quarta-feira, 30 de maio de 2012


Oportunidade
          
             Uma vez ouvi uma de minhas professoras falar que quando escolhemos um tema para uma tese de mestrado ou doutorado não somos nós que o fazemos e sim, aquele que nos escolhe. Às vezes a nossa ânsia por uma descoberta, ou pela denúncia de uma realidade, não é opcional, ela se impõe sobre nosso corpo como uma sede desértica.
            Interessante pensar sobre isso, pois nem sempre fui uma pessoa que gostou de estudar. Quando estava no colégio nem sempre era presenteada com notas boas pelos meus professores, até porque não me interessava por tudo. Na faculdade esta realidade mudou, porque naquela tive a oportunidade de estudar o que gosto, ou o que escolhi para ser descoberto ( depois essa história toda de escolha virou história de amor). Não discorro sobre uma questão exata, algo matemático, pois podemos errar, mudar de curso, mudar de vida. Mas quando uma paixão por um tema ou uma profissão aparece esta se impõe sobre nós. E descobrir o mundo, sobre a ótica que for, pois nenhum é neutra, é maravilhoso.
            O conhecimento pode ser libertador. Ele muda o mundo. Não falo só de conhecimentos propriamente acadêmicos, pois o senso comum carrega verdades, assim como a literatura, o cinema, ou a simples experiência cotidiana. Não posso me esquecer das viagens, é claro. Conhecer o mundo não acaba com o mistério da vida, mas a faz certamente mais interessante.
            E aí entram as oportunidades que temos. Nem todos são sorteados com as mesmas, como bem sabemos, pois a vida não tem o sinal verde para todo mundo. Ou se tem, não propõe o mesmo meio de transporte. Pode ser injusta, infiel e surpreendente. Apesar de isso depender muitas vezes de nós e não do destino. Apesar disso, acredito que aqueles que têm oportunidades, fato que também é de avaliação pessoal, devem aproveitá-las. Elas são lupas para o mundo, uma vez que permitem que este seja visto sobre diferentes óticas.
            Quando era criança possuía um livro sobre um menino que tinha uma lupa. E com esta, observava pela janela de sua casa o prédio da frente e os vizinhos com suas diversas imprevisibilidades do cotidiano. Imaginava, e aprendia com estas pessoas (apesar de que esta interpretação pode ser especulação minha). Assim como ele, tenho sempre minha lupa por perto, e acho que esta cresce impulsionada pelo conhecimento. Não deixo também passar as oportunidades de ampliá-la e acredito que nos últimos anos estas têm sido infinitas. Morar fora, fazer trabalho voluntário em outro país, trabalhar em mais diversos ambientes.  Uma pessoa pode ver uma maçã em um supermercado ou um símbolo para reflexões sobre toda a vida (licença a um amigo que escreveu sobre este tema), depende se opta por observá-la através de uma ótica rígida ou por usar sua lupa. A questão é sair de casa com ela, sempre com  o cuidado de não deixa-la embaçar.
            Este ano desde que voltei de uma temporada na Europa tive oportunidades interessantes de estender meu olhar sobre o mundo. O estágio na APAC, o emprego em uma escola de inglês (conheci o outro lado, professores, entendi que é difícil também ser vocês) e agora terei a oportunidade de escrever um livro sobre a história de vida de uma comunidade que corre o risco de ser desapropriada pela especulação imobiliária.
            Hoje ao montar o projeto para esta atividade já fantasiei histórias, diversas pessoas, amplos espaços, tudo. Sei bem que tudo será diferente e que no fundo quem mais ganhará com essa experiência será eu mesma. Ações altruístas são assim, nunca altruístas demais, certo? Mas acho que essa é uma outra discussão.
            Para finalizar e retomar o primeiro parágrafo, gostaria de dizer que o tema deste texto me escolheu. Despejei estas palavras aqui pensando em oportunidades da vida, mas elas me saltaram da mente. Não foram estruturadas e muito menos planejadas, mas simplesmente sentidas e impostas pelas minhas mãos que são a boca dos meus pensamentos. O mais importante nesta vida é mudar, metamorfosear todos os dias com as oportunidades que nos surpreendem ( e com as que não surpreendem também), e acho que para mim a melhor forma de viver isso é através de palavras. Lindas palavras que não me saem da mente, que tiram meu sono, mas que fazem de mim quem sou. Os interessados em mudanças me façam um favor e saiam de lupa todos os dias de casa. Estas são um passo para a liberdade.

