terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Tudo Sempre igual 

Hoje, depois de rever o Poderoso Chefão na ótima companhia de meu pai, voltei ao meu quarto para desarrumar a minha cama para dormir. Sempre fecho a janela primeiro e, ao fazê-lo, lembrei-me de um hábito que havia esquecido que estava habituada. Todas as noites, antes de dormir, no meu mágico ritual de fechar a janela do quarto, sempre paro um instante para cheirar a noite. Tudo envolve a observação dessa dama de vestido preto, que compõe a trivial vista da meu quarto, como brincos brilhantes como a lua. Tudo sempre igual, agora, com a trivialidade perturbada por um novo prédio, que me roubou o pôr do sol. 

 Subitamente, sou sempre surpreendida com o cheiro da noite, leve, mas denso e sempre delicioso. Trazido por uma bossa suave, que beija o meu rosto lentamente, e mexe os meus cabelos como um leve carinho que me faz cócegas. É como o cheiro de um bolo doce, que lembra carinhosamente uma avó. Da mesma forma, o odor da noite me lembra o passado, ou aquilo tudo que poderia ter sido. 

Lembra-me de conversas calmas ao luar, olhares sonhadores, ou novas possibilidades de diversão e memórias, o que sempre procurei nas noites frias ou quentes. A frase de Oscar Wilde nunca fez tanto sentido, “ Estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas”. Talvez seja isso mesmo. Eu gosto de olhar. E olho sempre. 

Ao deitar e seguir o meu ritual de leituras antes do sono, acho que estou ficando velha (sem envelhecer), pensei no que realmente o que importa na vida. Larguei a Piauí e uma interessante reportagem sobre Cuba, que me pareceu decadente aos olhos do escritor, e sobre Padura, autor do Homem que Amava os Cachorros, livro que já aguarda para ser lido por mim. Este homem é um dos únicos escritores que ainda ousa criticar a Cuba que tanto ama, e permanecer nela. Além desta revista, coloquei de lado também o livro que conta a história de Tristão e Isolda, lenda medieval de autor desconhecido. 

Minha conclusão sobre esta singela e, quem sabe boba, reflexão antes de dormir: penso que o que importa na vida são somente, e tão somente, as relações bem vividas, as viagens, os sorrisos, as noites e os livros. Claro, os livros, meu caso de amor. Termino com a frase Jules Renard que traduz o sentimento que levei para o mundo dos sonhos comigo neste dia, ou melhor, nesta noite: “ Quando penso em todos os livros que ainda posso ler, tenho a certeza de ser feliz.”

