quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Sobre nossos pais

            Acho que todos chegam a uma fase da vida em que as figuras paterna e materna entram em metamorfose. Deixam de ser as únicas referências do que representa a cultura, do que é certo e, sobretudo, de tudo que queremos ser no futuro, para se tornarem seres ambulantes e perdidos como nós. Com o benefício da sabedoria que o tempo vivido garante, mas não isentos das fraquezas que nos dominam.

            Tornamos-nos então, críticos e exigentes com nossos pais, principalmente quando já temos idade para nomear os seus defeitos, quando estes começam a nos incomodar cada vez mais, e, mais ainda, quando temos força para contestá-los. As velhas lições do que é certo ou do que é errado deixam de fazer sentido quando aprendemos a questioná-las. Muitas vezes não concordamos com as mesmas, momento que difere da nossa infância, pois nele temos consciência do porquê pensamos diferente (isso vale mais para aqueles que se conhecem bem do que para os que se renegam). Os pais, pobre coitados, são obrigados a assistir a alguém que já  trocaram as fraldas os questionando e ameaçando abandonar o ninho e voar. 

            Nessa fase, reconhecemos que nossos pais podem ser adolescentes crescidos, zangados com a vida, cheios de questões mal resolvidas. E o pior, passamos o nos reconhecer nos mesmos, o que certamente torna tudo isso mais difícil.Ou então, nem isso conseguimos perceber e aí toda vez que essa característica deles (nossa) aparece, brigamos e ficamos com raiva. Mas na verdade repetimos, fazemos igual. E tentamos ser nós mesmos, uma criação nova do que eles nos ofereceram. Vencemos em alguns quesitos, mas em outros não. Repetimos e repetimos erros e escolhas.

            Acho que talvez o mais bonito dessa história toda, é que, depois de perdermos os nossos super heróis e super heroínas, reconhecemos que nossos pais são humanos solidários o suficiente para fazerem algum tipo de sacrifício por nós. Porque eu tenho certeza de que este sacrifício envolve tristezas e momentos dolorosos. Desde medo, raiva e um gosto amargo que colocar um sonho de lado implica, mesmo que seja por uma pessoa que amamos.

            Todos queremos viver uma vida egoísta no sentido de querer realizar nossas vontades e sonhos mais milaborantes. Mas isso nem sempre é possível, principalmente quando se tem um filho ou uma filha. E não acho que todAs que engravidem devam ser mães. E também não acho que todos e todas consigam abrir mão de suas vidas por uma vida nova, e não há nada de errado nisso. Ninguém é obrigado a ser nada que não queira. Nem pai, nem mãe, nem solteiros, casados, homossexuais, monogâmicos, poligâmicos, chineses, indianos, árabes, brasileiros e por aí vai. Somos livres, certo? A vida é muito curta para se viver a partir da expectativa alheia. Só os filhos é que sempre são obrigados a serem filhos. Veja que impacto, pois sempre serão filhos independente da realidade em que sejam gerados, mesmos que indesejados.

            A paternidade e maternidade não são sagradas. São gestos de altruísmo,  mas para mim, são muito mais belos quando são fruto de uma escolha. A questão aqui é sim, sou a favor do aborto, sou a favor do direito sobre o próprio corpo e sou a favor do direito de escolha. Eu sei, já estudei e já vi os efeitos que pais despreparados podem ter sobre um filho. E é muito fácil culpá-los. Como se fossem seres isolados do mundo em seu universo interior. O externo tem influência sobre nós e somos passíveis de erros. Acho o papo de religião e estado sobre isso balela, uma forma de manter as relações de poder machistas que controlam o corpo feminino. E pensem bem, não sou nada pioneira na minha colocação. Nem na América Latina isso é novo. Em Cuba a Lei que permite o aborto sem restrições vigora desde a Revolução Comunista, em 1959. Agora o Uruguai, mas quando o Brasil? Meu Brasil.

            Não são todas as pessoas que nasceram para serem mães e pais e não acredito em instinto materno ou paterno. O instinto na verdade pode ser uma construção social de um papel que exerce influência sobre nós. A minha visão glorifica, de certa forma, aqueles que escolhem ser pais, e glorifica também aqueles que optaram por uma vida sem filhos. E mesmo assim todos erram, porque não é uma ciência exata produzir (ou não) um ser humano. Mas pelo menos não erram na escolha. 

            Eu não sou mãe, mas hoje tenho um olhar crítico sobre meus pais. Esses seres humanos confusos que me amam muito e que devem ter se sentido indefesos quando viram um bebê que dependia em tudo deles. A ilusão de criança foi deixada para trás e virou um olhar maduro sobre as pessoas que podem errar e ao mesmo tempo nos ajudar. Essa visão que transforma os pais nos maiores artista do mundo, A PARTIR DE UMA ESCOLHA E NÃO UMA IMPOSIÇÃO, é nobre. É se ceder em parte para a vida, para gerar uma vida. Não é a única escolha, nem a melhor delas, mas é certamente muito bonita. Aos pais e mães que erram, acertam e se dão, vocês são fortes e solidários. Aos sem prole, como eu, vamos nos jogar nas escolhas que os outros deixam de lado para realizá-las. Esse também é um belo caminho...



terça-feira, 30 de outubro de 2012



Pedrinho

Estou prestes a acabar um livro e, quando isso acontece, fico mais emotiva, sei lá, mais emocionada.  O final está triste e agora sinto toda aquela melancolia gostosa que um punhado de sentimentos e uma boa história me proporcionam. Acho que um bom livro tem que esse efeito sobre mim. Enfim, essa sensação me obrigou a tirar um tempo  da minha vida mal organizada para voltar a escrever.
Isso me fez pensar em como escolho um tema para escrever. Mas na verdade os temas é que se escolhem, saltam sobre meus olhos e não me dão opção. Não é um processo democrático. Nos dias em que não sei sobre o que escrever, deixo minhas mãos me guiarem sozinha, mas na verdade elas falam dos meus sentimentos. Acho que estou aprendendo a me reconhecer na escrita e transpor o que sinto.   
Enfim, outro dia, depois de um ótimo almoço em um restaurante indiano aqui de Bh (tanto falo desse restaurante, chama-se Namastê), parei em um sinal de trânsito. Momento este em que os meus pensamentos vão longe, principalmente quando estou sozinha, penso nas coisas mais mirabolantes possíveis. No meio dessa corrente confusa de ideias, deparei-me com um dos salões especializados em corte de cabelo para crianças, chamado “Pedrinho”. Acho que aqui em Belo Horizonte a maioria das pessoas da minha idade de classe média o frequentaram quando crianças.
Sua estrutura, sem muita complexidade, é feita para crianças. As cadeiras, onde os condenados a perder suas madeixas se assentam, são carrinhos dos mais variados possível. Ao final do corte, momento entediante para muitas crianças, ganha-se um pirulito. Uma recompensa para a boa criança que ficou quietinha. Bom, pelo menos na minha época era assim que funcionava. Fui pesquisar como anda o salão hoje e vi fotos e mais fotos de crianças assistindo televisão a um metro da cadeirinha, vidrados pelas historinhas televisionadas. As coisas mudaram. Se bem que outro dia, conversando com um amigo querido, descobri que a TV e o vídeo game já se faziam presentes naquela época. Quanta ingenuidade a minha.
Já estava indignada com as crianças de hoje que não sabem usar a imaginação, mas acho que estou equivocada. O fato é que naquela época o espelho que refletia a minha transformação capilar durante uma corrida automobilística (simulada na minha cabeça) era um motivo de diversão. Pelo menos até onde me lembro, posso estar enganada. Descobri também que o Pedrinho não é apenas um nome aleatório comercial, é também uma pessoa que se chama Pedro Máximo, que foi quem fundou a rede de salões (é uma rede de quatro lojas). Foi essa a informação que consegui no site, no dia da história do sinal não deu tempo de descer e entrevistar os funcionários. Talvez minha escrita ficasse mais interessante. Vai saber...
Esse nome Pedrinho é engraçado, todo mundo já teve um vizinho, um colega de escola ou um primo que chama Pedrinho. Eu tive um salão de beleza e um amigo  (mas não chamo ele de Pedrinho). Resolvi fazer uma pesquisa rápida na internet sobre a origem do nome e seu significado. Não sei se posso confiar em todos os sites que li, mas eles repetiram alguns pontos acerca desse nome.
Pedro é um nome de origem grega, Pétros, que significa pedra.  Na bíblia, São Pedro foi um dos apóstolos de Jesus e foi sobre essa pedra, rocha, que se edificou a igreja romana, fundada por ele e São Paulo.  É um dos nomes mais difundidos em todos os idiomas e, de acordo com o que li, significa uma pessoa simples, mas que procura realização pessoal. Interessante relacionar o significado pedra com esse nome e transpô-lo a ideia do Pedrinho, pedrinha. Ser forte como uma pedra significa simplicidade e realização pessoal? É uma forma interessante de se pensar.
Pedrinho (salão) me proporcionou realização capilar, mas de fato é uma pessoa bem sucedida, pois sua rede perdura até hoje. Tanto pensei em Pedros que lembrei de outros, como Pedro I, Pedro II, Pedro Almodóvar, Pedro Bandeira, Pedro Bial (desculpem-me, queria falar só nomes de quem admiro, mas lembrei desse aí também) e claro o Pedrinho, do sítio do Pica Pau Amarelo, jovem aventureiro. E fico pensando em alguma relação cósmica entre eles. São muitas características para condensar, trabalho árduo.
Outro dia li em um artigo na revista Serrote que o nome é uma espécie de vestimenta. Essa vestimenta tão comum, chamada Pedro, poderia indicar alguma coisa?   É interessante pensar que os nomes possam exercer alguma influência sobre o nosso futuro, mas penso que, antes disso, é muito importante ter um nome para se apresentar ao mundo. O nome é o conglomerado da nossa identidade e é a chamada por quem as pessoas que conhecemos vão nos lembrar. Ou seja, é apresentação e memória ao mesmo tempo, presente e passado. Sofre mutações com os apelidos, mas se faz importante na sua origem. E mais do que isso, penso que não há nome bonito, o dono do mesmo sempre o transforma em uma ideia nova. Ou o nome transforma a pessoa? Vixi...
(E as Deborahs? Quem serão? Melhor não cutucar nesse ponto não, rs, hoje já tenho análise ...)
Bom, todo este processo de reflexão mirabolante foi iniciado pelo meu antigo salão de beleza proporcionado por Pedro. Acho que a diversão criada nesse salão se fez importante o suficiente para me gerar uma lembrança (e um texto). O fato é que o mundo visto por uma criança é de fato peculiar. E          nisso, o salão do “Pedrinho” tem de sobra, milhares de pequenos olhares sobre o mundo. É uma mina de ouro. Penso que escrever talvez seja um pouco isso, ser maduro o suficiente para reavaliar o mundo de uma maneira curiosa, assim como uma criança. Talvez seja conseguir fazer esse movimento, quase impossível, de reviver. Mas não só reviver na lembrança, reviver no olhar, na interpretação, na curiosidade e na abertura para abraçar o mundo que só um coração infantil tem.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Aos mestres