segunda-feira, 28 de maio de 2012


A mão e o Mundo
                Imaginemos uma mão. Deixarei a imaginação de vocês encarregada de construir as características físicas daquela. Podem criar o que quiserem, as aparências não importam neste texto. Imaginemos também um mundo, como o nosso, ou talvez com o que imaginemos que o nossa pareça. Desculpem-me mas nunca o vi de fora, só de dentro, do coração.
                A mão e o mundo moram juntos no universo. A mão controla o mundo à sua maneira. Alguns dias é generosa e carinhosa, abre-se e com este gesto dá tesouros ao mundo. Mas não só tesouros monetários, mas também, tesouros afetivos, aqueles que nos fazem sentir protegidos e amados. Outros dias, fecha-se e não da nenhuma explicação ao pobre mundo, que fica sem entender a lógica da mão. “ Porque ela abre e depois fecha?” – pensa o mundo. A ausência de explicações a esse comportamento o enlouquece, o desampara.
            A mão apesar de dar exige retorno. Um dedo pelo outro, um gesto de carinho por um favor. O amor tem um preço que deve ser pago em prestações e com juros. A relação afetiva do mundo e da mão assemelha-se a uma transação bancária. E o pobre mundo se resigna a essa atitude. Dá a mão tudo que tem, tudo que pode. Até sua última gota de apreço por si mesmo.
            O mundo pensa em ser livre. Deseja do fundo de sua alma a liberdade, mas a sua dependência se faz mais forte. Esta é poderosa e manipula suas ações. A força da mão não exige presença, não exige força física, ela é interna. Ela é condenatória e misteriosa. O mundo também se vê distraído pelo cotidiano dessa dominância. Deve ser forte o bastante para girar todos os dias e esse esforço é mental. Ocupa o tempo de reflexão e de revolta à sua situação.
            O mundo é fruto do meio da mão, poderosa mão. O tempo passa, tudo muda, menos o interesse da mão que só quer mandar, só quer o poder. Ela também é cega, embebida pelo poder que possui. Não há questionamento à sua posição, ela nasceu assim e por isso sua hierarquia é naturalizada. Seu poder é genético, é legítimo e na sociedade daquela mão e daquele mundo não existe outra possibilidade de vida, pelo menos é assim que situação é vista pelos moradores daquele vasto universo. E o mundo segue este caminho sem fim, sem luz, sem estrelas.
            Uma manda e o outro obedece, estilo de vida. O mundo vive acorrentado por correntes invisíveis que moram na sua mente, nos seus monstros interiores e na sua descrença em si, no seu total desconhecimento de seu valor. Pois é o mundo que carrega todos os sentimentos, todas as almas, toda a beleza humana. Ele tem tudo, mas não sabe.
            O futuro é incerto também na vida deste mundo e desta mão. Ele é escuro e sinuoso, não dá dicas e gosta de surpreender. Mas uma coisa não muda, a mão permanece a mandar e do mundo a obedecer, como um capacho. Seu coração aperta, as lagrimas lhe vem à superfície, mas não vê saída. Só sabe girar, como gira!
            O mundo já não sabe quem é já não questiona a realidade. Engole-a como uma criança tomando remédio. E ela lhe desce amarga e profunda. E assim ele se despedaça, derrete, se quebra em pedacinhos. E cada vez é mais difícil colá-los, tantos são, tanto se multiplicam estes pedacinhos. A raiva lhe vem, mas já não sabe mais canalizá-la e também não sabe mais o motivo que a causou, este foi perdido nas estradas do tempo. A origem dos fatos se esvaneceu com o passar dos anos. Só sabe que é um nada, um mundo qualquer. Não sabe que os tesouros são seus e não da mão.
            Este mundo, querido mundo, vai se afogando em um rio escuro de sentimentos melancólicos, afunda-se e já não vê mais a superfície. Perdeu-a de vista, as imagens já estão embaçadas, os sons não mais os escuta. De vez em quando luta contra si, tenta mudar, tenta sair daquela relação de dependência, mas logo em seguida recai à prisão que lhe enclausura. Ser livre implica em responsabilidades que ele não sabe se consegue assumir. Nunca lidou com esse sentimento, essa responsabilidade é uma novidade distante que lhe parece inalcançável. No fundo, o mundo luta contra si e não contra a mão. Não sabe que quem carrega a mão é ele e não o contrário, que o poder da mão só é garantido por si e ninguém mais. Não sabe da sua grandeza quando comparada a ela, aquela megera mandona.
            E assim a vida prossegue. A mão mais bate do que dá carinho e o mundo gira, silencioso, já não há o que dizer, não há o que sentir. Já não tem mais voz este pobre mundo, já não tem mais vida.  Esta se perdeu nos caminhos que a dominação implica. Esta palavra feia, recorrente e infelizmente trivial.