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Mil Vidas

Talvez agora, diante de uma nova oportunidade e de uma nova possibilidade de me apaixonar pelo que pretendo fazer, seja o momento de voltar a escrever. Nem acredito que talvez as coisas possam dar certo, ou não, mas gosto de acreditar que sim. E como não comemorar este momento fazendo o que mais gosto? Hoje sentei animada e motivada em frente ao computador, sentimentos que não sentia fazia muito tempo. O trabalho pode nos absorver completamente, quem sabe, inibir qualquer que seja a nossa fonte de inspiração. Nesse meio tempo de novas possibilidades ainda não concretizadas, um turbilhão de ideias passou pela minha cabeça, algumas criativas, outras não, mas é assim que as coisas novas se iniciam afinal. Por que não incentivar as pessoas a lerem, a se aventurarem pelas tantas vidas que são possíveis, a partir do que eu vejo lendo? Outro dia, caminhando por Lavras Novas em uma deliciosa viagem com meu amor, entrei em uma livraria bastante interessante. Não sei se posso assim chamá-la, já que não vendia livros propriamente, mas era um espaço com uma bela decoração onde se podia trocar os livros que se estava lendo com algum livro da proprietária, claro, se ela se interessasse pelo seu e você pelo dela. Perdi-me por aquele pedacinho de porta do céu, com uma decoração semelhante do que penso ser um lugar ideal para se ler. Livros em prateleiras nada tradicionais, muitas cores, e frases maravilhosas escritas nos moveis que ali se situavam. Uma frase que chamou a minha atenção segue: “ Un lector vive mil vidas antes de morir, el que no lee, solo vive una”. Foi como se aquelas palavras fossem extraídas da minha boca, do meu coração. Sinto-me assim toda vez que leio um livro. Conversei muito com Cintia, uma Moça curiosa, de coração aberto e com história de vida bastante interessante. A partir disso, a vontade já acesa dentro do meu corpo, virou uma ordem, um desejo, um objetivo de vida. Lembrei-me do livro que acabara de ler, que se chama “O Banqueiro dos Pobres”, que conta a historia de Muhammad Yunus, um economista de Bangladesh que parece não ver limite para o que acredita. Este nobre homem foi capaz de peitar um sistema de exploração que acontece da mesma forma em todo o mundo, de olhar nos olhos malignos da pobreza e de desconstruir o sistema elitizado com que os bancos eram (são) criados, ou seja, que segregam os pobres. Foi capaz de criticar as políticas assistencialistas e demonstrar o mal que elas fazem para o espírito empreendedor que cada um que garante a sua sobrevivência é capaz de ter. A pobreza é talvez a mais antiga das cóleras que alastra o mundo, e mesmo pisando na lua, ainda não fomos capaz de acabar com ela. Na verdade, acredito que não seja um problema de capacidade, mas sim de negligencia, de descaso e comodismo. Lembrei-me tanto dos catadores de papel, objetivo maior do meu ultimo emprego como consultora, onde o que buscávamos através de projetos era a sua ascensão, o seu protagonismo, o rompimentos com os exploradores atravessadores, para que pudessem ser reconhecidos por todos como trabalhadores cuja atividade preserva o mundo, no sentido econômico, ambiental e social. Eu pude ver as palavras do Muhammad nesta realidade ainda pouco desnudada. Parêntesis, recomendo o documentário “ Aterro” de Marcelo Reis, para aqueles que gostariam de conhecer as poderosas catadoras que trabalhavam no antigo lixão de Belo Horizonte, e como foram guerreiras, capazes de vencer na vida, reciclando. São verdadeiras artistas, o filme vale a pena. Parabéns ao diretor que compreendeu bem o que a realidade parece ser, pelo menos ao meus olhos também. Injusta. Por fim, falei de muita coisa, mas não falei do que queria falar. é claro que a minha causa nem chega aos pés daquilo que Muhhamad Yunus fez, mas talvez o meu sonho seja de que todos os brasileiros se apropriem da literatura e da leitura, como uma forma de libertação. Educar é libertar, como já disse Frei Beto. E assim possam essas tantas histórias e realidades, que nada são mais do que o retrato do humano, de si mesmos, fazer com que todos queiram mudar o mundo alguma forma positiva, que seja como uma forma de melhorarem a si mesmos. Fica aqui, talvez, o início de uma história.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Jequitinhonha e Coleta Seletiva