            Durante a minha infância minha mãe sempre me proporcionou diversos livros. “Onde está Wally?”, “De Onde Vêm os Bebês”, “A Bonequinha Preta”, “Os Três Porquinho”, entre outros tantos. Lembro-me também de possuir um vinil que narrava historinhas de clássicos infantis que adorava ouvir na vitrola de meus pais (retrô mais ingênuo da vida). Na sala de televisão de nosso antigo apartamento, todos os livros da casa se conglomeravam em estantes e armários e por lá costumava brincar com todos eles. Alguns meus e a maioria de meus pais. Brincava de biblioteca, em que pessoas imaginárias vinham alugar os meus livros. Mal sabia eu o que tinha por trás desses tantos livros que me fascinavam mais pela capa e tamanho do pelo conteúdo. Mas isso mudou, e como mudou.
            Aos poucos posso dizer que a importância que a literatura carrega tomou conta de mim, foi o feitiço do tempo que encomendou esta mudança. Percebi que investir em livros significa investir em si mesmo. Aqueles que leem sabem os maravilhosos caminhos que uma leitura pode proporcionar, é como uma viagem. Sei que minha mãe e meu pai sempre tiveram uma grande admiração a um tio que também era apaixonado pela literatura. Morava em um apartamento que era integrado em outro onde todos os seus livros eram guardados. Era uma espécie de biblioteca apartamento. Corri e brinquei no meio daquelas estantes com minhas primas, também com tamanha ingenuidade, sem saber a abrangência do local onde andava. Falo isso porque na verdade corria entre histórias, palavras, romances, poesia, contos e crônicas. Mas ainda não ouvia seu sussurro convidativo.
 Depois que cresci e comecei a me deliciar com a literatura adulta, fui percebida por este tio com quem passei a conversar muito. Papear com ele era uma verdadeira aula. Ele de tudo sabia e com a característica dos maiores e melhores mestres, valorizava toda a minha ação em prol do que ensinava. Realmente se interessava e se alegrava ao ouvir que alguém leu um livro. E ainda por cima, complementava a leitura de seu ouvinte com milhares de informações sobre o autor, o contexto, tamanha inteligência possuía. Minha mãe uma vez me relatou que, quando adolescente, lia escondido os livros proibidos deste tio, que ficavam guardados em um armário em seu antigo quarto. Emmanuelle, O Poderoso Chefão, entre outros escritos que tinham a audácia de tratar dos tabus mundanos. Ela, quando meio tio saía, visitava esse armário e brincava com os livros, lendo-os, aproveitando para provar o gostinho que toda situação proibida oferece.
            Bom, foi assim, aos poucos, que comecei a ler e cada vez que lia mais, gostava mais. Não me entendam errado, pois ainda não li nem metade dos livros que gostaria de ler. Estou verde nesse quesito, não entendo quase nada de literatura, mas sei que este é um caminho que gostaria que acompanhasse a minha vida. Não consigo mais imaginar a os dias sem essa arte. Isso, sobretudo, não só porque amo os livros, mas amo mais ainda a sensação que a leitura remete o leitor. É um convite a um mundo paralelo, particular, que te apresenta muitas questões novas, que te coloca em situações impossíveis que você daria de tudo para participar. Pode-se imaginar o que quiser quando se lê, comparar os personagens com alguém do cotidiano vira quase um vício durante a leitura. E nos tantos relatos que já li, sempre me encontrei em parte deles, vários de meus pedaços subjetivos passeando pelas palavras de outrem.
            Não só pelas belas histórias, mas a literatura é um retrato de uma época e de uma forma de pensar. Ela é uma linha histórica e muito mais que isso, é um auto-retrato do escritor. Não dá para se ausentar do que se diz, nem no jornalismo, nem na ciência, nem no nada. Nosso modo de ver o mundo é particular, não é neutro. E a tendenciosa literatura é que está de parabéns. Ousada o suficiente para assumir algo novo, para colocar no papel o humano subjetivo e também para tomar uma posição, ora bolas. É isso que mais falta à humanidade. Tantas pessoas em cima do muro que ele vai acabar por desabar de tanto peso que sustenta.
            E tanto idolatro a literatura e me delicio com a mesma somente por quem me a apresentou. Verdadeiros apaixonados por livros. Tive o privilégio de cruzar com o exemplo de pessoas que cederam parte da sua breve vida para viver o momento mais introspectivo e ao mesmo tempo o menor deles que é a leitura. Não tinha como ser diferente, eis a foça do exemplo. Conduzem nossos atos como se fossemos fantoches, e o pior, escondem-se na inconsciência. Posso dizer que tive sorte de ser obrigada (por mim mesma) a seguir este caminho.
            Já chorei lendo, já gargalhei e já até briguei com um livro. Não concordava com o que lia, não queria aquele destino, mas o livro só reproduzia a realidade e eu reproduzia o humano, revoltado com as imprevisibilidades da vida, esta madame poderosa e cheia de vontades. Sempre buscamos respostas, mas poucos as sabem. O melhor de ler é ser corajoso o suficiente para se expor às diversas emoções que podem surgir através das palavras. É um ato de bravura, pois quando nos entregamos a uma leitura estamos sujeitos ao que o autor quiser. Mas isso não funciona para aqueles que não se abrem ao fantástico mundo das palavras. É quase como um relacionamento amoroso. Não adianta se fechar para ele, se não, não vale a pena.
            Já nem sei mais o que escrever sobre o maior motivo que me faz ter a coragem de me escrever nesses textos. Só sei que nesta vida arrumei uma grande companheira. Peço licença a Muriel Barbery para falar desta humilde companhia, ““...Pois existe distração mais nobre, existe mais distraída companhia, existe mais delicioso transe do que a literatura?”. Não saberei dizer. Talvez sim, mas que nobreza este lazer, faz-me pensar, ensina-me a escrever, posso fazê-lo em qualquer lugar e ainda me faz feliz
            Não sou poeta, não sou nem escritora, mas resolvi me render à ousadia da necessidade de colocar uma ideia no papel e mostrar aos outros. Tem hora que não há outra atitude mais certa para o momento, vira uma questão de necessidade. Chega até a me incomodar, se não arrumar um papel para desabafar é como se uma ideia fosse perdida para sempre e com ela um pedaço de mim mesma. A ideia parece só se concretizar em palavras escritas. É um sufoco que se alivia de uma maneira gostosa, como um gozo. A ideia passa para a ponta dos dedos, que vai mais depressa do que penso pensar. Penso como quem escreve se entrega ao sentimento para moldá-lo no papel. Licença, Fernando Pessoa, você sabe dizer melhor do que eu:
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

