terça-feira, 27 de agosto de 2013
Lembrei-me
Lembrei-me do Chile, quando tinha quase vinte anos de idade, acompanhada da minha família em uma visita a um café com pernas, um ambiente fechado, central, onde somente homens ( e alguns turistas curiosos) vão beber café na hora do almoço, servidos por belas mulheres de corpos desenhados, seminuas. Lembro-me das risadas da minha avó ao assistir aquela cena. Cultura é uma coisa peculiar.
Estive em território chileno de passagem, não pude conhecer em abundância a cultura local. Apesar disso, pude vislumbrar o vulcão de Pucón, comer nos restaurantes localizados em pequenas casas de madeira muito charmosas e perder um pouco de dinheiro em um grande cassino naquela cidade. Fiz arvorismo na neve e sob um cenário interessante, parei de sentir as minhas mãos de tanto frio.
Fui na casa de Pablo Neruda em Santiago e em um belo mercado onde fiz uma gostosa refeição acompanhada de boas companhias e uma cerveja gelada. Fui a uma colônia alemã e participei de uma degustação de gostosas cervejas, comi salsicha e comprei um chapéu, para não perder a tradição do turista clichê que compra coisas que vão ficar logo esquecidas no armário, porque são típicas e muito necessárias no momento em que são vistas. Observei o Oceano Pacífico pela primeira vez do alto de um penhasco. Vi muito, mas ainda tenho que voltar, nunca se pode ver tudo, viver tudo, conhecer a todos, deve-se sempre ter um motivo para retornar, mesmo que isso possa nunca acontecer.
Lembro-me de dividir um quarto de hotel com uma velha amiga da escola. As gargalhadas e boas lembranças não me saem da memória e, apesar de ainda mantermos aquela amizade gostosa, que só se adquire na escola, sinto saudades desses momentos, espontâneos em que havia tempo de sobra para manifestar o carinho que se tem por um amigo.
Hoje vejo que foi um privilégio viajar com a minha família e amigos, mesmo diante dos tombos patéticos que tomei esquiando, seguido do bom chopp gelado na estação de esqui que tive o prazer de saborear (cura qualquer machucado, uma maravilha), observando aquela vista que nunca me parecerá casual, as montanhas cobertas de neve. Sempre me parecerão um pouco de algodão solto no céu.
Lembrei-me de como é bom se ter primos de quem se é amigo e se tem afinidade para dividir uma viagem, um sofá da casa da avó, uma mesa de bar ou até uma angústia familiar. Porque os meus primos são como irmãos, grandes companheiros. Não sei porque hoje fiquei com vontade de lembrar do meu passado, talvez seja para aprisioná-lo em meu corpo de alguma forma e não admitir que o tempo está passando e que com ele algumas coisas têm ficado para trás, que me são muito valiosas. Algumas pessoas, amigos, lugares, sentimentos e mesmo lembranças. Não gosto muito disso, apesar de considerar o gosto da nostalgia doce.
Lembrei-me de muito samba também dos primeiros anos da faculdade, nas festas da Federal, no Zanzibar, em um bar que tinha uma parede de escalada no fundo e sinuca no segundo andar (o nome não me vem na cabeça por nada), Vinil, Utópica, Festival de Samba, muito muito samba...Talvez essa memória tenha pulado no meio do meu raciocínio porque ao fundo escuto Samba de Orly ...“Como é que anda a aquela vida boa e se puder me manda uma notícia boa...”. Já não vejo há alguns anos alguns colegas de faculdade, sobretudo aqueles que por algum motivo não fazem parte daqueles que chamo de melhores amigos hoje. Não sei de nada que ocorre em suas vidas, nem eles na minha.
Hoje olho pra minha vida e penso no que tenho: bons amigos, um bom companheiro, uma família próxima. Vejo que trabalho ajudando uma classe de trabalhadores que é considerada marginal para muitos, mas que tem belas histórias. O mais importante é que aprendo todos os dias, diante de frustrações e desafios que a vida laboral impõe. Aprendi a cozinhar também, e melhoro a cada dia, coisa que não sabia fazer muito bem, somente com folhas secas de árvores, picadas e misturadas a todos os temperos da minha cozinha, regalia da minha mãe para uma infância colorida.
Outro dia vi uma fotografia em que eu e meu irmão, quando éramos bem pequenos, vestidos com pijamas de inverno, ajudávamos meu pai a temperar dois peixes e posávamos para a foto com um sorriso orgulhoso, segurando duas postas de peixe abarrotadas de farinha de trigo. Mas naquela época eu não gostava de peixe, hoje adoro, especialmente cru. Mais uma coisa que mudou. Hoje fiquei com vontade de escrever e lembrar, pensar, mania de quem estuda a aprende com as palavras. Hoje me lembrei do pouquinho do tanto de coisa que devo ter esquecido, e resolvi me deixar navegar pelo mar profundo que é a memória, o passado. Mas só por um breve momento, passageiro como um suspiro, se não é esse o tempo de nossa passagem pela vida.
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