Estou eu aqui no meu quartinho de hotel, em Jequitinhonha, convivendo com um inseto que quero chamar de grilo, mas tenho certeza de que não é um (desculpem meus queridos biólogos, insetos não são meu forte), tentando estabelecer um procedimento de convivência pacífico com ele. Ele lá eu cá. Ando pensando também, em tudo que vivi nesses últimos dias. Essa não é a primeira vez que venho nessa terra de gente simpática e simples, onde o céu parece mais próximo do que a própria terra. Aqui, o entardecer me transmite uma profundidade envolvente, embriagante, contornado pelas montanhas coloridas e pelos ipês, amarelos como gemas de ovos. Talvez sejam essas terras a minha inspiração para voltar a escrever, embora o escritor amante nunca o pare de fazê-lo, pois tem a mente como uma bela página em branco. Muitos caminhos me trouxeram ao Vale do Jequitinhonha no passado. A visita aos prefeitos de 16 municípios do Baixo Jequitinhonha,os seminários, o acompanhamento do trabalho, as estradas de terra, as montanhas tão simpáticas, a calma da zona rural (quase o nada), as estradas que passam literalmente por cima das rochas e as casas perdidas no meio do vale. Um cenário realmente fotográfico, onde se pode observar os trabalhadores tranquilos cuidarem de sua subsistência, ao som do vento, em um cenário indescritível. As montanhas e o canto do vento, somente. O estigma da pobreza chega a ser injusto diante da beleza desse povo, dessa cultura, transmitidos em toda a beleza natural que pode ser observada por estas terras. Pois bem, a minha missão por aqui é fruto de um trabalho que vem sendo feito desde o ano passado e que será culminado com a implantação da coleta seletiva em grande festa que acontecerá em duas semanas. Esta atividade parece a mim, de fato, uma experiência bastante interessante. Observar o mundo mineiro sobre diversas óticas, distintas e peculiares, conhecendo os municípios que juntos compõe o estado que tanto amo. Talvez seja a minha oportunidade de chegar mais perto dessa inatingível realidade que é o mundo. Aqui estive com os catadores, atores principais de toda essa história, que começaram a dar seu sangue há mais ou menos 60 anos atrás, dando início à verdadeira coleta seletiva no Brasil. Hoje, já reconhecidos pela sua profissão pela Classificação Brasileira de Ocupações, ainda trabalham em muitos municípios em lixões, nas ruas, invisíveis. Aprendi a enxerga-los, a escutá-los a adorá-los. Aqui em Jequitinhonha demos início à mudança da história de alguns dos catadores, junto a outros companheiros. Foi contagiante ouvir a história de vida do Seu Davi, que cata há 23 anos e me disse que sua profissão é um caso sério, que não gosta de "bestar", trabalha até domingo. Agora enfim, este senhor muito forte e trabalhador terá o seu esforço reconhecido. O meio ambiente agradece também. Temos trabalhado nos últimos dias para garantir que tudo aconteça: o caminhão esteja pronto para começar, a associação de catadores esteja estruturada, os cidadãos informados e mobilizados. Foi interessante e estranho ao mesmo tempo voltar às salas de aula e observar, em um passado próximo na minha memória, aqueles jovens, desatentos e muito atentos ao mesmo tempo me questionando e prontos para fazerem a mobilização de rua, passando de porta a porta para preparar os moradores do presente município para a coleta seletiva. No dia do lançamento será feito um cortejo, em que um grupo de teatro local, com toda sua arte, acompanhará 800 alunos caracterizados com as cores da coleta seletiva (vermelho, azul, verde e amarelo), junto ao caminhão até o local da festa. Talvez isso pareça um programa de índio para alguns dos meus leitores, mas para mim e para esta pequena cidade é um grande passo. É a primeira de toda a região a ter o serviço de coleta seletiva. Antes de ir embora, repenso o quanto essa terra é forte e sofrida. Na sala de espera para uma reunião, ouvi um secretário dizer que a zona rural está totalmente sem água e que se preparava para declarar situação de calamidade pública. Foi pesado ouvir e lembrar que ainda estamos longe de qualquer coisa como a justiça e igualdade. As pessoas ainda ficam sem água e é complicado entender isso, olhando para o meu Iphone, que faz quase tudo, mas nao brota água. Pela manhã com a brisa morna na minha cara vi o rio Jequitinhonha exibir pedras e barcos ao mesmo tempo, seco e abandonado. Os rios não deveriam ser cobertos e sujos como fazemos em várias cidades brasileiras, deveriam ser valorizados, livres para exibirem a sua beleza e revigorar a força de um povo desigual. Sinto que tudo faz sentido se existem pessoas envolvidas e que acreditam em alguma coisa melhor. Quem sabe este é o começo.Quem sabe esta é uma marca minha em um lugar qualquer, lugar único, Jequitinhonha.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Lembrei-me