            Cheguei a uma conclusão escrevendo, mas sei que talvez esta não seja de minha autoria, ou talvez só de minha autoria, mas escrever é um pensar que te faz repensar. Obriga-te a ir além de si mesmo através da rede simbólica da linguagem, a rainha da cultura. Está acima de todos os poderes.  Depois de tanta idolatria, vou idolatrar quem mais merece. A todos aqueles familiares que me deram o exemplo da leitura, mas em especial a minha mãe, meu tio Júnior e meus avós. Nunca vi pessoas falarem com tanta paixão a respeito de um livro. Talvez esta seja a verdadeira herança familiar, e dela me orgulho muito. Ao meu pai também que me ensinou a gostar de história (geografia não foi possível) e aos mestres literários que se cederam para uma ponta de lápis e para o mundo ler e reler o espelho que nasce de seu interior.
           
“Sempre imaginei o paraíso como uma grande biblioteca” – Jorge Luís Borges. – Já tive a sorte de passear por lá...

quarta-feira, 19 de setembro de 2012



Última noite em Leeds


Outro dia combinei de conversar no Skype com uma amiga alemã que conheci em Leeds. Ano passado fiz um intercâmbio possibilitado pela UFMG para esta cidade. Cursei um semestre de Psicologia na Universidade de Leeds e vivi bons momentos por lá. Devo isso aos bons amigos que fiz naquela cidade cinzenta e industrial que possui muitas cores nas minhas saudades. Ao falar com essa querida amiga, lembramo-nos do passado e de tudo passamos durante esta experiência. Muitas histórias vieram à tona e me lembrei com saudades dos momentos que passei naquela terra chuvosa de cervejas gostosas.

Morei em uma residência estudantil repleta de intercambistas. Sua estrutura física era composta por vários prédios antigos divididos por letras, enfileirados em ordem alfabética. Chamava-se Saint Marks e era muito próxima da universidade, perfeita para render o tempo de sono antes das aulas começarem. O andar onde morava era dividido em dois flats, cada um com cinco quartos, uma cozinha e um banheiro. Do meu lado moravam eu, um americano, um canadense, uma australiana e uma honconguêsa (obrigada,Google). Do outro lado moravam duas australianas, um italiano, outro americano e um letão (obrigada, Google, mais uma vez).


Tornamo-nos uma família que mantinha as portas que nos separavam sempre abertas. A cozinha nunca estava vazia, sempre havia alguém conversando, ou então promovendo uma festinha antes de sair. Com o tempo criamos intimidade para várias brincadeiras, piadas e muita conversa. Os flats nunca estavam vazios, a sensação era de casa cheia. Acho que aquelas portas abertas eram reflexo do que estávamos nos propondo, todos muito abertos a se mostrarem e a conhecerem pessoas novas. Foi assim que nossa amizade começou.




As conversas na cozinha eram uma viagem pela história de cada um que morou comigo. A difícil relação entre os chineses e os honconguêses, a influência da igreja na Itália, a rivalidade entre o lado francês do Canadá e o lado inglês, o alto custo de vida australiano e por aí vai. Aprendi muito com essas pessoas, não só sobre a vida, mas também sobre seus costumes. Por vezes, nos estranhávamos um com a alimentação do outro, e por outras compartilhávamos nossa comida. Lembro-me de um jantar em que a seleção gourmet foi comida chinesa preparada pela Katrina, a jovem de Hong Kong que morava comigo. A comida ficou deliciosa, muito diferente do chinês tradicional que eu estava acostumada a comer. De sobremesa foi servido milkshake do Roberto, italiano viciado em doce. Foi uma delícia.

Nos aniversários nos reuníamos, comprávamos bolo e presente e comemorávamos com muita festa. No Natal preparamos uma ceia pré-recesso de final de ano em que cada um cozinhou uma comida típica de seu país. O resultado foi uma mistureba interessante. Tudo para minimizar a distância da velha família, pois a nova já estava formada. Brincamos de vários drinking games importados dos EUA e ensinados por Charlie e Matt, os dois queridos americanos com quem morei. Charlie me tratava como sua irmã mais nova, apesar de ser mais novo do que eu. Sempre me falava que se algum garoto me mal tratasse era só chamá-lo. Meio machista, mas carinhoso. Por vezes fugia para o andar de cima onde fiz bons amigos também, inclusive a Marleen a alemã que mencionei no começo do texto.

Vivi mais no ciclo universitário, logo não conheci muito a cidade de Leeds. O que conheci foi a cidade de Saint Marks, como disse Roberto em uma de nossas filosofadas na cozinha. E foi por essa cidade que me apaixonei. Viajei sem viajar enquanto viajava. As pessoas com quem convivi traziam o seu mundo até mim. Essa foi a passagem mais barata que comprei, e de brinde ainda ganhei amigos, experiência e riqueza. Riqueza interna, pois acho que isso tudo me acrescentou como ser-humano.

Na hora da despedida final, eu fui a última a ir embora. Os horários dos voos eram diversos, alguns iriam continuar sua viagem para outro local (que era o meu caso), outros iriam para casa. Foi difícil assumir o fim, sempre é. Arrumei minhas malas (quanto entulho juntei em poucos meses, que horror!) e olhei para meu quarto agora só com a cama, a escrivaninha e o armário. Parecia que ninguém havia morado ali. Mas esse foi meu pequeno abrigo durante importantes meses. Assisti também aquele velho flat se esvaziar, pois a minha carona para ir embora foi a última. Despedi de meus amigos com um abraço confuso e ingênuo. Sabíamos que muito provavelmente aquela era a última vez que nos veríamos, mas não era fácil acreditar. Sentimentos confusos passavam pelas nossas cabeças. Como pude ser tão próximo e viver um momento tão intenso com pessoas que provavelmente não veria mais? Que vida mais louca e maravilhosa ao mesmo tempo. A cada abraço de despedida, meu irmãos pegavam suas malas e voltavam para enfrentar a vida  deixada para trás. Não foi fácil ver o flat vazio. Só restaram os móveis e uma cozinha cheia de entulhos.  Encarar o fim é um banho de água fria em conta gotas. Não da para acreditar até que venham as saudades. Olhava para aquele local vazio, mas vazio estava meu coração. A presença das pessoas, mesmo em atividades rotineiras, preenche. Morar com pessoas da minha idade, jovens, é diferente. Todos estão vivendo o mesmo momento, sabem o mesmo tanto da vida, é um momento de compreensão e divertimento ao mesmo tempo. E brigas claro, não dá para viver sem conflito. Mas é um se ver e rever no outro diário. Ainda mais com conflitos culturais. Acho que nem preciso dizer a minha vontade de reviver tudo isso.


Esse tipo de experiência reforça o fato de não existir certo, não existir cultura que deva predominar e que o respeito se faz mais do que necessário quando lidamos com pessoas de outros países. Acho que depois de conversar meses com meus novos irmãos, repensei sobre o meu país, a minha cidade e claro, sobre mim mesma. Pude reunir tudo de bom que essas pessoas me ofereceram e transforma-lo em parte de mim. Acho que é assim que vou carregar pra sempre essas pessoas comigo, tive a sorte de cruzar com elas em algum momento da minha vida.


