudo que ficou da
minha infância esta é a instância de que mais gosto. Ainda permito que meu cérebro fantasie e crie
mil possibilidades para as situações do mundo. Isso deixa a vida mais leve e
mais interessante. Momentos de espera no trânsito, no médico, em qualquer lugar
são momentos de produção imaginária. E é por ela que estou aqui, escrevendo,
desabafando minhas incertezas e percepções do mundo. Acho que ela me permite ver
a vida de uma maneira mais sutil e refinada e mais do que tudo me permite
entender um pouco do que viver pode ser para cada um. Viva a imaginação e viva
às crianças que são verdadeiros artistas da realidade. Constroem e reconstroem
a mesma de uma maneira linda, única. Talvez o que falte na nossa sociedade é escutar
mais o que todos têm a dizer, mesmo os mais imaturos. Eles são o presente do futuro e devem ter algo
de interessante a dizer. Devemos admiração a eles, afinal fomos eles e ainda
somos eles muitas vezes. Somos crianças de barba e salto alto. Fica aí a
sugestão da escuta e lembrança da criança que fomos(somos).
Menina, vc escreve muito bem!
ResponderExcluirQue bom que ta curtindo, primoca!
Excluir