Lembrei-me do Chile, quando tinha quase vinte anos de idade, acompanhada da minha família em uma visita a um café com pernas, um ambiente fechado, central, onde somente homens ( e alguns turistas curiosos) vão beber café na hora do almoço, servidos por belas mulheres de corpos desenhados, seminuas. Lembro-me das risadas da minha avó ao assistir aquela cena. Cultura é uma coisa peculiar. Estive em território chileno de passagem, não pude conhecer em abundância a cultura local. Apesar disso, pude vislumbrar o vulcão de Pucón, comer nos restaurantes localizados em pequenas casas de madeira muito charmosas e perder um pouco de dinheiro em um grande cassino naquela cidade. Fiz arvorismo na neve e sob um cenário interessante, parei de sentir as minhas mãos de tanto frio. Fui na casa de Pablo Neruda em Santiago e em um belo mercado onde fiz uma gostosa refeição acompanhada de boas companhias e uma cerveja gelada. Fui a uma colônia alemã e participei de uma degustação de gostosas cervejas, comi salsicha e comprei um chapéu, para não perder a tradição do turista clichê que compra coisas que vão ficar logo esquecidas no armário, porque são típicas e muito necessárias no momento em que são vistas. Observei o Oceano Pacífico pela primeira vez do alto de um penhasco. Vi muito, mas ainda tenho que voltar, nunca se pode ver tudo, viver tudo, conhecer a todos, deve-se sempre ter um motivo para retornar, mesmo que isso possa nunca acontecer. Lembro-me de dividir um quarto de hotel com uma velha amiga da escola. As gargalhadas e boas lembranças não me saem da memória e, apesar de ainda mantermos aquela amizade gostosa, que só se adquire na escola, sinto saudades desses momentos, espontâneos em que havia tempo de sobra para manifestar o carinho que se tem por um amigo. Hoje vejo que foi um privilégio viajar com a minha família e amigos, mesmo diante dos tombos patéticos que tomei esquiando, seguido do bom chopp gelado na estação de esqui que tive o prazer de saborear (cura qualquer machucado, uma maravilha), observando aquela vista que nunca me parecerá casual, as montanhas cobertas de neve. Sempre me parecerão um pouco de algodão solto no céu. Lembrei-me de como é bom se ter primos de quem se é amigo e se tem afinidade para dividir uma viagem, um sofá da casa da avó, uma mesa de bar ou até uma angústia familiar. Porque os meus primos são como irmãos, grandes companheiros. Não sei porque hoje fiquei com vontade de lembrar do meu passado, talvez seja para aprisioná-lo em meu corpo de alguma forma e não admitir que o tempo está passando e que com ele algumas coisas têm ficado para trás, que me são muito valiosas. Algumas pessoas, amigos, lugares, sentimentos e mesmo lembranças. Não gosto muito disso, apesar de considerar o gosto da nostalgia doce. Lembrei-me de muito samba também dos primeiros anos da faculdade, nas festas da Federal, no Zanzibar, em um bar que tinha uma parede de escalada no fundo e sinuca no segundo andar (o nome não me vem na cabeça por nada), Vinil, Utópica, Festival de Samba, muito muito samba...Talvez essa memória tenha pulado no meio do meu raciocínio porque ao fundo escuto Samba de Orly ...“Como é que anda a aquela vida boa e se puder me manda uma notícia boa...”. Já não vejo há alguns anos alguns colegas de faculdade, sobretudo aqueles que por algum motivo não fazem parte daqueles que chamo de melhores amigos hoje. Não sei de nada que ocorre em suas vidas, nem eles na minha. Hoje olho pra minha vida e penso no que tenho: bons amigos, um bom companheiro, uma família próxima. Vejo que trabalho ajudando uma classe de trabalhadores que é considerada marginal para muitos, mas que tem belas histórias. O mais importante é que aprendo todos os dias, diante de frustrações e desafios que a vida laboral impõe. Aprendi a cozinhar também, e melhoro a cada dia, coisa que não sabia fazer muito bem, somente com folhas secas de árvores, picadas e misturadas a todos os temperos da minha cozinha, regalia da minha mãe para uma infância colorida. Outro dia vi uma fotografia em que eu e meu irmão, quando éramos bem pequenos, vestidos com pijamas de inverno, ajudávamos meu pai a temperar dois peixes e posávamos para a foto com um sorriso orgulhoso, segurando duas postas de peixe abarrotadas de farinha de trigo. Mas naquela época eu não gostava de peixe, hoje adoro, especialmente cru. Mais uma coisa que mudou. Hoje fiquei com vontade de escrever e lembrar, pensar, mania de quem estuda a aprende com as palavras. Hoje me lembrei do pouquinho do tanto de coisa que devo ter esquecido, e resolvi me deixar navegar pelo mar profundo que é a memória, o passado. Mas só por um breve momento, passageiro como um suspiro, se não é esse o tempo de nossa passagem pela vida.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

2013




Diminuir no sal e na gordura, fazer do esporte um hábito, voltar a escrever, jamais parar de ler, fazer uma viagem especial com meu amor, diminuir as despesas em casa, terminar de escrever meu livro, começara pós-graduação, comprometer-me mais com a ONG Cisv, arrumar maneiras de demonstrar para as pessoas queridas o que elas representam para mim, comprar um presente bacana quando for madrinha, ser ótima madrinha, irmã, filha, amiga, namorada (não necessariamente nessa ordem), tentar sempre ser melhor do que fui no passado, curtir cada dia (mesmo os chatos).