Ser intercambista é viver com uma intensidade que não se encontra em outro lugar, em outra hora, ainda mais quando se é jovem (sem discriminar os mais velhos, mas nessa fase a disposição redobra). Fiz amigos para a vida inteira, mas ao mesmo tempo amigos que viverão na minha memória. Já são amigos só por terem me presenteado com tanto aprendizado. Isso é amizade, proporcionar crescimento, agregar coisas boas. Quem sabe um dia ainda cruzarei com um deles, a vida surpreende, não sei onde vou parar. Essa é toda a saga de quem viaja, adorar e abandonar. Acredito que todos que já viveram fora do país devam estar se identificando com algum ponto desse texto.  A intensidade vale a pena, mas cobra seu preço através da sua fugacidade. 






“Nós mesmos, eis a grande questão da viagem. Nós mesmos e nada mais. Ou pouco mais. Certamente há muitos pretextos, ocasiões e justificativas, mas em realidade só pegamos a estrada movidos pelo desejo de partir em nossa própria busca com o propósito, muito hipotético, de nos reencontrarmos ou, quem sabe, de nos encontrarmos. A volta ao planeta nem sempre é suficiente para obter esse encontro. Tampouco uma existência inteira, às vezes. Quantos desvios, e por quantos lugares, antes de nos sabermos em presença do que levanta um pouco o véu do ser!” -  Livro A "Teoria da Viagem: Poética da Geografia"

terça-feira, 11 de setembro de 2012


Cartas

                Não me conformo com o fim das cartas escritas à mão e enviadas pelo correio. E-mail é prático, mas não supre a pessoalidade de palavras escritas pela própria pessoa. Mesmo que por vezes a letra fique ilegível, contenha erros e rabiscados, prefiro isso ao padrão das letras do computador. A meu ver a forma de escrever é uma projeção de alguém em um papel.
                Quando era criança me indignava diante da ausência de cartas para mim. Estas sempre chegavam endereçadas aos meus pais, nunca incluíam o nome Deborah no destinatário. Sofria com a solidão do esquecimento dos outros. Resolvi então fazer parte do mundo das correspondências. Mal sabia eu que aquela pilha de papéis entregados pelo funcionário do correio para os meus pais continha, na sua grande maioria, contas e propagandas. Com um problema nas mãos fui dividi-lo com meu pai e minha mãe, em busca de uma solução.  A sua sugestão foi genial: “Ora, se quer receber cartas terá que enviar cartas para que as pessoas possam lhe enviar a resposta”.
                Dito e feito. Selecionei um grupo de pessoas com quem gostaria de conversar.  Tias, tios, primas, avós, conhecidos, amigos, o céu era o limite. Escrevi as cartas à mão, algumas sem muito assunto, mas todas envolvendo um desejo de estabelecer esse tipo de vínculo.  Logo as respostas começaram a voltar. Alguns se comprometeram mais do que outros, mas o fato é que durante meses troquei cartas com pessoas muito queridas.
                Não sei mais quando foi que este processo terminou, como as cartas pararam de chegar e de serem enviadas. Não sei se fui eu que cansei, o assunto que acabou, ou os meus destinatários que desanimaram. Talvez seja a vida, que exigiu mais atenção do que estas pequenas ações, às vezes aquela é mandona.  Possuo até hoje estas cartas guardadas em uma mala, unem-se para formar uma memória particular.
                Ao ler estas cartas, penso nas queridas pessoas que tiveram carinho e atenção para me responder. Lembro-me do que acontecia naquele tempo comigo e com meus destinatários e ainda me recordo de como a letra dessas pessoas era, coisa que não vejo desde os tempos da escola. Nesta época não era uma questão de opção, todos sabem bem. Através destes tantos envelopes enxergo uma linha do tempo.  Minha madrinha que morava nessa época em Governador Valadares, um convite de uma tia querida para algum dia visitarmos a Torre Eiffel juntas (o que aconteceu), notícias de uma irmã americana que morou em minha casa, um tio especial apaixonado por literatura, desculpas pela ausência de alguém importante em uma data comemorativa, e por aí vai, ainda não tive tempo de reler todas.
Vi em uma das cartas que, pela resposta do destinatário, eu havia manifestado gosto por astronomia em uma de nossas conversas. Como as coisas mudaram! Atualmente só me interesso pelo brilho da lua e a reflexão que olhar para as estrelas implica. Vejo pelas cartas que já fui outra pessoa que às vezes esqueço que faz parte de mim.  Não fui só eu que mudei, a vida de todos os meus correspondentes também. Alguns não os vejo mais, não sei mais o que se passa em suas vidas. Mas já soube, já filosofei sobre a vida com estes meros conhecidos do presente.
                Existe uma trilogia de livros que adoro chamada “Griffin e Sabine” (o autor se chama Nick Bantcock). Conta a história, somente através de cartas, de um homem e uma mulher que começam a se conhecer por meio de correspondências. Os li e reli várias vezes, sempre adorando a parte interativa do livro em que o envelope das cartas era colado na página do livro e com isso era possível remover a carta do envelope, que ficava desprendida do livro. É uma história interessante, vale a pena ler. Mas acho que o que mais gostava do livro era essa interação entre o papel e minha mão, livres para se sentirem. É poderoso segurar um livro, uma carta, não dá para substituir por uma tela de computador que nunca muda. Eu acho um tédio, pelo menos.
                Antigamente a troca de cartas com desconhecidos acontecia com mais frequência. Lembro-me de minha mãe contar que trocava cartas com um polonês quando era jovem. Conversavam em inglês sobre a vida e suas realidades. A dele era dura, pois sofria com a repressão comunista e ao mesmo tempo com crise do fim desse sistema. Por fim, ele propôs a minha mãe que se casassem. Por sorte, minha mãe não aceitou e se casou com meu pai (se não eu seria mais loirinha e estaria escrevendo em outra língua). Mas essa é uma outra história.
                Agora observo a mala onde guardo todas essas cartas. Um objeto antigo, cor de rosa, que me foi presentada por uma prima, há muitos anos atrás. Tudo isto estava jogado no fundo do meu armário, esquecido. Quantas coisas importantes são deixadas de lado. Mergulhei no tempo ao reler estas cartas e gostaria de agradecer a todos que participaram desta pequena experiência da minha infância. Gostaria de retomar este hábito, porém não sei se será possível. Mas uma coisa toda essa comunicação deixou para trás, não há sensação melhor do que ver uma cartinha no chão próxima à porta esperando para ser lida. Melhor ainda é quando o remetente é alguém especial. É uma surpresa muito gostosa. Todo o processo de abrir a carta, lê-la, relê-la é um encontro com o correspondente muito particular. É uma forma de interação distante, mas próxima.  Termino aqui com saudades do que já passou, mas feliz de ter experimentado estas sensações mesmo que por pouco tempo. Vivi uma pequena era das cartas muito mágica.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012


Historinhas

As histórias, pequenas que sejam, têm um sabor diferenciado. Às vezes, jogando conversa fora com algum amigo, escuto algum caso digno de registro. Podem parecer bobos, como uma pequena fruta jogada ao lado de uma árvore florida, mas quando saboreados revelam um doce que deixa a vida interessante. Saltamos dos livros de vez em quando. Ou então os livros é que saltam de nós, vai saber. Escutar me faz repensar e achar no percurso da minha vida essa pequenas preciosidades perdidas nos relatos de mesas de bar e conversas ao telefone. Vamos a algumas delas...

Amigos passeavam por Lisboa de férias (ai que palavra maravilhosa). Fervorosos pelo turismo andavam em busca de qualquer novidade. A ideia é conhecer tudo, sem critério. Transformamo-nos em figuras peculiares volta e outra, chega a ser engraçado.  Os dois então,  depararam-se com um aglomerado de pessoas em uma fila. Fila? Tem que entrar. Descobrem que estão no enterro de alguém. Ao chegar perto do defunto, quem era? Que surpresa, era o Saramago. Ao lado do túmulo se localizava uma foto deste mestre, rei das palavras. Não é a toa que tantas pessoas, tristes pela grande perda, reuniam-se ali.  As notícias passam desapercebidas quando se viaja, não sabiam do falecido. Achei fascinante conhecer alguém que já viu o Saramago. Mesmo que seja fora de vida, pelo menos ainda foi em tempo. Falar de última chance em? Conheço pessoas que frequentam todo tipo de evento, mas acho que o enterro de uma pessoa ilustre como essa é a primeira. Que coincidência...