quarta-feira, 23 de maio de 2012



Claudia e Luiz na Provence
Hoje acordei com uma vontade incontrolável de viajar. Ao lado de minha cama, encontra-se um mapa mundi que só serve de estímulo para este meu vício compulsório. Vontade de conhecer o mundo, de viver coisas novas e de abrir mais a minha forma de pensar. Infelizmente, minhas obrigações não me permitirão viajar hoje, mas viajarei então de outra forma, usarei a minha memória como ponto de partida.
Viajei de trem. Sai de Paris da casa de minha prima de mochila nas costas sem saber bem como seria essa viagem. Um casal de amigos dos meus pais havia alugado uma casa no sul da França, mais especificamente em Lourmarin, e estava morando lá por uns tempos. Movida pelo meu desejo insaciável de conhecer lugares novos, resolvi que a vez da região da Provence tinha chegado.
Claudia e Luiz me buscaram na estação de trem e chegando a Lourmarin prepararam um almoço maravilhoso na varanda da casa onde estavam. Uma coisa que é certa na França é que se come bem. Muito bem. Isso ficou ainda mais fácil, pois este casal que já era querido e acabou ficando ainda mais, cozinha muito bem. E não economizaram nos mimos. A casa onde moraram era deliciosa, com uma vista linda. Hospedei-me em um quarto que tinha vista para a piscina da casa, muito agradável e com uma grande janela.
A cidade de Lourmarin é realmente muito charmosa e é palco de feiras muito interessantes que vendem um pouco de tudo: livros, artesanatos, bijuterias e também comidas gostosas. Outro ponto muito relevante da cidade é a padaria, que garantia um dos melhores pães que já comi, e que foi base da minha alimentação  todos os dias em que estive por lá. Abria cedinho e era a típica padaria de cidade pequena, realmente encantadora. E o cheiro, ah o cheiro, este me enfeitiçava.
Corri todas as manhãs na estrada próxima à casa do casal, sempre observando a paisagem que era caracterizada por vinícolas, plantações de abóboras dentre outras plantas. Parecia que eu estava dentro de um filme, a paisagem era realmente muito diferente, e guardava todo aquele charme francês e também que a vida regada e decorada pelo vinho carrega.
A companhia de Claúdia e Luiz foi ponto forte da viagem. Desenvolvemos verdadeiras conversas filosóficas sobre a vida, sobre livros, sobre nossas famílias e o motivo que nos uniu naquela ocasião, meus pais.  Conversar é mesmo uma atividade fundamental, faz-se amigos, lembra-se da vida, reflete-se sobre tudo. Ai como é gostoso relembrar desses momentos. Além disso, são as palavras que às vezes representam mudanças definitivas nas nossas vidas, ou carregam notícias boas, ruins, tudo. Carregam a vida de certa forma.  Pode-se construir um momento com elas, ou um pensamento através delas e é por isso que os livros são pedacinhos de mundo encadernados. Tão importantes são as palavras.
Retomando à França, a leitura também fez parte daquele momento. Li muito, pensei muito e descansei muito. E bebi muito vinho bom, pois uma boa conversa filosófica combina com vinho. E se o vinho for francês, não tem erro. Pensando bem acho que poucos momentos não combinam com vinho. Ele é versátil e combina com o outono, inverno, primavera e verão. Pode estar travestido de tinto, branco ou rose.  Acompanha as mais deliciosas comidas, os brindes, os fins de tarde, o frio e o calor. Pode ser para um momento romântico, mas também para um momento festivo. Ou simplesmente para uma tarde com um bom livro. Ele fala por si só, não exige nem companhia. Que coisa gostosa que é uma taça de vinho.
Desculpem-me a digressão alcoólica, retomando devo dizer também que além dos momentos que vivi com Claudia e Luiz, que incluíram visitas a feiras que expunham comidas que só acreditava que existiam na minha imaginação gulosa, comer sorvete, falar sobre a vida, fazer picnics, ver um dos pôr-dos-sois mais bonitos da minha vida, correr da chuva e fazer amigos vivi momentos sozinha também.
O casal me emprestou seu carro para que viajasse desacompanhada, quer dizer, acompanhada de Jane, querida GPS que não me deixava perder o caminho. Se não talvez eu estivesse até hoje viajando por aí, sem rumo. Nada melhor. Visitei várias cidades pequeninas da Provence, lindas de morrer, espaços realmente especiais deste planeta terra. Andei de barco nos Les Calanques (e por isso vi uma das cores de mar mais bonitas)*, tomei os melhores sorvetes, visitei o Palácio dos Papas em Avignon, conheci ruínas romanas em Arlet, comi magrê de pato com polenta frita e li muito. Navegar pelas fotos desses momentos me faz ir longe e demorar a voltar.
Gosto de relembrar de uma tarde em que visitamos um lago cheio de flamingos. Fiquei tão maravilhada com a presença destes que entrei primeiro de tênis ( e tive que mudar de tática depois de atolar na lama), depois descalça atrás dos mesmos. Não consegui impedir meu impulso, pois estava encantada com a cor e beleza daquelas aves, mas aquele representou pura ingenuidade, pois os bichanos logo começaram a migrar para outro lado. Uma estranha, toda suja de lama, com cara de boba e máquina na mão ( ai estereótipo de turista!) correndo, quem não migraria?
Esta viagem foi mesmo maravilhosa. Coloquei-a na parte da minha memória reservada aos melhores momentos e que gosto de visitar de tempos em tempos. Quanto ao casal, não sei bem como agradecê-los, só queria dizer que essa viagem foi realmente fenomenal. Os lugares visitados foram maravilhosos, a comida e o vinho deliciosos e a companhia ilustre. Este casal fez por si de fato algo maravilhoso, uma oportunidade de se conhecer e de viver a vida plenamente em um cenário maravilhoso. Sou profundamente grata e gostaria de dizer que só penso em coisas boas quando me lembro de Lourmarin. Vocês são pessoas muito especiais e me receberam muito bem. Muito Obrigada.
* “Les Calanques, está localizado na periferia de Marseille, na Cote d´Azur Francesa. Abrangendo toda a costa, por 20 km até a próxima cidade, Cassis, é uma das mais famosas belezas naturais da França. O maciço de calcário branco contrasta com as águas azuis e cristalinas na linha costeira do Mar Mediterrâneo, com profundas baías e gargantas formando pequenas praias paradisíacas e promontórios verdes que oferecem não só beleza natural, bons mergulhos, mas também é um local de prática de escalada esportiva e tradicional. Assim como os Alpes, Les Calanques foi também o berço do montanhismo e escalada franceses.]” -http://www.brasilvertical.com.br/index.php?option=com_content&view=article&catid=66%3Ahome&id=227%3Ales-calanques-escalando-na-cote-daazur-francesa&Itemid=60










