Historinhas
As histórias, pequenas que sejam, têm um sabor
diferenciado. Às vezes, jogando conversa fora com algum amigo, escuto algum
caso digno de registro. Podem parecer bobos, como uma pequena fruta jogada ao
lado de uma árvore florida, mas quando saboreados revelam um doce que deixa a
vida interessante. Saltamos dos livros de vez em quando. Ou então os livros é
que saltam de nós, vai saber. Escutar me faz repensar e achar no percurso da
minha vida essa pequenas preciosidades perdidas nos relatos de mesas de bar e conversas
ao telefone. Vamos a algumas delas...
Amigos passeavam por Lisboa de férias (ai que
palavra maravilhosa). Fervorosos pelo turismo andavam em busca de qualquer
novidade. A ideia é conhecer tudo, sem critério. Transformamo-nos em figuras
peculiares volta e outra, chega a ser engraçado. Os dois então, depararam-se com um aglomerado de pessoas em uma fila. Fila? Tem que entrar. Descobrem que estão no enterro de alguém. Ao chegar
perto do defunto, quem era? Que surpresa, era o Saramago. Ao lado do túmulo
se localizava uma foto deste mestre, rei das palavras. Não é a toa que tantas
pessoas, tristes pela grande perda, reuniam-se ali. As notícias passam
desapercebidas quando se viaja, não sabiam do falecido. Achei fascinante
conhecer alguém que já viu o Saramago. Mesmo que seja fora de vida, pelo menos
ainda foi em tempo. Falar de última chance em? Conheço pessoas que frequentam
todo tipo de evento, mas acho que o enterro de uma pessoa ilustre como essa é a
primeira. Que coincidência...
Férias de Julho, mochila nas costas, primeiro
destino Lisboa. Cheguei no albergue sem saber o que esperar dessa parte da
viagem em que estava sozinha. O ambiente do albergue era delicioso, paredes com
pinturas personalizadas, cama confortável, mesa de madeira na cozinha, puffs
espalhados por toda a sala e vinho do porto a vontade. Logo conheci um grupo de
americanos e australianos carentes de companhias para enfrentar a cidade como
eu. Tenho que me cuidar se não falarei sobre Lisboa o texto todo, essa cidade é
um charme. Pastel de Belém, Bairro Alto, tomar fininhos (chopp), comer
bacalhau, ver a estátua do Fernando Pessoa, passear por Sintra, mágico.
Voltando a minha historinha, combinei com meus novos amigos de ver o pôr do sol
(que acontece 9 horas da noite) em um mirante, mas por razões soníferas saí
atrasada para encontrá-los no local marcado. Mapa na mão a procura do local,
andando e, ao mesmo tempo, tentando me localizar nas ruas do Bairro Alto. Olho
no mapa, olho na rua, olho no mapa, olho na rua. Bairro movimentado só para
constatar. Eu vestia um modelito verão, metida a europeia. Sem perceber passei
por uma saída de ar poderosa. Meu vestido de verão voou revelando minha
calcinha envolta pela minha dolera bege que guardava seguramente meu
passaporte e algum dinheiro. Cena nada atraente, devo dizer. Sensação
desconcertante, pois não tinha nenhum amigo para apresentar o meu sorriso
amarelo de vergonha. A rua movimentada continuou o seu percurso, mas antes me
presenteou com algumas risadas. Segui caminho olhando para baixo, com cuidado
para não pagar de Marilyn Monroe de novo. No fundo culpava o mapa e minha
distração. Perdi o pôr do sol e ainda "paguei calcinha". Que
viagem...
Na loucura que é conseguir um taxi em Belo
Horizonte aos finais de semana dei sorte e consegui apanhar um. Destino
Savassi, cerveja com as amigas da Psicologia, motorista simpático. Conversa vai
conversa vem, iniciamos uma discussão sobre a importância do cinto de segurança
no banco de trás. Acho que devo confessar que fui bastante hipócrita, pois
durante toda a exposição das minhas ideias, que eram favoráveis ao cinto, não o
estava usando. Incoerências a parte, o tal do taxista começou a me contar uma
história interessante. Contou-me que uma vez sofreu um acidente ao dirigir acompanhado
de uma passageira sentada na frente que estava sem cinto. O outro carro furou o
sinal de pare e ele, tentando desviar do outro veículo, perdeu o controle do
carro que capotou. A passageira, sem cinto, machucou-se gravemente. Tudo deu a
entender que ela havia morrido. "Que história triste"- pensei. "E
ela morreu?". Ele me respondeu que não, que a visitou por muito tempo no
hospital até que melhorasse. "Visitei tanto que acabei me casando com
ela". E está casado até hoje. Desci do taxi com as palavras na boca. Já
sabia a primeira coisa que falaria quando chegasse ao bar.