Férias de Julho, mochila nas costas, primeiro destino Lisboa. Cheguei no albergue sem saber o que esperar dessa parte da viagem em que estava sozinha. O ambiente do albergue era delicioso, paredes com pinturas personalizadas, cama confortável, mesa de madeira na cozinha, puffs espalhados por toda a sala e vinho do porto a vontade. Logo conheci um grupo de americanos e australianos carentes de companhias para enfrentar a cidade como eu. Tenho que me cuidar se não falarei sobre Lisboa o texto todo, essa cidade é um charme. Pastel de Belém, Bairro Alto, tomar fininhos (chopp), comer bacalhau, ver a estátua do Fernando Pessoa, passear por Sintra, mágico. Voltando a minha historinha, combinei com meus novos amigos de ver o pôr do sol (que acontece 9 horas da noite) em um mirante, mas por razões soníferas saí atrasada para encontrá-los no local marcado. Mapa na mão a procura do local, andando e, ao mesmo tempo, tentando me localizar nas ruas do Bairro Alto. Olho no mapa, olho na rua, olho no mapa, olho na rua. Bairro movimentado só para constatar. Eu vestia um modelito verão, metida a europeia. Sem perceber passei por uma saída de ar poderosa. Meu vestido de verão voou revelando minha calcinha envolta pela minha dolera  bege que guardava seguramente meu passaporte e algum dinheiro. Cena nada atraente, devo dizer. Sensação desconcertante, pois não tinha nenhum amigo para apresentar o meu sorriso amarelo de vergonha. A rua movimentada continuou o seu percurso, mas antes me presenteou com algumas risadas. Segui caminho olhando para baixo, com cuidado para não pagar de Marilyn Monroe de novo. No fundo culpava o mapa e minha distração. Perdi o pôr do sol e ainda "paguei calcinha". Que viagem...

Na loucura que é conseguir um taxi em Belo Horizonte aos finais de semana dei sorte e consegui apanhar um. Destino Savassi, cerveja com as amigas da Psicologia, motorista simpático. Conversa vai conversa vem, iniciamos uma discussão sobre a importância do cinto de segurança no banco de trás. Acho que devo confessar que fui bastante hipócrita, pois durante toda a exposição das minhas ideias, que eram favoráveis ao cinto, não o estava usando. Incoerências a parte, o tal do taxista começou a me contar uma história interessante. Contou-me que uma vez sofreu um acidente ao dirigir acompanhado de uma passageira sentada na frente que estava sem cinto. O outro carro furou o sinal de pare e ele, tentando desviar do outro veículo, perdeu o controle do carro que capotou. A passageira, sem cinto, machucou-se gravemente. Tudo deu a entender que ela havia morrido. "Que história triste"- pensei. "E ela morreu?". Ele me respondeu que não, que a visitou por muito tempo no hospital até que melhorasse. "Visitei tanto que acabei me casando com ela". E está casado até hoje. Desci do taxi com as palavras na boca. Já sabia a primeira coisa que falaria quando chegasse ao bar.

Carnaval do Rio de Janeiro. Amigas de colégio reunidas, amizades antigas, cerveja na veia e muita alegria acumulada. Nessa data do ano a disposição redobra para cair na rua e dançar, falar bobagens, fazer brincadeiras e se fantasiar. No meu grupo podia se encontrar de tudo, lacinhos, bobos da corte, abelhas, mas na nossa maioria éramos o bloco das noivinhas. Véu na cabeça, chinelo no pé, saímos sem rumo. Assistimos ao bloco do Sargento Pimenta, homenagem linda aos Beatles ao ritmo de samba. Saímos de lá desnorteadas, emocionadas. Do outro lado da rua, depois de regarmos umas moitinhas com os resquícios das modestas cervejas que havíamos consumido, encontramos a charanga da medicina tocando no meio da rua. A festa recomeçou, dançamos sem limites. Eu, tímida que sou, fiquei bem perto da bagunça. Um dos músicos da charanga, tocador de tamborim, resolveu se ausentar para dar uma volta, ingenuidade. O instrumento passou de mão em mão procurando um dono e eu logo pensei “Eis uma oportunidade para revelar meus dotes musicais" , que não existem só para ser sincera. Agarrei vitoriosamente aquele instrumento que jamais tinha tocado. A charanga continuou a sua saga carnavalesca e eu, mergulhada no mais profundo da minha alma musical, comecei a tocar. Senti-me brilhante, extasiada, quanto talento, como é bom tocar. Mentira. A charanga parou, pois a novata estava desafinando a melodia. Quem eu? Não acredito...O tocador de atabaque, pacientemente tentou me ensinar uma batida fácil em que eu só tinha que mudar o ritmo de música em música. Tentei, juro que tentei, mas não deu certo. Parou novamente a charanga e mais uma vez tentou me ensinar. Não deu certo. Na minha cabeça a música soava perfeitamente, mas essa sensação não era compartilhada pelos demais, eu não conseguia entender essa disparidade. Enfim, eu e a banda resolvemos relaxar e recebi o aval do tocador de atabaque, muito simpático por sinal, para tocar sem apego à melodia. Foi uma diversão só, bem estereotípica carnavalesca, dançar, tocar, cantar, sem preocupações. Afinal de contas não é essa toda a proposta do carnaval? O dia em que todos são iguais? Até os músicos dos não músicos ora bolas! Foi um dia maravilhoso...

Aproveitando o ritmo de alegria, estava eu em Parias hospedada na casa de minha querida prima Tati que mora lá há sete anos. Sempre me propõe programas charmosos em Paris, como tomar um vinho em um café ou cozinhar sob a vista maravilhosa de sua sacada. Nesta noite, não foi um vinho, foram vários e vários vinhos. Começamos eu, ela, Carol minha querida amiga e Igor um grande amigo de Tati a bebericar em um Café/bar próximo a casa dela, um charme o local. Toldo listrado de vermelho e branco, garçons vestidos com macacões e as mesas bem próximas uma das outras, assim como os fregueses. Perfeito para ver a vida passar nessa cidade charmosa. Dia quente com céu azul. Programa providencial. No final da noite éramos mais ou menos dez pessoas, pois vez o outra chegava um novo amigo, uma nova pessoa simpática e com isso mais vinho. Já dá para imaginar o resultado de tanta uva. Para não falar outra coisa. Nossa alegria nos motivou a ir em busca de um local para dançar. Paramos em um bar já conhecido pela minha prima para irmos ao banheiro. Mas a festa não pode acabar. O pianista, percebendo o nosso alvoroço, começou a tocar algumas músicas em português e nós, extasiados por estarmos em Paris ouvindo músicas brasileiras, começamos a dançar infinitamente. Sambamos, cantamos e pedimos mais vinho. Quase tomamos o lugar do pianista com tanto barulho e tamanha alegria de ser brasileiro. Não tem nada como viver a alegria de coração aberto. A noite rendeu boas risadas, boas lembranças e uma boa dor de cabeça. Mas valeu a pena. Obrigado, Paris...