sexta-feira, 18 de maio de 2012


Espelho
Outro dia passei na frente do espelho e me vi. Observei minha imagem com cuidado e com certa curiosidade. Vinte e poucos anos, baixa estatura, cabelo cor de mel. Não vi só aparências, vi também um aglomerado de sentimentos e memórias que se conglomeravam no meu corpo.  Um mundo fervilhava dentro de mim. Olhei novamente e pude ver mais claramente.
Não me achei totalmente bonita, nem totalmente feia. Amo e detesto todas as partes do meu corpo. Depende do meu humor e do que aconteceu no dia. Algumas vezes acordo sem vontade de falar uma palavra e outras vezes durmo falando. Detesto cometer um erro, pois isso faz com que me sinta burra, apesar de por vezes me sentir inteligente. Já menti, já roubei uma bala do Carrefour quando tinha sete anos e já usei carteira falsa. Já dirigi e bebi, já fiz coisas erradas. Já fiz coisas certas também e já ajudei muita gente. Aprendi que não há nada melhor do que conversar e que a sinceridade é muitas vezes essencial. Para nós mesmos e para os outros. Mas não vale usá-la só para magoar, isso é maldade. Já magoei e já fui magoada.
Alguns dias olho no espelho e vejo uma pessoa capaz, alegre e bonita. Outros dias  vejo coisas ruins, falta de personalidade e atos corretos. O espelho pode ser maldoso, ou podemos também ser maldosos com ele. O reflexo depende mais de nós do que da física. A ideia é externalizar o mundo interno e ver no que vai dar. Por isso mesmo, já quis quebrar minha imagem, assim como já quis abraçá-la.
Vejo que aprendi muito sobre mim mesma viajando sozinha. É nessas horas que nossos defeitos e qualidades nos ajudam ou prejudicam e não há a quem recorrer. O jeito é aprender a lidar com a pessoa mais difícil de conviver: nós mesmos. Gosto de observar as pessoas e posso me entreter muito fácil com isso. Já disse antes o quanto a minha imaginação é fértil, ainda mais quando o cenário a minha frente é novo e curioso. Outro dia, fiquei uma hora sozinha rindo de um neném de fralda levantar e cair na praia. Dava alguns passinhos e logo caia, puxado pelo peso da fralda. Era tão patético e pequenino que a imagem era linda de se assistir. As coisas simples da vida me entretêm e me fazem rir. Adoro rir, dar gargalhadas, mas às vezes rio de nervoso. Tenho insônia aos domingos e nessa hora minha cabeça acelera muito.
Sei também que às vezes me sinto muito sozinha e fico com raiva de mim por isso. Sei que posso ser mesquinha, egoísta e que posso até mentir. Sei que cometo erros e que cedo a muitas tentações. Em contrapartida, não sou orgulhosa e sei assumir isso. Adapto-me com a maior facilidade a qualquer ambiente e sempre tive a maior facilidade de fazer amigos, além de saber cultivá-los. Sei reconhecer o sofrimento de cada um deles e as alegrias e aceito os defeitos sem julgá-los. Sou companheira, mas não cobro isso de volta, embora já o tenha feito. Gosto de viajar, de comer, de beber, de festa e de dançar.
Consigo aproveitar com a maior intensidade do mundo um momento e também com a maior sinceridade. Mas por vezes sinto culpa, culpa de tudo que faço. E isso me deixa arrasada, perdida. Às vezes nem sei de que sinto culpa, nem sei o que fiz, ou talvez não queira enxergar. Negar pode ser mais fácil. Sou versátil e indecisa. Mas também sou muito decidida. Forte fora de mim, fraca dentro de mim.
Já me apaixonei, já me desapaixonei e não sei mais o que esperar desse sentimento. Sou sensível e adoro arte. Amo lidar e conviver com pessoas e são elas que dão sentido a profissão que escolhi. Acho que todos têm algo a oferecer independente do que já fizeram. Considero toda forma de sofrimento legítima. Amo meus amigos e minha família. Amo os animais, mas tenho dificuldade com insetos. Não gosto deles. Lembro-me de um episódio de criança perversa em que pisei em cima de todo um caminho de formigas da fazenda onde meus avós paternos moram. A cada formiga morta, sentia vontade de matar mais uma. Hoje tenho um olhar crítico sobre essa situação e sei que toda criança tem uma parcela perversa. Assim como todos os adultos, mas acho que conseguimos disfarçar melhor.
Nem sempre sou boa, mas sempre tento ser. Detesto preconceito e a mesmice. O que mais abomino é a hipocrisia. Acho que temos que ser críticos do cotidiano e das nossas vidas. Além de, é claro, assumir quem somos, sem medo.  Acredito em um mundo melhor e espero o melhor das pessoas.
Aprendi a cozinhar, mas detesto costurar. Detesto que me tratem como mais nova do que sou, apesar de achar que essa cara de menina que tenho faz parte da minha personalidade. Tenho a voz rouca, mas nunca a escutei desta forma, apesar de já ter ficado sem voz várias vezes. Odeio médicos, remédios e hospital. Detesto me sentir frágil e sentimental. Chorar em público é um pesadelo, mas já usei daquele para fazer chantagem.
Gosto de cantar em voz alta quando escuto uma música boa, adoro cinema e me encontro e reencontro na escrita. Adoro me refazer em um pedaço de papel e acho que não tem nada de mais belo do que as palavras, ou um aglomerado delas como em um livro.
Tenho muito medo de morrer e isso às vezes me tira o sono. Detesto café, maionese e comidas muito doces. Mas adoro sorvete, e tem que ser na casquinha. Listras, xadrez e bolinhas, são minhas estampas preferidas. Acho que as aparências não dizem das pessoas, mas um estilo interessante sempre atrai a minha atenção.
Consigo rir sozinha e principalmente de mim mesma. Acho que a melhor ferramenta para enfrentar as tragédias da vida é o humor. Vivo praticamente no futuro, pois planejo meu ano com muita antecedência. Sou extremamente pontual, detesto atraso. Isso me estressa e acho que revela a minha parcela de inflexibilidade.
Moro com meus pais e tenho uma boa relação com eles, apesar de por vezes ser rígida com os mesmos. Arrependo do tempo que não passei com pessoas queridas. Gosto de dormir em ônibus, trens e aviões. Ler pra mim é um vício que deve ser saciado semanalmente. Amo de paixão meu cachorrinho, mas sei que nem sempre sou a melhor mãe do mundo para ele. Sei respeitar as pessoas, mas também sei que às vezes sou muito individualista.
Já cheguei a questionar o quão minhas decisões eram importantes para mim, pois já abri mão delas por pouco. E não foi fácil reconhecer isso. Sou curiosa, mas consigo controlar isso por alguns segundos. Amo estudar e amo o conhecimento. Detestaria abandonar essa atividade que recria os meus pensamentos e forma de ver o mundo.
Gostaria de tocar algum instrumento, de desenhar melhor e ter algum ritmo para cantar. Tenho facilidade para escrever, apesar de ás vezes me faltar ânimo. Consigo reconhecer a beleza de um lugar, mas nunca vivo o momento plenamente, vivo vários ao mesmo tempo. Meu pensamento vive uma mistura de tempos. Futuro, passado e presente.
Sonho em escrever um livro, em conhecer o máximo de países que conseguir e, sobretudo conhecer mais o meu. Sonho em fazer mestrado, doutorado e quem saber dar aulas. Acho também que quero morar fora do país mais uma vez, apesar de ser completamente apaixonada pela minha pátria.
Amo rock, samba e tenho um fraco pelo sertanejo. Gosto de abobrinha, quiabo e azeitona. Cresci comendo salaminho, mas depois que descobri que tenho colesterol alto, não consegui mais comer. Sou escrava de minha culpa em muitas ocasiões. Ela pode me fazer bem, pois garante reflexões, mas às  vezes atrapalha meu divertimento.
Já tive cabelo curto, cabelo comprido, tenho quatro tatuagens e quem sabe farei mais. Gosto de mudar. Sei perdoar e não gosto de guardar rancor. Consigo ver as situações de diversos ângulos. Adoro o dia do meu aniversário, Natal e Ano Novo. Adoro comemorar a vida com as pessoas queridas. Gosto do recomeço, mas detesto quando as coisas acabam. O fim só é bom, pois permite a relembrança e o reencontro.
Sou extremamente ansiosa, embora isso nem sempre deixe transparecer. Descobri que por mais que achemos que nos conhecemos, sempre nós surpreendemos e podemos agir de uma maneira diversa. Já perdi o controle, mas já tive todo o controle da situação. Tento a cada dia ser uma pessoa melhor, mas sei que cometo muitos erros e que estou longe de ser quem gostaria de ser.
Outro dia passei na frente do espelho e me vi. Uma pessoa comum, como qualquer outra. Pessoa essa que alguns dias está feliz, outros triste. Que gosta de si e que desgosta também. Que tenta tomar suas decisões da melhor maneira que sabe, mas que também quer aproveitar cada momento. Logo em seguida, minha imagem sumiu. Já não era mais eu, outra pessoa começava a aparecer. Era hora da metamorfose recomeçar