Recesso de final de ano,  fui a praia me despedir do ano que ia e dar as boas vindas ao ano que chegava. A Bahia tem um efeito muito positivo sobre as minhas energias e sobre as minhas ideias. Lá consigo processar que é hora de me preparar para um ano novo e reativar o meu
gás para tentar dar o melhor de mim em tudo que está por vir. Não poderia esquecer, é claro, de listar tudo que desejo realizar em 2013, mesmo que em utopia. Mas se não começamos o ano desejando o que sonhamos, estaremos mais longe do atingirmos nossos sonhos. Foi isso que fiz um dia pela manhã, ainda deitada na cama, enrolando para levantar.

A viagem foi maravilhosa, pude reunir amor, amigos, irmão e prima em uma só casa. Tomar cerveja, caipis, comer acarajé, peixe recheado com camarão, bobó , camarão na moranga, isca de peixe e lagosta ao catupiry foram um dos sabores dessa viagem. O melhor de tudo, foi a possibilidade de relaxar, falar bobagens, molhar o corpo no mar, olhar para o céu e pensar na vida. Lembrar que, apesar de ser uma pessoa que teve e ainda tem muitas oportunidades, que teve a possibilidade de gozar do que a vida tem de bom, existem pessoas que não tiveram o mesmo privilégio. Às vezes meu pensamento me leva longe, leva-me a questionar o quanto o mundo é injusto e desigual. Vejo crianças trabalhando no sol o dia todo, pessoas se submetendo a muitos tipos de trabalho por uma salário miserável. Não existe nada de errado em trabalhar, seja como for, erradas são as condições em que, por vezes, temos que nos submeter em troca do nosso sustento. E pensar nisso me entristece, é como se o meu lazer fosse banhado por um quê de realidade que me faz sentir culpa.

Consolo-me com o fato de que, com pequenas ações e com meu trabalho, tento mudar o mundo, mas às vezes fico descrente quando paro para observar a realidade. Ainda existe muito a ser feito, começando por 2013. Depois de tantas reflexões, busquei o mar como uma forma de renovar a alma e relembrar que posso ser feliz  e ao mesmo tempo sensível ao que acontece ao meu redor. Basta que eu devolva para o mundo o que recebi, com ações que considero corretas e justas.

Desci no rio que vai de encontro ao mar boiando, nada mal. De mãos dadas com meu bem, rimos até dos constantes tombos que levava ao tentar levantar. Dar gargalhadas, contar piadas, dormir e ler, vida boa essa da praia! Fazer planos, quem sabe reais, quem sabe só sonhos, de morar na praia com meu bem, comprar uma pousada, viver a vida de chinelo e vestido, rindo do tempo. Será que a vida na praia é assim, ou eu é que gosto de pensar que pode ser assim?  O bom de viajar é permitir que a nossa mente realize planos nunca concebidos. Não cabem nos meus dedos quantas viagens improváveis (e prováveis também) planejo ao viajar, mas não é essa a graça toda de dar um tempo para si mesmo? Mesmo se tudo for diferente, vale a pena sonhar...

Ver um céu estrelado chegando de barco em Caraíva e abraçar com força alguém querido na virada do ano. Que data feliz. Fui vestida de saída de praia branca com estampa de corujinhas: paz e sabedoria para mim neste ano, não importa o que acontecer. Ver os fogos de mãos dadas com meu amor, e reencontrar, dentro de mim, toda a energia e alegria de viver que me mantém em pé. Lembrar que ser jovem é poder dormir na praia, no banco, na sombra e no sol e ainda acordar e curtir uma praia, feliz da vida.