Não é preciso muito para compor um texto. Menos ainda para compor a vida, basta ajustar o olhar e as companhias. Alguns momentos se desenrolam de um jeito especial, mas no fundo eles dependem mais do espírito com que os encaramos, do que da situação de fato. Dependem mais do nosso olhar, da nossa energia e capacidade de admirar pequenas "bobagens" como o lado belo da vida, do que de grandes construções e uma carteira cheia. Não é preciso Paris, muito menos o Rio para se viver bem, feliz. A matéria-prima para isso se chama alegria e otimismo. Esses ingredientes são essenciais todos os dias, necessariamente. Desta forma, "casinhos" interessantes, gostosos de se transformar em palavras ficam dignos de admiração. Repensar nessas pequenas historinhas foi muito gostoso. Obrigada pela oportunidade, leitores.

terça-feira, 31 de julho de 2012



MEDO

Sentir medo é uma sensação bizarra. Começamos a suar, nosso coração dispara, ficamos com os músculos contraídos, atentos, tensos, buscando na realidade o menor sinal para agirmos. Somos o mais cautelosos que conseguimos, apesar de isso nem sempre dar certo.
 O medo tem uma função biológica de proteção muito importante, pois ele deixa os animais em estado de alerta o suficiente para lutarem pela sua vida diante de algum sinal de ameaça. Medo significaria assim, a nossa reação ao perigo contra a vida. Mas nós, seres humanos, complexos que somos, já arrumamos outras formas de sentir medo. Não precisamos de uma ameaça concreta para nos sentirmos dentro dessa sensação, profunda e difícil de aguentar que só ela.Cada qual com o seu medo, respeitemos. Acontecem em proporções diferentes e de formas muito peculiares. É nessa hora que nos sentimos indefesos e mais mortais do que nunca. Não temos controle sobre a situação e isso nos enlouquece.
Sempre gostei de dormir no escuro, mas já devaneei bastante a noite com medo, amedrontada pela falta de certeza do que estava em volta de mim. Às vezes achava que alguém entrara na minha casa, por ouvir barulhos estranhos, latidos do meu cachorro inesperados, ventanias uivantes que faziam a vidro da janela tremer. Nunca era nada, ainda bem, mas nessas situações me via paralisada, muito tensa, até enjoada. Ficava imóvel, com a escuta aguçada para qualquer sinal de perigo. Parece bobagem falar, mas acontece. É como se ficássemos em um extremo muito tênue prontos para o que vier, mas desesperados por estar nessa situação. A sensação mal cabe dentro de nós, devo dizer.
Lembro-me de quando era mais nova, quando meus pais saíam e eu ficava sozinha em casa, sempre sentia uma pontinha de medo da incerteza de tudo que poderia estar acontecendo no meu apartamento. Enfrentava essa situação andando pela casa para garantir que não existia nenhuma alma perambulando por lá, viva ou morta. Às vezes gritava para sentir de uma vez o medo inerente a esses dias e aumentar a minha coragem para enfrenta-lo. Gritar é uma certa forma de descarregar essa sensação, essa tensão. Eu sentia menos medo depois disso e mais coragem. Cada doido com sua mania.
O engraçado é que somos, muitas vezes, obrigados a enfrentar essas situações, essa experiência é uma espécie de fazer força dentro de si mesmo, obrigar-se a uma ação.  Não tem coisa mais difícil do que isso, mas tem de ser feito. Nem sempre escolhemos enfrentá-la e às vezes esse medo é tamanho, tão profundo que vira pânico. O estranho é que essa sensação de pânico pode vir na cabeça e tomar conta de nós. Imaginamos as piores tragédias, conosco e com os outros. Mas isso não precisa acontecer necessariamente como em um filme de terror, quem sente medo de algo que os demais normalmente não sentem deve saber do que estou falando. É difícil ainda ver tanta tragédia na televisão ( eu esperava mais do jornalismo , francamente) e não deixar a imaginação tomar conta. Ele pode ser saudável muitas vezes, mas nem sempre trabalha a nosso favor. Pode se transformar em uma voz mandona e decidida que vai aonde quer. E nos leva junto. Às vezes é difícil escapar e existem aqueles que não conseguem.
Sei que estou discutindo sobre um assunto que não é tão agradável, mas aprendi escrevendo a não ter "medo" do que sinto. Sentir qualquer sensação virou motivo para reflexão através da escrita. Sentir medo é parte de nós como humanos e não conheço alguém que nunca o sinta. Se não sentisse não era humano. Nunca gostei de sentir medo, por isso sempre evitei filmes de terror, prefiro deixar essa sensação de tensão para quando ela tiver que existir.
Independente disso, busco aqui causar alguma sensação sobre meus leitores, se causar já me darei por satisfeita. Sentir é mais importante do que entender, e vez ou outra experimentar novas sensações nos mostra mais da vida. Seres racionais? Balela, a maior parte do tempo somos muito irracionais, emoção pura. Sempre soube que não havia perigo em minha casa, mas sentia medo mesmo assim. Não dava para controlar. E nesses momentos me perguntava sobre minha vida, sobre a vida e a magnitude da mesma, vivia muitas sensações poderosas. Testava minha vida dentro de mim. E ainda estava preparada para qualquer monstro que resolvesse fazer uma visita. Ou pelo menos estava da forma mais cautelosa o possível.
Ser sentimental não é ruim, esse discurso também está equivocado. Os sentimentos, ruins ou bons, deliciosos ou insuportáveis movem mundos. Sem medo não correríamos, não perceberíamos o quanto é importante viver e lutar pela nossa vida. Sem sofrer não amadureceríamos e não nos apoiaríamos. Sem conflito, raiva, indignação há menos motivação para melhorar, mudar, metamorfosear. Sem amor, não tem graça viver com o outro. Sem afeto não há amizade que se sacrifique por outra. Sem paixão por uma causa, não há solidariedade. Sem lágrimas, não há pedido desculpas, abraços, reconciliações. Sem saudades, não há reencontro, não há reconhecimento da falta que alguém pode fazer.
Acho que no final das contas sentir medo significa que somos humanos e nada mais do que isso. Se o perigo vai vir ou não, não posso dizer. Espero que não, mas nós mundanos somos mais corajosos do que pensamos, pois viver é um risco mortal. Aguentar isso merece um banho de emoções para comemorar. Lembrança sem sentimento é registro de dicionário. Encarar isso e sobreviver é sensação maravilhosa. É sensação de estar vivo, de vida, e de conquista. O futuro é incerto, o perigo existe, mas nós sentimos, amamos, odiamos e nos transformamos em humanos. Para mim não há nada de mais interessante nesse mundo. Observar as milhões de formas que cada um lida com a realidade me fascina. Olhar para dentro de mim também é um tanto quanto difícil, mas desmistifica a lupa da realidade. Na verdade, só um pouco. Parte do meu fascínio é não ter como explicar a nossa condição de humanos...Sempre surpreendentes, sempre se superando, brilhantes e fascinantes.