Carnaval do Rio de Janeiro. Amigas de colégio
reunidas, amizades antigas, cerveja na veia e muita alegria acumulada. Nessa
data do ano a disposição redobra para cair na rua e dançar, falar bobagens,
fazer brincadeiras e se fantasiar. No meu grupo podia se encontrar de tudo,
lacinhos, bobos da corte, abelhas, mas na nossa maioria éramos o bloco das
noivinhas. Véu na cabeça, chinelo no pé, saímos sem rumo. Assistimos ao bloco
do Sargento Pimenta, homenagem linda aos Beatles ao ritmo de samba. Saímos de
lá desnorteadas, emocionadas. Do outro lado da rua, depois de regarmos umas
moitinhas com os resquícios das modestas cervejas que havíamos consumido,
encontramos a charanga da medicina tocando no meio da rua. A festa recomeçou,
dançamos sem limites. Eu, tímida que sou, fiquei bem perto da bagunça. Um dos
músicos da charanga, tocador de tamborim, resolveu se ausentar para dar uma
volta, ingenuidade. O instrumento passou de mão em mão procurando um dono e eu
logo pensei “Eis uma oportunidade para revelar meus dotes musicais" , que
não existem só para ser sincera. Agarrei vitoriosamente aquele instrumento que
jamais tinha tocado. A charanga continuou a sua saga carnavalesca e eu,
mergulhada no mais profundo da minha alma musical, comecei a tocar. Senti-me
brilhante, extasiada, quanto talento, como é bom tocar. Mentira. A charanga
parou, pois a novata estava desafinando a melodia. Quem eu? Não acredito...O
tocador de atabaque, pacientemente tentou me ensinar uma batida fácil em que eu
só tinha que mudar o ritmo de música em música. Tentei, juro que tentei, mas
não deu certo. Parou novamente a charanga e mais uma vez tentou me ensinar. Não
deu certo. Na minha cabeça a música soava perfeitamente, mas essa sensação não
era compartilhada pelos demais, eu não conseguia entender
essa disparidade. Enfim, eu e a banda resolvemos relaxar e recebi o aval
do tocador de atabaque, muito simpático por sinal, para tocar sem apego à
melodia. Foi uma diversão só, bem estereotípica carnavalesca, dançar, tocar,
cantar, sem preocupações. Afinal de contas não é essa toda a proposta do
carnaval? O dia em que todos são iguais? Até os músicos dos não músicos ora
bolas! Foi um dia maravilhoso...
Aproveitando o ritmo de alegria, estava eu em
Parias hospedada na casa de minha querida prima Tati que mora lá há sete anos.
Sempre me propõe programas charmosos em Paris, como tomar um vinho em um café
ou cozinhar sob a vista maravilhosa de sua sacada. Nesta noite, não foi um
vinho, foram vários e vários vinhos. Começamos eu, ela, Carol minha querida
amiga e Igor um grande amigo de Tati a bebericar em um Café/bar próximo a casa
dela, um charme o local. Toldo listrado de vermelho e branco, garçons vestidos
com macacões e as mesas bem próximas uma das outras, assim como os fregueses.
Perfeito para ver a vida passar nessa cidade charmosa. Dia quente com céu azul.
Programa providencial. No final da noite éramos mais ou menos dez pessoas, pois
vez o outra chegava um novo amigo, uma nova pessoa simpática e com isso mais
vinho. Já dá para imaginar o resultado de tanta uva. Para não falar outra
coisa. Nossa alegria nos motivou a ir em busca de um local para dançar. Paramos
em um bar já conhecido pela minha prima para irmos ao banheiro. Mas a festa não
pode acabar. O pianista, percebendo o nosso alvoroço, começou a tocar algumas
músicas em português e nós, extasiados por estarmos em Paris ouvindo músicas
brasileiras, começamos a dançar infinitamente. Sambamos, cantamos e pedimos
mais vinho. Quase tomamos o lugar do pianista com tanto barulho e tamanha
alegria de ser brasileiro. Não tem nada como viver a alegria de coração aberto.
A noite rendeu boas risadas, boas lembranças e uma boa dor de cabeça. Mas valeu
a pena. Obrigado, Paris...
Não é preciso muito para compor um texto. Menos
ainda para compor a vida, basta ajustar o olhar e as companhias. Alguns
momentos se desenrolam de um jeito especial, mas no fundo eles dependem mais do
espírito com que os encaramos, do que da situação de fato. Dependem mais do
nosso olhar, da nossa energia e capacidade de admirar pequenas
"bobagens" como o lado belo da vida, do que de grandes construções e
uma carteira cheia. Não é preciso Paris, muito menos o Rio para se viver bem,
feliz. A matéria-prima para isso se chama alegria e otimismo. Esses
ingredientes são essenciais todos os dias, necessariamente. Desta forma,
"casinhos" interessantes, gostosos de se transformar em palavras
ficam dignos de admiração. Repensar nessas pequenas historinhas foi muito
gostoso. Obrigada pela oportunidade, leitores.