Rir por horas de uma palavra boba e sem importância. Lembrar-me de alguns defeitos e várias qualidades das amizades e familiares que só se conhece viajando e, mais ainda, relembrar os meus defeitos. E rir deles. Viajar por mim mesma, pelas nuvens e pelas tantas estradas (longas) que me conduziram de Minas até a Bahia. Viajar de carro para ficar pertinho, conversar, escutar aquelas músicas gostosas e antigas, ver a vista das montanhas - em especial a pedra que tem uma rachadura em formato de boca no meio dela, fica perto de Teófilo Otoni, é linda
(sempre imaginei que ela fosse me engolir quando era criança, morria de medo)-, fazer o jogo dos caminhões e ganhar de lavada. Na ida e na volta.

E finalmente chegar, retornar ao começo de onde saímos estressados e branquelos para voltarmos morenos, tranquilos e sorridentes. Logo vi os primeiros resquícios da cidade onde moro, foram um pouco agressivos aos meus olhos. A fumaça, os carros buzinando e o monstro da contemporaneidade, o trânsito. Dele eu afirmo e reafirmo que jamais sentirei falta, que aborrecedor. Respirei fundo e encontrei as energias renovadas para recomeçar o ano, recomeçar os planos, mesmo que tudo mude depois, que tudo dê errado, ou que dê certo. Amanhã é um novo dia, que venham mais tristezas e alegrias.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Sobre nossos pais

            Acho que todos chegam a uma fase da vida em que as figuras paterna e materna entram em metamorfose. Deixam de ser as únicas referências do que representa a cultura, do que é certo e, sobretudo, de tudo que queremos ser no futuro, para se tornarem seres ambulantes e perdidos como nós. Com o benefício da sabedoria que o tempo vivido garante, mas não isentos das fraquezas que nos dominam.

            Tornamos-nos então, críticos e exigentes com nossos pais, principalmente quando já temos idade para nomear os seus defeitos, quando estes começam a nos incomodar cada vez mais, e, mais ainda, quando temos força para contestá-los. As velhas lições do que é certo ou do que é errado deixam de fazer sentido quando aprendemos a questioná-las. Muitas vezes não concordamos com as mesmas, momento que difere da nossa infância, pois nele temos consciência do porquê pensamos diferente (isso vale mais para aqueles que se conhecem bem do que para os que se renegam). Os pais, pobre coitados, são obrigados a assistir a alguém que já  trocaram as fraldas os questionando e ameaçando abandonar o ninho e voar. 

            Nessa fase, reconhecemos que nossos pais podem ser adolescentes crescidos, zangados com a vida, cheios de questões mal resolvidas. E o pior, passamos o nos reconhecer nos mesmos, o que certamente torna tudo isso mais difícil.Ou então, nem isso conseguimos perceber e aí toda vez que essa característica deles (nossa) aparece, brigamos e ficamos com raiva. Mas na verdade repetimos, fazemos igual. E tentamos ser nós mesmos, uma criação nova do que eles nos ofereceram. Vencemos em alguns quesitos, mas em outros não. Repetimos e repetimos erros e escolhas.

            Acho que talvez o mais bonito dessa história toda, é que, depois de perdermos os nossos super heróis e super heroínas, reconhecemos que nossos pais são humanos solidários o suficiente para fazerem algum tipo de sacrifício por nós. Porque eu tenho certeza de que este sacrifício envolve tristezas e momentos dolorosos. Desde medo, raiva e um gosto amargo que colocar um sonho de lado implica, mesmo que seja por uma pessoa que amamos.

            Todos queremos viver uma vida egoísta no sentido de querer realizar nossas vontades e sonhos mais milaborantes. Mas isso nem sempre é possível, principalmente quando se tem um filho ou uma filha. E não acho que todAs que engravidem devam ser mães. E também não acho que todos e todas consigam abrir mão de suas vidas por uma vida nova, e não há nada de errado nisso. Ninguém é obrigado a ser nada que não queira. Nem pai, nem mãe, nem solteiros, casados, homossexuais, monogâmicos, poligâmicos, chineses, indianos, árabes, brasileiros e por aí vai. Somos livres, certo? A vida é muito curta para se viver a partir da expectativa alheia. Só os filhos é que sempre são obrigados a serem filhos. Veja que impacto, pois sempre serão filhos independente da realidade em que sejam gerados, mesmos que indesejados.