segunda-feira, 14 de maio de 2012


Quem tem medo do lobo mau?
Eu. Morro de medo. Uma vez escutei quando criança que durante a noite os lobisomens, em busca de suas presas, só enxergavam o branco dos olhos, das unhas e dos dentes das mesmas. A partir daí meu medo começou a se manifestar durante a noite. Dormia sempre com a boca bem fechada e escondia as unhas debaixo da coberta e do travesseiro com medo que ele me visse, se é que visitava meu quarto. Por sorte ou não o tal do lobisomem nunca deu as caras, pelo menos que eu saiba. Mas acho que o medo infantil que toda criança carrega não foi embora com o passar dos anos.
Hoje eu não tenho mais medo de lobisomem, nem de lobo mau. Quer dizer, acho que acabei de contradizer o que disse no primeiro parágrafo. A verdade é que nem eu sei o que habita espaços incertos deste mundo, então melhor não afirmar que não tenho medo, vai que estou errada. O fato é que mesmo que essa fantasia infantil tenha diminuído com o excesso de realidade que o amadurecimento nos trás, eu ainda, por vezes, acordo com as unhas escondidas debaixo do travesseiro igual eu fazia quando era criança. Acho interessante refletir sobre isso, pois no fundo significa que ainda carrego um pouco daquele medo que toda criança tem, do incerto, do mau, do mundo.
Crescer pode ser estranho. Ainda mais quando nos lembramos de como éramos quando criança. Seres desajeitados, curiosos pelo mundo e indefesos que fazem uso da fantasia para interpretar as peripécias mundanas. Não conheço ninguém que viva uma fantasia com tanta sinceridade como uma criança. Aquelas são construídas para explicar situações das quais não entendem, não conseguem colocar em palavras ou simplesmente não perguntam. A vida não é só difícil para os adultos, que se dizem cheios de responsabilidades e estresse. Ser criança envolve uma magia e uma incerteza que pode ser angustiante. Explicar as situações, entender o que se passa na cabeça dos adultos é confuso. Ainda mais quando as decisões do que irá acontecer não estão em suas mãos, fato que é sempre certo para quem é criança. Viver em um mundo de novidades faz dele muito interessante, mas muito duvidoso.
Tomemos-me como exemplo. Como saber se o lobisomem vem ou não? Se ele existe ou não? O que esse lobisomem representa? Uma querida amiga sempre dizia, ao conversármos a respeito do sobrenatural, que tinha muito mais medo das coisas que existem do que das que não existem.  Isso pode ser verdade, o fruto mundano pode ser mau assim como pode ser bom. E sentir medo é uma sensação estranha, ansiosa. Este estimula nosso corpo ao estremo, segundos eternos são estendidos em um pequeno espaço de tempo. Mas o fantasioso do mundo também gera medo, justamente porque não se sabe tanto sobre a realidade quanto se pensa. Não tenho certeza se metade das coisas que vejo são de fato verdade, ou se são realidade interagindo com as construções do meu cérebro. Então esse conceito de realidade é mais vago e menos aprendível do que imaginamos.
É engraçado pensar que todos carregam certo medo de alguma coisa. Seja de cobra, de altura, de aranha ou de lobisomem.  Os “monstros” infantis nos perseguem pela vida afora. Crescemos, ou achamos que sim, mas ainda carregamos dentro de nós uma criança indefesa. Quando nos deparamos com situações novas, quando perdemos o controle da situação, nos sentimos desprotegidos, como uma criança perdida. Mas aí fica muito mais difícil, pois não dá mais para correr para cama dos pais em busca de proteção. Crescer é encarar a vida de frente e isso exige um esforço psicológico do tamanho do mundo. Exige coragem para sentir medo sem fugir dele, aceitando a eternidade daquele momento angustiante e se possível amadurecendo com ele.
Meu pai costumava falar que eu nunca gostei de dormir na cama dele e de minha mãe. Sempre preferi o meu espaço, independente da minha idade. Acho que aprendi a encarar a solidão e o medo que ela pode implicar sozinha. Tenho que assumir que gosto de independência, apesar de isso nem sempre significar que o alcance da mesma seja algo fácil. Lembro-me que por volta dos quatro anos resolvi que não queria usar mais bico e para resolver este probleminha, joguei-o pela janela logo depois de acordar. Foi uma manifestação de liberdade sincera e bem caracterizada pela minha impulsividade. Que é enorme. Quando criança não senti falta do bico, mas jamais esqueci deste ocorrido.
Faz pouco tempo que comecei a minha vida adulta e acho que ainda não provei do mel e do veneno que ela tem a oferecer. Mas já fui criança e me lembro do que a imaginação infantil é capaz. Ela é uma ferramenta para enfrentar o que não se sabe, o que não se entende e o que gera medo. E acho que de tudo que ficou da minha infância esta é a instância de que mais gosto.  Ainda permito que meu cérebro fantasie e crie mil possibilidades para as situações do mundo. Isso deixa a vida mais leve e mais interessante. Momentos de espera no trânsito, no médico, em qualquer lugar são momentos de produção imaginária. E é por ela que estou aqui, escrevendo, desabafando minhas incertezas e percepções do mundo. Acho que ela me permite ver a vida de uma maneira mais sutil e refinada e mais do que tudo me permite entender um pouco do que viver pode ser para cada um. Viva a imaginação e viva às crianças que são verdadeiros artistas da realidade. Constroem e reconstroem a mesma de uma maneira linda, única. Talvez o que falte na nossa sociedade é escutar mais o que todos têm a dizer, mesmo os mais imaturos.  Eles são o presente do futuro e devem ter algo de interessante a dizer. Devemos admiração a eles, afinal fomos eles e ainda somos eles muitas vezes. Somos crianças de barba e salto alto. Fica aí a sugestão da escuta e lembrança da criança que fomos(somos).

