quinta-feira, 9 de agosto de 2012


Historinhas

As histórias, pequenas que sejam, têm um sabor diferenciado. Às vezes, jogando conversa fora com algum amigo, escuto algum caso digno de registro. Podem parecer bobos, como uma pequena fruta jogada ao lado de uma árvore florida, mas quando saboreados revelam um doce que deixa a vida interessante. Saltamos dos livros de vez em quando. Ou então os livros é que saltam de nós, vai saber. Escutar me faz repensar e achar no percurso da minha vida essa pequenas preciosidades perdidas nos relatos de mesas de bar e conversas ao telefone. Vamos a algumas delas...

Amigos passeavam por Lisboa de férias (ai que palavra maravilhosa). Fervorosos pelo turismo andavam em busca de qualquer novidade. A ideia é conhecer tudo, sem critério. Transformamo-nos em figuras peculiares volta e outra, chega a ser engraçado.  Os dois então,  depararam-se com um aglomerado de pessoas em uma fila. Fila? Tem que entrar. Descobrem que estão no enterro de alguém. Ao chegar perto do defunto, quem era? Que surpresa, era o Saramago. Ao lado do túmulo se localizava uma foto deste mestre, rei das palavras. Não é a toa que tantas pessoas, tristes pela grande perda, reuniam-se ali.  As notícias passam desapercebidas quando se viaja, não sabiam do falecido. Achei fascinante conhecer alguém que já viu o Saramago. Mesmo que seja fora de vida, pelo menos ainda foi em tempo. Falar de última chance em? Conheço pessoas que frequentam todo tipo de evento, mas acho que o enterro de uma pessoa ilustre como essa é a primeira. Que coincidência...

Férias de Julho, mochila nas costas, primeiro destino Lisboa. Cheguei no albergue sem saber o que esperar dessa parte da viagem em que estava sozinha. O ambiente do albergue era delicioso, paredes com pinturas personalizadas, cama confortável, mesa de madeira na cozinha, puffs espalhados por toda a sala e vinho do porto a vontade. Logo conheci um grupo de americanos e australianos carentes de companhias para enfrentar a cidade como eu. Tenho que me cuidar se não falarei sobre Lisboa o texto todo, essa cidade é um charme. Pastel de Belém, Bairro Alto, tomar fininhos (chopp), comer bacalhau, ver a estátua do Fernando Pessoa, passear por Sintra, mágico. Voltando a minha historinha, combinei com meus novos amigos de ver o pôr do sol (que acontece 9 horas da noite) em um mirante, mas por razões soníferas saí atrasada para encontrá-los no local marcado. Mapa na mão a procura do local, andando e, ao mesmo tempo, tentando me localizar nas ruas do Bairro Alto. Olho no mapa, olho na rua, olho no mapa, olho na rua. Bairro movimentado só para constatar. Eu vestia um modelito verão, metida a europeia. Sem perceber passei por uma saída de ar poderosa. Meu vestido de verão voou revelando minha calcinha envolta pela minha dolera  bege que guardava seguramente meu passaporte e algum dinheiro. Cena nada atraente, devo dizer. Sensação desconcertante, pois não tinha nenhum amigo para apresentar o meu sorriso amarelo de vergonha. A rua movimentada continuou o seu percurso, mas antes me presenteou com algumas risadas. Segui caminho olhando para baixo, com cuidado para não pagar de Marilyn Monroe de novo. No fundo culpava o mapa e minha distração. Perdi o pôr do sol e ainda "paguei calcinha". Que viagem...

Na loucura que é conseguir um taxi em Belo Horizonte aos finais de semana dei sorte e consegui apanhar um. Destino Savassi, cerveja com as amigas da Psicologia, motorista simpático. Conversa vai conversa vem, iniciamos uma discussão sobre a importância do cinto de segurança no banco de trás. Acho que devo confessar que fui bastante hipócrita, pois durante toda a exposição das minhas ideias, que eram favoráveis ao cinto, não o estava usando. Incoerências a parte, o tal do taxista começou a me contar uma história interessante. Contou-me que uma vez sofreu um acidente ao dirigir acompanhado de uma passageira sentada na frente que estava sem cinto. O outro carro furou o sinal de pare e ele, tentando desviar do outro veículo, perdeu o controle do carro que capotou. A passageira, sem cinto, machucou-se gravemente. Tudo deu a entender que ela havia morrido. "Que história triste"- pensei. "E ela morreu?". Ele me respondeu que não, que a visitou por muito tempo no hospital até que melhorasse. "Visitei tanto que acabei me casando com ela". E está casado até hoje. Desci do taxi com as palavras na boca. Já sabia a primeira coisa que falaria quando chegasse ao bar.