domingo, 22 de julho de 2012


Recomendo

Pensei e pensei em tantas coisas para escrever e tive que escolher um assunto. Essa semana imagens da minha infância invadiram minha cabeça sem pedir licença. Depois disso fiz uma associação. A parte preferida dos meus dias sempre foi a tarde. Adoro final de tarde, em que sol começa a abaixar, a temperatura dá uma trégua e a noite começa. Acho que essa parte do dia sempre foi composta por atividades das quais gostei muito quando criança, e por isso tenho um carinho especial pelo lusco- fusco.
Lembro-me de quando a Rita, querida amiga que já trabalhou em minha casa quando era criança, fazia bolos dos mais diversos sabores para o lanche. Ela sempre os fazia no final da tarde e o meu presente com tudo isso era a rapa . Eu ficava sentada na bancada da cozinha  segurando o recipiente onde o bolo fora feito e sem pudor mergulhava minhas mãos no restante de massa de bolo que ali tinha sobrado e comia tudo. Lambuzava a cara, as mãos, a blusa, sujeira era sinônimo de alegria. Era uma delícia. Ação simples, tarde gostosa.
Recordo-me de Prado, cidade no sul da Bahia onde minha família tem casa. As tardes que passava lá envolviam passeios de bicicleta com meus primos pelas ruas de terra daquela pequena cidade, algumas vezes perdidos pelos caminhos que beiram a praia e outros até a sorveteria. A brisa do mar, a lua que começava a aparecer tornavam aquela experiência muito agradável. Deitar na areia no final da tarde e jogar conversa fora, observando a maré subir, falando bobagens, lembrando da vida. Ai que saudades...
No segundo andar da casa existe uma varanda onde se espalham diversas redes. Deitar nelas e ler um bom livro, ou cochilar, ou apenas observar a monotonia da rua onde vez por outra passava algum pedestre desocupado era muito bom. Acho que tenho muito que agradecer pela minha infância, pois não tinha com o meu preocupar, fora os dramas da infância comuns. Sei que não é assim que a vida acontece para todos, então convido os meus leitores a viajarem comigo pelo meu passado, permitindo-se a se colocar onde quiserem. Isso agora não é mais meu, é nosso. Até porque a memória não é uma função cognitiva perfeita, então nem tudo que eu lembro pode ter acontecido exatamente da forma em que narro. Melhor pensar nesses relatos como o que ficou do meu passado na minha cabeça, a minha interpretação dos retalhos do ontem. Lembro-me também de dançar em cima dos bancos de Prado com minhas tias e minha mãe, cantando Roberto Carlos e Lulu Santos. Quando escuto músicas desses cantores já sinto sabor de nostalgia, não tem como evitar.
Considero a piscina no final da tarde a melhor. A água fica quente, o sol menos escaldante,  situação muito convidativa. Meus avós paternos moram em uma fazenda que tem uma piscina deliciosa. Água realmente é terapêutico, lava a alma, relaxa. Nadar no final da tarde brincando de Marco Polo e postergando ao máximo o banho, atividade que procede a esse momento, era o clímax do meus dias passados na fazenda. O banho também não era um problema. A banheira da minha avó cabia, sabe-se lá como, eu, meu irmão e minhas duas primas da família paterna, Marina e Gabi. Brincávamos com uma coleção de bonequinhos dos mais diversos na água quente. Cada um era um boneco e lembro-me de que a água era sempre muito quente. No começo da noite, pois os dedos enrugados no final da brincadeira acompanhavam uma água morna e uma chamado para o jantar.
Jantar. Lembro-me de brincar debaixo da extensa mesa do apartamento da minha avó paterna e observar as pernas e pés da cada pessoa assentada. É impressionante o universo que pode existir debaixo de um pedaço de madeira quando se é criança. Eu adorava. Hoje, se deixo cair algo debaixo da mesa, sinto mau humor e uma leve sensação de raiva ao ter que abaixar para pegar o objeto derrubado. Por vezes no caminho de volta dessa situação de resgate, ainda bato a cabeça na mesa, fico extremamente irritada com tudo isso. Se eu ainda soubesse ou lembrasse o que era esse espaço no passado. Ingenuidade minha, não da infância.
Agora retornei para o meu antigo apartamento. Próximo ao Natal ajudava a minha mãe a arrumar a árvore de natal, tomando Coca e escutando música. Pendurávamos as luzinhas e todos os enfeites juntas, na antiga árvore que decorava a sala de jantar do apartamento da Rua dos Otoni. Estes nunca tiveram uma lógica decorativa muito óbvia, mas todos uma história muito pessoal. Isso é uma verdade, minha mãe sempre deixou o meu lar muito pessoal. Sempre com resquícios das pessoas que cruzaram e ainda cruzam nosso caminho, e dos momentos que vivemos juntos. Acho que essa é uma característica que gostaria de reproduzir quando tiver a minha casa. Faz a gente se sentir perto, do que está longe no espaço e no tempo.
No meio desse processo de escrita, minha mãe me informou que iria para Silvianópolis, cidade no sul de Minas onde minha bisavô morava. Não pude evitar e comecei a pensar. 5000 habitantes que hoje a minha prisão urbana me faz pensar em monotonia. Mas isso não era obstáculo para os feriados que passei lá. O vendedor de pastel de queijo que ficava na esquina da praça era disputado por mim e pelos meus primos para quem ganharia o primeiro pastel. Delicioso. Na praça, tinha uma TV comunitária, cercada de grades, para que toda a cidade pudesse assistir a novela. Banquinhos brancos se enfileiravam na frente da TV. Hoje penso, como é possível uma coisa dessas? Tão maluca e tão genial. A cidade se reunia para ver a novela na praça. Eu devia estar dentro de um livro, rolando no meio de palavras, pois essa cena era memorável. Tão distante de centro urbano (que não é tão urbano assim) como Belo Horizonte. Eu sempre achei aquela cena engraçada, desde pequenina.  
Lembro-me também de fazer colares na varanda da casa e depois vendê-los pela cidade. Uma vez derrubei a caixinha onde guardava as miçangas compradas no centro da cidade no chão. Elas rolaram rua abaixo, para bem longe de mim e da minha memória. Nessa pequena cidade eu também fiz amigos, que hoje não vejo mais. Uma teve um filho e juntou o outro estuda engenharia e mede quase dois metros de altura. E ai a vida vai...Naquela época, no auge da minha infância, eu não projetava em realidade o futuro, só em brincadeiras. Não imaginava em quem nos transformaríamos. Se é que essa metamorfose tem fim, mas isso é uma outra história.
Comecei falando de fases do dia que se transformaram em fases da vida, ou melhor, fase da vida. Melhor parar por aqui, se não vou cansá-los de histórias. Relembrar vicia. Acho que me provei que não preciso de muito para viajar. Uma ideia é ponte para outra. As memórias vão sendo associadas em cadeia, e percebo quantas recordações ficam esquecidas, apagadas pelo estresse do cotidiano. Lembrar-se disso deixa a vida mais saborosa e mais leve, devo confessar. Comecei falando da tarde, mas que bobagem, qualquer fase do dia é gostosa, é só saber aproveitar, ainda mais quando se é criança. Acho que já perceberam que tenho carinho pela minha infância e acho engraçado como ainda sou parecida com aquela muleca pirua que fui e ao mesmo tempo muito diferente dela. Mas gosto de reviver esses momentos de tempos em tempos, para não esquecê-los. Viajar no tempo não tem custo, pode ser feito a qualquer hora do dia e trás de volta um tempo perdido. Recomendo.

sexta-feira, 13 de julho de 2012


Despedida

O meu objetivo hoje não é deixar ninguém triste, ou para baixo. Vim sentir por meio das palavras os obstáculos da vida. Às vezes eles me parecem injustos e um tanto quanto imprevisíveis. Quem já perdeu alguém, já despediu de verdade sabe do que eu estou falando. Na verdade essa situação é condição inerente a vida, pois não se pode escapar dela. Nós somos mortais, assim como todos aqueles com quem convivemos. O medo de perder alguém torna mais difícil amar, pois amar significa dizer adeus em algum momento. Mas isso não significa que não valha a pena passar por isso.
Sabemos que a perda de alguém irá acontecer, mas mesmo assim ela sempre nos surpreende em algum nível. Seja o de perceber que a vida é um fio fino, muito fácil de ser quebrado, de nos lembrar que somos meros mortais ou o de nos tirar alguém que amamos. Aqueles que já viveram essa experiência não sofrem menos, apenas sabem que o tempo ajeita as coisas. Amadurecem o sofrimento, mas não deixam de sofrer.
Essa sensação de estranheza em relação a morte não é restrita a quem conhecemos. Podemos ouvir uma história, assistir a uma tragédia na televisão, ou ler um livro que relata uma eterna partida. Podemos nos comover com isso sempre,  independente do nosso nível de relação com a pessoa. No fundo isso acontece, pois nos enxergamos nessa relação, enxergamos nossa vida tão sensível e passível de imprevisibilidades como a daquele que morreu. O amanhã é o certo mais incerto que conheço. E não poder explicar algo, demanda da nossa origem positivista, é angustiante, devastador. Não se pode explicar a morte, nem a nossa  nem a do outro. E quando alguém se vai, toma-se um banho de realidade, pois não existe muita explicação para esse acontecimento. O momento, o porquê da pessoa estar naquele lugar, o porquê um vai antes dos outros ninguém sabe. Se alguém souber a resposta não me esconda, por favor.
 A morte não tem lugar na fila da classe social, sexo ou nacionalidade. Ela pode nos abraçar a qualquer momento, assim como a qualquer outro, e nos levar embora. É muda, não explica, é eficaz. E nos devasta. Estranho pensar como somos despreparados para a separação. Somos de fato seres sociais, pois a despedida ataca a todos como um mal sem cura. Precisamos de algum outro para tornar nossos dias mais felizes. A possibilidade de ficarmos sozinho nos desampara como um filhote longe de sua mãe. A ironia mora em como entramos nesse mundo e como o abandonamos. Sempre sozinhos. Talvez nossa passagem por aqui aconteça para que vivamos isso, vivamos o outro e vivamos mesmo porque a palavra vivenciar significa experiência que acontece durante o viver. Penso que viemos para a terra para estar com o outro. Os amigos, os amores, a família, os colegas, quem for. Viemos para criar laços e dependemos uns dos outros para aguentar as peças que a vida nos prega. Esses laços são fonte de sofrimento, mas também de muita alegria.
Depois que alguém se vai passamos por um processo que não significa esquecimento, de forma alguma.Consiste em ondas de lembranças, de risadas seguidas de choros, sofrimentos, dias cinzas. O cotidiano tenta nos distrair, mas logo ele falha. Seu poder cresce com o tempo, pois a medida que ele passa nos conformamos e cedemos mais momentos para pensar em outras coisas. Mas a falta da pessoa nunca cessa. Ela só se acalma.