sexta-feira, 11 de maio de 2012


Geração instantânea
 Há alguns dias atrás assisti a uma reportagem que abordava as diferenças entre as gerações. A partir daí comecei a me questionar sobre a minha própria geração. Quem somos nós? Geração Y? Mas no fundo, o que isso representa? Antes de nós a juventude sofria com a repressão e a ditatura em todo mundo. Período triste, mas ao mesmo tempo, de muita contestação e produção artística. A música, o cinema, a arte, a maneira de se vestir e de se comportar eram uma forma de expressão política. De afirmação de uma ideologia. Pensando bem, todas estas instâncias mencionadas anteriormente são sempre uma forma de afirmar alguma ideologia. Antes e agora, mesmo que esta seja vazia.
Aí eu parei para me perguntar qual é a ideologia da minha geração. Seria a do consumo? Do culto ao corpo? Do enriquecimento? Da imagem? Da tecnologia? Da versatilidade?  Das mudanças constantes e da informação instantânea?  Da individualidade?
Somos uma geração inquieta. Que muda o tempo todo e que produz muito. Como usar isso a nosso favor? Essas são características interessantes que podem ser um caminho para um futuro melhor. Nossa geração é mais globalizada, conhece mais o mundo, apesar disso não significar necessariamente que respeite mais a diferença. Mas já é um começo.
Podemos refletir mais afundo: que tipo de arte temos produzido? Quais livros temos escrito? Em quem temos votado? Quais manifestações fazemos? Qual ideologia buscamos? Às vezes esta me parece vazia, mas talvez não seja. As pessoas têm reclamado nos consultórios terapêuticos dessa sensação de vazio que não tem origem. Eu sei a origem, pelo menos acho que sei. Ela mora no vazio do sistema. Capital não é base para o sentido da vida de ninguém. Carros na garagem e um corpo perfeito são bacanas, aparentemente. Porém, não dão significado à vida, não preenchem a alma. Isso nos leva a tentar preencher um buraco com o que nos é oferecido na mídia e com o que é valorizado. E o que é valorizado, não tem valor na verdade. Não tem valor humano.
Todas as pessoas que conheço que criticam a nossa falta de ideologia idolatram o passado e a juventude que nos precedeu.  O presente fica esquecido e isso é um tanto quanto desanimador. Em contrapartida, nossa geração é tão individualista que no âmbito pessoal atinge muito. Cria e produz igual a uma máquina. Aonde isso vai dar?
Acho que outra forma de definir a minha geração é através da contradição. Aliás, essa é uma das grandes questões da vida. A quem devemos dar prioridade? A nós ou ao mundo? Aproveitar a fugacidade que é a nossa passagem pela terra ou doar o nosso tempo aos que precisam mais que nós? É uma escolha difícil acompanhada da culpa de não viver e de não ajudar. Quem deveríamos ser? Vida incerta essa nossa.
Mas voltando às contradições da minha geração. Um exemplo seria o culto ao corpo, ele é irônico. Vivemos afundados em um mar de propagandas de fast food  que garantem uma alimentação rápida e prazerosa. Mas a que custo? Essa indústria virou uma fábrica de obesos e problemas de saúde. Ao mesmo tempo temos que ser magros, bonitos e bem sucedidos, certo?  O problema mora na nossa incapacidade de esperar. Queremos tudo para ontem. Até a comida. O prazer não pode demorar a vir. Talvez essa tenha sido uma resposta adaptativa para o que tantas mudanças exigem de nosso corpo. Temos que mudar juntos para sobrevivermos, o problema é o que o corpo acostumou a essa velocidade.
 Somos a geração instantânea. Ficamos ligados na tomada igual a um computador. Não existem momentos de ausência às redes sociais e às notícias. Os Smart phones vieram para completar o buraco que faltava. Com isso foi se embora também a privacidade. Não que isso seja necessariamente um problema, mas a necessidade de mostrar para o mundo as nossas atividades é um tanto quanto duvidosa. Será que somos felizes mesmo? Para que tanta afirmação de felicidade no Facebook e no Twitter?  Ainda não sei bem no que isso tudo vai dar. O tempo, instância mais antiga da vida, nos dirá. Espero que a sua velhice nos traga alguma sabedoria.
O nosso imediatismo é tanto que já não sabemos suportar nem a dor, ela é substituída por remédios e drogas, desculpem-me a redundância. Queremos a forma de prazer mais rápida possível. E para tal, temos um mercado focado em atender o cliente a qualquer hora do dia. Prazer e tecnologia. A que custo? O imediatismo se faz necessário no amor, nas drogas, no trabalho e no trânsito. Esperar pra que? As coisas mudam do dia para a noite, não há tempo para espera. Esquecemos a paciência em qualquer lugar do passado.
No Brasil a juventude é a maioria. Ou seja, o futuro esta de fato nas nossas mãos. Agora não é mais “balela” de discurso de motivação, ou papo de político. É tudo nosso. O que será que vai acontecer então? Vamos levantar voo com essa velocidade toda? Ou produziremos algo de novo, de fato inovador e útil para todos? Algo que seja inclusivo para com as diferenças e desigualdades. Saberemos usar o que nossa versatilidade e flexibilidade têm a oferecer? Espero que sim. A resposta é aprender a como administrar nossas potencialidades.
Sei que falei muita coisa, mas não acho que tenha falado de todos. Não posso esquecer que somos uma geração segregada. O acesso à tecnologia é garantido para muitos, mas a classe social, a etnia e região ainda separam os usuários.  Existe outro lado da juventude da qual não quero esquecer. Esse lado vive a mesma realidade do que nós, mas é separado por um muro feito de dinheiro e poder. Falo de mim aqui, mas gostaria de falar de todos.
Acho que o nome do meu blog já me faz um grande fruto da década em que nasci. Metamorfose é mudança e esse é nosso sobrenome. Penso que é hora da nossa geração assumir a responsabilidade a que nós é inerente, uma vez que somos a maioria, e saber usá-la para um mundo melhor. Essa frase pode ser clichê, mas é algo que foi sempre falado e nunca foi alcançado. Será porque? Provavelmente nunca interessou a quem manda de verdade. Mas mesmo assim eu sonho e faço o que posso. Deixo o convite a vocês, para refletirem e metamorfosearem o nosso mundo para que ele saia por aí voando com igualdade e respeito para todos.