Carnaval do Rio de Janeiro. Amigas de colégio reunidas, amizades antigas, cerveja na veia e muita alegria acumulada. Nessa data do ano a disposição redobra para cair na rua e dançar, falar bobagens, fazer brincadeiras e se fantasiar. No meu grupo podia se encontrar de tudo, lacinhos, bobos da corte, abelhas, mas na nossa maioria éramos o bloco das noivinhas. Véu na cabeça, chinelo no pé, saímos sem rumo. Assistimos ao bloco do Sargento Pimenta, homenagem linda aos Beatles ao ritmo de samba. Saímos de lá desnorteadas, emocionadas. Do outro lado da rua, depois de regarmos umas moitinhas com os resquícios das modestas cervejas que havíamos consumido, encontramos a charanga da medicina tocando no meio da rua. A festa recomeçou, dançamos sem limites. Eu, tímida que sou, fiquei bem perto da bagunça. Um dos músicos da charanga, tocador de tamborim, resolveu se ausentar para dar uma volta, ingenuidade. O instrumento passou de mão em mão procurando um dono e eu logo pensei “Eis uma oportunidade para revelar meus dotes musicais" , que não existem só para ser sincera. Agarrei vitoriosamente aquele instrumento que jamais tinha tocado. A charanga continuou a sua saga carnavalesca e eu, mergulhada no mais profundo da minha alma musical, comecei a tocar. Senti-me brilhante, extasiada, quanto talento, como é bom tocar. Mentira. A charanga parou, pois a novata estava desafinando a melodia. Quem eu? Não acredito...O tocador de atabaque, pacientemente tentou me ensinar uma batida fácil em que eu só tinha que mudar o ritmo de música em música. Tentei, juro que tentei, mas não deu certo. Parou novamente a charanga e mais uma vez tentou me ensinar. Não deu certo. Na minha cabeça a música soava perfeitamente, mas essa sensação não era compartilhada pelos demais, eu não conseguia entender essa disparidade. Enfim, eu e a banda resolvemos relaxar e recebi o aval do tocador de atabaque, muito simpático por sinal, para tocar sem apego à melodia. Foi uma diversão só, bem estereotípica carnavalesca, dançar, tocar, cantar, sem preocupações. Afinal de contas não é essa toda a proposta do carnaval? O dia em que todos são iguais? Até os músicos dos não músicos ora bolas! Foi um dia maravilhoso...

Aproveitando o ritmo de alegria, estava eu em Parias hospedada na casa de minha querida prima Tati que mora lá há sete anos. Sempre me propõe programas charmosos em Paris, como tomar um vinho em um café ou cozinhar sob a vista maravilhosa de sua sacada. Nesta noite, não foi um vinho, foram vários e vários vinhos. Começamos eu, ela, Carol minha querida amiga e Igor um grande amigo de Tati a bebericar em um Café/bar próximo a casa dela, um charme o local. Toldo listrado de vermelho e branco, garçons vestidos com macacões e as mesas bem próximas uma das outras, assim como os fregueses. Perfeito para ver a vida passar nessa cidade charmosa. Dia quente com céu azul. Programa providencial. No final da noite éramos mais ou menos dez pessoas, pois vez o outra chegava um novo amigo, uma nova pessoa simpática e com isso mais vinho. Já dá para imaginar o resultado de tanta uva. Para não falar outra coisa. Nossa alegria nos motivou a ir em busca de um local para dançar. Paramos em um bar já conhecido pela minha prima para irmos ao banheiro. Mas a festa não pode acabar. O pianista, percebendo o nosso alvoroço, começou a tocar algumas músicas em português e nós, extasiados por estarmos em Paris ouvindo músicas brasileiras, começamos a dançar infinitamente. Sambamos, cantamos e pedimos mais vinho. Quase tomamos o lugar do pianista com tanto barulho e tamanha alegria de ser brasileiro. Não tem nada como viver a alegria de coração aberto. A noite rendeu boas risadas, boas lembranças e uma boa dor de cabeça. Mas valeu a pena. Obrigado, Paris...


Não é preciso muito para compor um texto. Menos ainda para compor a vida, basta ajustar o olhar e as companhias. Alguns momentos se desenrolam de um jeito especial, mas no fundo eles dependem mais do espírito com que os encaramos, do que da situação de fato. Dependem mais do nosso olhar, da nossa energia e capacidade de admirar pequenas "bobagens" como o lado belo da vida, do que de grandes construções e uma carteira cheia. Não é preciso Paris, muito menos o Rio para se viver bem, feliz. A matéria-prima para isso se chama alegria e otimismo. Esses ingredientes são essenciais todos os dias, necessariamente. Desta forma, "casinhos" interessantes, gostosos de se transformar em palavras ficam dignos de admiração. Repensar nessas pequenas historinhas foi muito gostoso. Obrigada pela oportunidade, leitores.