            A paternidade e maternidade não são sagradas. São gestos de altruísmo,  mas para mim, são muito mais belos quando são fruto de uma escolha. A questão aqui é sim, sou a favor do aborto, sou a favor do direito sobre o próprio corpo e sou a favor do direito de escolha. Eu sei, já estudei e já vi os efeitos que pais despreparados podem ter sobre um filho. E é muito fácil culpá-los. Como se fossem seres isolados do mundo em seu universo interior. O externo tem influência sobre nós e somos passíveis de erros. Acho o papo de religião e estado sobre isso balela, uma forma de manter as relações de poder machistas que controlam o corpo feminino. E pensem bem, não sou nada pioneira na minha colocação. Nem na América Latina isso é novo. Em Cuba a Lei que permite o aborto sem restrições vigora desde a Revolução Comunista, em 1959. Agora o Uruguai, mas quando o Brasil? Meu Brasil.

            Não são todas as pessoas que nasceram para serem mães e pais e não acredito em instinto materno ou paterno. O instinto na verdade pode ser uma construção social de um papel que exerce influência sobre nós. A minha visão glorifica, de certa forma, aqueles que escolhem ser pais, e glorifica também aqueles que optaram por uma vida sem filhos. E mesmo assim todos erram, porque não é uma ciência exata produzir (ou não) um ser humano. Mas pelo menos não erram na escolha. 

            Eu não sou mãe, mas hoje tenho um olhar crítico sobre meus pais. Esses seres humanos confusos que me amam muito e que devem ter se sentido indefesos quando viram um bebê que dependia em tudo deles. A ilusão de criança foi deixada para trás e virou um olhar maduro sobre as pessoas que podem errar e ao mesmo tempo nos ajudar. Essa visão que transforma os pais nos maiores artista do mundo, A PARTIR DE UMA ESCOLHA E NÃO UMA IMPOSIÇÃO, é nobre. É se ceder em parte para a vida, para gerar uma vida. Não é a única escolha, nem a melhor delas, mas é certamente muito bonita. Aos pais e mães que erram, acertam e se dão, vocês são fortes e solidários. Aos sem prole, como eu, vamos nos jogar nas escolhas que os outros deixam de lado para realizá-las. Esse também é um belo caminho...