domingo, 6 de maio de 2012


Tradicional Família Mineira


                Sempre reservei muitas críticas à tradicional família mineira. Minha mãe e algumas amigas têm me dito que ando radical, cheia de argumentos desviantes. Talvez seja verdade, mas não me canso de testar a sociedade dentro de mim e de questionar o que é dado por certo, mas pode não ser. Voltando à família mineira, o motivo desse radicalismo começou quando percebi a existência de fatores negativos relacionados a ela. Acho que esta instituição presa pela imagem, pelo tradicionalismo e é muito machista. Finge ser algo que não é, mas debaixo dos panos esconde monstros e histórias nada tradicionais. Dá espaço para a fofoca e reprime o diferente.
                Porém, hoje venho aqui falar coisas boas desta instância da nossa vida. Vou deixar as “armas de lado” e não ceder mais a minha parcela perversa ( considerando que o primeiro parágrafo foi todo uma fraqueza comandada por ela) e falar aqui das coisas boas que a minha tradicional família mineira materna me proporciona. A paterna merece um texto próprio, não se preocupem, pois ainda chegarei nela.
                Na maior parte da minha vida éramos muitos. Somos muitos. Um já se foi, o patriarca, meu querido avô de quem sinto saudades. Deixou junto com a minha avó uma família peculiar, devo dizer. Ninguém se parece, mas ao mesmo tempo, representamos uma estrutura coesa, que dá certo. A minha prima caçula uma vez escreveu que somos todos loucos, mas muito divertidos. Palavras da minha tia, somos transgressão e alegria. Sou obrigada a concordar com ambas. Ninguém se safa dessas características.  Possuímos uma maneira própria de conviver com as regras, mas ao mesmo tempo, temos um bom caráter e gostamos de ajudar as pessoas.
                Jogamos buraco, comemos muita banana quando pequeninos (obra do vovô Linkão) e somos bastante competitivos. Bebemos, dançamos e fazemos “dentinho” (marca registrada da família- colocar os dentes superiores para fora imitando um coelhinho quando queremos fazer “graça”). Festa é com a gente mesmo e sempre gritamos “ueeeeba” em momentos de alegria. Tudo muito maluco, difícil de explicar, mas delicioso de se viver.
                Ninguém é perfeito e gostamos muito de falar uns dos outros, motivo de brigas diárias. Para mim quando perdemos ou ganhamos tempo falando de alguém representa que este alguém tem importância para nós. Interpreto toda essa falação, que também sempre deu espaço para muitas risadas, assim. Amamo-nos e nos apoiamos muito. Somos uma família presente e que gosta de estar junto. Não existem almoços monótonos aos domingos e muito menos aniversários entediantes. Alguém sempre tem um caso novo a contar, uma fofoca engraçada a fazer ou uma história passada a lembrar. Casos que poderiam ser banais são transformados em piadas, críticas e em histórias interessantes. Não posso esquecer-me de falar da imaginação que esta família carrega, somos criativos cada um a sua maneira. O resultado muitas vezes é bastante interessante. Mas leitor, não se deixe enganar só pelos elogios, pois como toda família temos muitos defeitos e problemas a resolver. Hoje, porém, vou deixá-los de lado. Melhor sermos otimistas diante da vida, as tragédias já se encarregam do pessimismo, melhor não se ocupar com ele.
                 Histórias como a do Coronel Aguiar fictício que procurava pelos meus avós na estrada, a do “tio” que só come arroz em casa ( em eventos festivos só come camarão), a do baldinho-chuveirinho da piscina de Prado (onde minha família tem uma casa de praia), das caças ao lobo com o vovô em que todos os netos seguravam uma faca (que ia desde faca de pão a facão, a divisão era proporcional à idade do portador da arma, vale dizer que ninguém tinha idade para isso, mas a aventura toda era essa) e procuravam por lobos no terreno ao lado da nossa casa, das noites jogando War, da máscara de chupa cabra do Tio João, das noites escutando o Tio Pitando tocando cavaquinho, das viagens ao Iberostar, dos castelos do terror, das aulas de culinária da Sosoca, das bicicletas com e sem rodinhas, do livro lido pelo meu primo Xande na varanda da casa de Prado em que cada primo era um personagem e de outras tantas como essas. Sei que nem todos que frequentam este blog vão entender as histórias mencionadas, mas caso tenham interesse em alguma estou mais do que disponível para relatá-las com detalhes. Quem sabe eu até irei algum dia escrever sobre elas aqui nesta página, vai saber aonde minha imaginação vai me levar. Nem eu quero saber, ainda.
                Acho que falei tudo isso para dizer que apesar de todas as minhas críticas minha família é muito especial para mim. Que tenho lembranças boas e que sempre quero estar junto dela. Quando penso na família que algum dia posso ter, penso que quero que seja como a minha. Ninguém muito normal, acho que ia morrer de tédio, mas uma família unida, pela qual não se tenha a obrigação de se ver, mas pelo contrário o prazer de reencontrar sempre. Família é como uma corrente. Todos os membros estão entrelaçados. Nesta espécie de cadeia, não tem um que não influencie o outro e não tem um que não seja fruto do comportamento do outro. O poder do contato e da genética é tão grande que quase não se tem como fugir desta influência, ela acontece mesmo que os atos e correlatos não sejam vistos a olho vivo. São sentidos e muitas vezes repetidos. Isso pode ser um perigo, mas também uma salvação.
                Tenho que reservar também um local para meus primos nestes relatos. Nossa união e companheirismo é um fato. Não importa a idade nem o sexo, nos divertimos e somos amigos. Comemoramos isso de forma estranha, elegemos no final do ano, após a revelação de todas as histórias que se desenrolaram durante o ano e que podem de certa forma, incriminar-nos, o primo mais polêmico do ano. Polêmica é qualidade na família, pelo menos nesse dia. Fazemos coroas, tiramos fotos e contamos para todos no Natal. É muito engraçado, só vendo para acreditar.
                Acho que família pode ser ruim. Mas também pode ser boa. Ainda não fiz minha paz com o universo e não consigo entender quem ou o que determina  esta parte da nossa vida. O acaso? Um processo de sucessivas reencarnações?  Deus? Partículas de energia? Quem tiver a resposta me ligue urgente! Pensando bem, melhor deixar para lá, vai que a vida perde a graça em uma barbeiragem dessas. Não quero correr este risco. De qualquer forma, filosofias a parte, não sei por que cai nessa família, mas sei que tive sorte e que consegui tirar coisas positivas de todas essas pessoas que dela fazem parte. Ademais convivo com pessoas peculiares, que me mostram um pedacinho do mundo dentro delas e assim constituo o meu próprio. Acho que isso pode servir de exemplo para outros. E não me entendam mal. Família não é só genética, pode ser construída sem um pingo de parentesco. Não sei se precisamos de família para sermos felizes, não sei se essa é a única estrutura biológica aceitável, mas mesmo assim gostaria de agradecer à minha família por tudo. Pela vida que me proporcionaram, pelas boas companhias que são e, sobretudo por me fazerem ser quem sou. Um pouco de tudo e um tudo de nada, mudança minúscula em um mar de personalidade. Aceitam-me e me admiram e por isso e mais nada sou eternamente grata.