terça-feira, 30 de outubro de 2012



Pedrinho

Estou prestes a acabar um livro e, quando isso acontece, fico mais emotiva, sei lá, mais emocionada.  O final está triste e agora sinto toda aquela melancolia gostosa que um punhado de sentimentos e uma boa história me proporcionam. Acho que um bom livro tem que esse efeito sobre mim. Enfim, essa sensação me obrigou a tirar um tempo  da minha vida mal organizada para voltar a escrever.
Isso me fez pensar em como escolho um tema para escrever. Mas na verdade os temas é que se escolhem, saltam sobre meus olhos e não me dão opção. Não é um processo democrático. Nos dias em que não sei sobre o que escrever, deixo minhas mãos me guiarem sozinha, mas na verdade elas falam dos meus sentimentos. Acho que estou aprendendo a me reconhecer na escrita e transpor o que sinto.   
Enfim, outro dia, depois de um ótimo almoço em um restaurante indiano aqui de Bh (tanto falo desse restaurante, chama-se Namastê), parei em um sinal de trânsito. Momento este em que os meus pensamentos vão longe, principalmente quando estou sozinha, penso nas coisas mais mirabolantes possíveis. No meio dessa corrente confusa de ideias, deparei-me com um dos salões especializados em corte de cabelo para crianças, chamado “Pedrinho”. Acho que aqui em Belo Horizonte a maioria das pessoas da minha idade de classe média o frequentaram quando crianças.
Sua estrutura, sem muita complexidade, é feita para crianças. As cadeiras, onde os condenados a perder suas madeixas se assentam, são carrinhos dos mais variados possível. Ao final do corte, momento entediante para muitas crianças, ganha-se um pirulito. Uma recompensa para a boa criança que ficou quietinha. Bom, pelo menos na minha época era assim que funcionava. Fui pesquisar como anda o salão hoje e vi fotos e mais fotos de crianças assistindo televisão a um metro da cadeirinha, vidrados pelas historinhas televisionadas. As coisas mudaram. Se bem que outro dia, conversando com um amigo querido, descobri que a TV e o vídeo game já se faziam presentes naquela época. Quanta ingenuidade a minha.
Já estava indignada com as crianças de hoje que não sabem usar a imaginação, mas acho que estou equivocada. O fato é que naquela época o espelho que refletia a minha transformação capilar durante uma corrida automobilística (simulada na minha cabeça) era um motivo de diversão. Pelo menos até onde me lembro, posso estar enganada. Descobri também que o Pedrinho não é apenas um nome aleatório comercial, é também uma pessoa que se chama Pedro Máximo, que foi quem fundou a rede de salões (é uma rede de quatro lojas). Foi essa a informação que consegui no site, no dia da história do sinal não deu tempo de descer e entrevistar os funcionários. Talvez minha escrita ficasse mais interessante. Vai saber...
Esse nome Pedrinho é engraçado, todo mundo já teve um vizinho, um colega de escola ou um primo que chama Pedrinho. Eu tive um salão de beleza e um amigo  (mas não chamo ele de Pedrinho). Resolvi fazer uma pesquisa rápida na internet sobre a origem do nome e seu significado. Não sei se posso confiar em todos os sites que li, mas eles repetiram alguns pontos acerca desse nome.
Pedro é um nome de origem grega, Pétros, que significa pedra.  Na bíblia, São Pedro foi um dos apóstolos de Jesus e foi sobre essa pedra, rocha, que se edificou a igreja romana, fundada por ele e São Paulo.  É um dos nomes mais difundidos em todos os idiomas e, de acordo com o que li, significa uma pessoa simples, mas que procura realização pessoal. Interessante relacionar o significado pedra com esse nome e transpô-lo a ideia do Pedrinho, pedrinha. Ser forte como uma pedra significa simplicidade e realização pessoal? É uma forma interessante de se pensar.
Pedrinho (salão) me proporcionou realização capilar, mas de fato é uma pessoa bem sucedida, pois sua rede perdura até hoje. Tanto pensei em Pedros que lembrei de outros, como Pedro I, Pedro II, Pedro Almodóvar, Pedro Bandeira, Pedro Bial (desculpem-me, queria falar só nomes de quem admiro, mas lembrei desse aí também) e claro o Pedrinho, do sítio do Pica Pau Amarelo, jovem aventureiro. E fico pensando em alguma relação cósmica entre eles. São muitas características para condensar, trabalho árduo.
Outro dia li em um artigo na revista Serrote que o nome é uma espécie de vestimenta. Essa vestimenta tão comum, chamada Pedro, poderia indicar alguma coisa?   É interessante pensar que os nomes possam exercer alguma influência sobre o nosso futuro, mas penso que, antes disso, é muito importante ter um nome para se apresentar ao mundo. O nome é o conglomerado da nossa identidade e é a chamada por quem as pessoas que conhecemos vão nos lembrar. Ou seja, é apresentação e memória ao mesmo tempo, presente e passado. Sofre mutações com os apelidos, mas se faz importante na sua origem. E mais do que isso, penso que não há nome bonito, o dono do mesmo sempre o transforma em uma ideia nova. Ou o nome transforma a pessoa? Vixi...
(E as Deborahs? Quem serão? Melhor não cutucar nesse ponto não, rs, hoje já tenho análise ...)
Bom, todo este processo de reflexão mirabolante foi iniciado pelo meu antigo salão de beleza proporcionado por Pedro. Acho que a diversão criada nesse salão se fez importante o suficiente para me gerar uma lembrança (e um texto). O fato é que o mundo visto por uma criança é de fato peculiar. E          nisso, o salão do “Pedrinho” tem de sobra, milhares de pequenos olhares sobre o mundo. É uma mina de ouro. Penso que escrever talvez seja um pouco isso, ser maduro o suficiente para reavaliar o mundo de uma maneira curiosa, assim como uma criança. Talvez seja conseguir fazer esse movimento, quase impossível, de reviver. Mas não só reviver na lembrança, reviver no olhar, na interpretação, na curiosidade e na abertura para abraçar o mundo que só um coração infantil tem.