quarta-feira, 2 de maio de 2012


O céu
Viagem de família é uma coisa boa. Gostosa. Pra mim envolveu conversas na varanda do quarto, com pessoas queridas sobre assuntos quaisquer. Mas o melhor da noite era o céu. Que céu lindo, ainda mais dividido com primas-irmãs queridas. Céu laranja avermelhado com o vento da praia para relaxar e descansar a mente. Jogar conversa fora, olhar o entardecer, rir a toa. Delícia.
Algumas noites são especiais. Temos e devemos de aproveitá-las. Como diria meu irmão existem aqueles que sabem aproveitar a vida e aqueles que a veem passar. Desculpem-me, mas os últimos cometem um erro grave. A vida vai passar, já está passando e nós junto com ela. Os dias cheios e acelerados que vivemos, completos de atividades e informações imediatas que preenchem as horas, não deixam espaço para o tempo a toa. Tempo para pensar na vida, pensar bobagens, fazer planos impossíveis e refletir sobre aqueles assuntos que não nos saem da mente. Não há noite ou dia que não deva ser aproveitado. Não há boa companhia que não deva ser valorizada. A vida é fugaz e não há tempo que volte, como diria Lulu. Façamos dela o melhor possível. Aproveitemos o céu, todos os dias.
 Lembro-me das noites que já passei e penso agora no céu mais bonito que já vi. Estava eu no Marrocos, com uma ilustre companhia, um amigo para a vida. Havíamos viajado para visitar uma comunidade chamada Beri- Beri, povo que tem origem diferente da árabe aquela compartilhada pelos marroquinos. Observar as casinhas cor de ocre cobertas por um dia de céu azul, e ao fundo mirar a vista das montanhas Atlas cobertas de neve resultou em um lugar interessante, novidade para meus olhos. Almoçamos em uma tenda que servia comidas marroquinas, paramos em uma loja que ensinava a fazer tapetes, compramos artesanato na beira da montanha. Dia bom.
 Na volta fomos surpreendidos por um motorista bêbado que quase trombou de frente com a nossa van. Toda experiência inesperada tem resquícios de reflexão. Ao esperarmos o carro de polícia na beira da estrada, fiquei a observar o céu. Nossa que céu! Acho que não tenho palavras nem habilidades descritivas para descrevê-lo. Mas, mesmo diante da minha insignificância literária, tentarei colocar em palavras o que foi aquela experiência. Parecia que estávamos cobertos por um tapete cheio de pontos brilhantes. O escuro e altura da montanha onde nos encontrávamos só faziam aquela visão saltar mais aos nossos olhos. Era impossível não olhar. No meio do nada, olhar para cima e admirar as estrelas significa também se perguntar sobre a vida, questionar-se sobre as angustiantes questões que às vezes tiram nosso sono. Estamos sozinhos nesse mundo? Para onde vamos depois dessa passagem pela terra? Porque às vezes nos sentimos tão sozinhos, mesmo acompanhados? Faz-nos pensar como somos nada diante do tudo e do belo. Somos uma insignificância mundana que se acha. Vai falar que não.
Toda aquela loucura que é quase bater de frente com um carro no Marrocos de fato valeu a pena. Viver é muito perigoso, parafraseando Guimarães. Ainda bem. Estranho pensar que quase morrer pode valer a pena. Acho que entendo melhor agora aqueles que arriscam a vida para viver no limite da mesma, bêbados de adrenalina. A vida é muito incerta, o melhor que fazemos é tirar algum proveito do tic tac de incerteza do nosso fim. Nesse dia não foi difícil. Todas essas reflexões não exigiram muitas conversas, o silêncio também tem muito a dizer.  Os outros turistas conversavam sobre o incidente e eu pensava. Oscar que me dê licença, não sei se estamos de fato todos na sarjeta, mas olhar para estralas certamente nos faz admirar aspectos da vida e da beleza que embarcar nessa jornada implica.   
Aquela viagem ao Marrocos foi maravilhosa. Seja pela companhia de Mariana e Pedro, seja pelo fato de que conheci uma cultura diferente, cheia de questões e pessoas que falam todas as línguas, seja pela visita à casa do sultão, seja pelo melhor cuscuz que já comi, seja pelo passeio de carruagem que fiz, seja pelas conversas no saguão do albergue que tive. Uma boa viagem é assim, nunca se sabe ao certo qual foi a melhor parte, mas as boas lembranças são seguras, vem a tona de vez em quando e nos fazem rir, querer voltar.
Andei de camelo, caminhei pelas estreitas ruas da Medina, comi Tajine, bebi vinho, conheci especiarias das mais diversas, vi os encantadores de naja com sua flauta, tirei foto com macaquinhos explorados que fizeram xixi em mim (dizem que dá sorte, ou mau cheiro à roupa, vai saber), dancei junto a uma dançarina de dança do ventre em um restaurante e vivi aventuras das quais não cabem falar. Tudo inédito e único. Pena que já acabou. Mas essa cultura certamente me fascinou, me envolveu e me fez querer voltar. Não sei se vou, não sei meu destino me levará lá. Mak tub já diria meu avô e vovó Marita. Já está escrito, então vai saber, tomara...

O fato é que valeu a pena. Viajar sempre vale. Mas o céu, este não me sai da mente. O Marrocos, o céu e as estrelas. Por hoje, nada mais quero, nada mais preciso. O céu e as estrelas já bastam.