E então surgem questionamentos em como poderíamos ter sido melhores companhias, das vezes que fizemos algum mal para aquela pessoa, ou de como poderíamos ter sido mais presentes de alguma forma. Sentimos culpa pela nossa ausência e uma sensação de vazio profunda. Por mais que tenhamos feito o nosso melhor, nunca seremos perfeitos. Se fossemos não seríamos humanos. Por mais que nos questionemos, e por mais poderosos que achemos que somos, sempre seremos impotentes diante da morte. É devastador sentir isso, eu sei. Eu também me sinto assim. Na morte um um corpo vira uma memória, passa do real para o nosso irreal interior.
Resta-nos então, o privilégio de ter, diante das milhares possibilidades que a vida pode nos dar, ter convivido com aquela pessoa. De termos sido os sortudos que conheceram alguém especial o suficiente para fazer falta. Saudades é isso, é sinônimo de importância, de amizade, de sentimento. Ela ninguém nos rouba, é nosso passaporte para reviver o passado com aquela pessoa querida. O mais impressionante são as coisas que lembramos. Momentos que em vida, nunca repensamos. Pequenos detalhes que compunham aquela pessoa, dias que se tornam especais na nossa mente, mas que antes não eram percebidos assim. Até os defeitos fazem falta, e como fazem.
Com o tempo as saudades deixam de ser sofrimento e passam a significar reencontro. Reencontro com o passado e com as pessoas queridas. O nosso presente, no sentido de tempo e de pertence que se presenteia a alguém é composto por esses momentos, guardados dentro de nós para serem acionados a nossa vontade. Pode parecer pouco, mas eles são preciosos. E essa é a parte bonita e saudável das saudades, voltar no tempo e gostar. Rir, reviver, chorar, por dentro. O homem é um oceano sem fim, sem profundidade. Somos muito capazes e temos a máquina do tempo que volta ao passado dentro de nós. Quer poder maior do que esse? Cabe a nós saber usá-la.
Acho que diante do delicado assunto que hoje vim tratar reconheço outra coisa bela dessa experiência, que é a adaptação. Somos seres que sofrem, apanham, sentem saudades. Mas sobrevivemos, juntos de perto ou no coração. Sobreviver a momentos difíceis é um mérito de cada um, pois ele nos força a crescer e aprender a valorizar o que importa na vida. As saudades serão eternas, assim como nossa passagem na terra. Pois se não vivemos mais, vivemos dentro dos demais que nos amaram e nos acompanharam no breve sufoco que é a vida. Não há mais nada belo do que isso, pois saudades é reviver o outro todos os dias.

segunda-feira, 25 de junho de 2012


O Lixo Humano
               
                Outro dia participei de um evento no Centro Mineiro de Referência em Resíduos que envolvia os catadores de papel de Minas Gerais. Comecei a refletir sobre esta profissão tão estigmatizada e marginalizada na nossa sociedade. É engraçado pensar primeiro no papel do lixo. Até o uso da palavra em si, sem ser no seu significado literal, é depreciativa. Dizer que algo está um “lixo” significa dizer que  este algo está muito ruim.
                O lixo é o nosso resto, que pode ser encontrado em latas de lixo, na rua, nos rios, no mar, até dentro de nós, ele está em todos os lugares. Mas acho que por isso mesmo é muita irresponsabilidade nossa tratá-lo da forma com que tratamos. Primeiro porque aqueles que mais negligenciam e produzem o lixo somos nós. Somos péssimos pais, decididos a tentar mudar um adulto inconsequente, pois é isso que virou a questão do lixo, uma bola de neve mimada que resiste em reverter a situação. Queremos dar um jeito nele agora, pois ele anda a nos dar problema. Se não desse era só abandoná-lo no lugar dele e voltar para nossa vida(inha).  
                Queremos o lixo longe de nós, mas não paramos de produzi-lo. Engraçado pensar que aquelas pessoas que se propõe a fazer algo com ele são desvalorizadas e consideradas parte dele. Pessoas essas que arrumaram uma fonte de renda digna, que colaboram com a reciclagem do lixo e ainda não poluem o meio-ambiente, pois transportam a sua mercadoria com a gasolina do corpo. Quem já não ficou de mau-humor por esperar no trânsito um catador ou uma catadora de lixo, que graças a sua condição humana, não consegue puxar o seu carro na velocidade das nossas máquinas, brinquedinho do homem (porque me desculpem, mas já deixou de ser só meio de transporte há muito tempo, virou arma, brinquedo, símbolo de status, virilidade e mais um monte de bobagens). Buzinamos, pensamos no nosso atraso e na pressa que temos de viver. Esquecemos que aquela pessoa está trabalhando, que anda o dia inteiro no sol, ou na chuva, em busca de seu sustento. Que ela não tem um carro com ar condicionado para se transportar. Melhor parar para repensar essa atitude desrespeitosa, que desconsidera o fato de que nem todas as pessoas têm as mesmas oportunidades na vida. E nem se for por escolha, isso não deixa este trabalho menos digno. Indignos são os que não pensam fora da caixa, que vivem dentro do próprio umbigo e se acham melhores por sentarem em uma cadeira de escritório. Adivinhe só, existe um mundo lá fora!
                 Os catadores de papel são tratados como se fossem o lixo humano. Isso é triste, pois a sua profissão é bela. E não só a deles, como com todos aqueles que conseguem produzir algo com o que consideramos que já é resto, que não pode ser reaproveitado. Eles produzem com o que consideramos inutilizável. Isso é arte. Arte para os olhos, arte para a vida. Além de arte é gestão de resíduos, é gerencia do resto. Estas pessoas são como nós, mas viveram oportunidades diferentes, lutam para serem reconhecidas como profissão, e até hoje não entendo porque não são. Isso nem moralismo é, é preconceito mesmo. Existe uma proposta do governo para que contribuam menos com impostos sobre sua renda, mas mesmo assim recebam  um aposentadoria digna . Se o retorno fosse garantido a conversa seria outra, aliás, o texto seria outro.
O trabalho realizado por estas pessoas é muito mais digno do que muitos outros que contribuem com a produção de lixo e com a reprodução de uma sociedade desigual. O pior de tudo é desconsiderar as vidas envolvidas por trás dessa profissão. Assisti ao documentário “Lixo Extraordinário” e me lembrei de como isso é verdade e emocionante (o documentário é maravilhoso, recomendo!).  As histórias ali contadas não são exceção, mas se transformam junto com a individualidade de cada um. Agora, multiplique-as por um país inteiro, e veja o que está sendo deixado de lado. Pouco? Acho que não.
                O  verdadeiro lixo humano são aqueles sentimentos de hierarquia, de segregação, de acreditar que alguém é melhor do que alguém. O lixo humano não mora nos lixões e sim dentro de nós, que somos incapazes de enxergar o valor humano. O lixo somos nós, e me parece difícil transformar esta matéria-prima. Não cansamos de reproduzir uma sociedade que ao invés de trabalhar unida, prefere trabalhar separada, fingindo que contas no banco e cor de pele são suficientes para dizer quem tem direito a ser melhor. Parecemos crianças imaturas precisando de boas referências para nos espelhar. Gerenciamos mal nosso mundo ao reproduzir o desigual e principalmente, ao não repensarmos sobre as escolhas que fazemos. Isso começa com as palavras que usamos, com a forma com que tratamos os desconhecidos e que interpretamos as pessoas. Trabalhar humaniza, socializa e colabora com a autoestima de cada um, além de contribuir para o mundo de uma forma coletiva. Quem se propõe a segregar quem trabalha é pior do que lixo. Pois o que de fato é lixo não é o lixo, e sim o lixo humano (confuso, mas é verdade). Este pode ficar na lixeira bem longe de nossos corações. O outro virou fonte de trabalho, de renda e de histórias lindas, virou referência de como ter garra na vida. Desculpem-me, mas essa característica anda em falta nos supermercados. Deve estar por aí em algum lixão...

PS: Fica a dica do documentário: http://www.youtube.com/watch?v=udpDCiLrg4k .
Vale muito a pena!!!

segunda-feira, 18 de junho de 2012


Parede de sonhos

                O ser-humano é muito rico. Ignorante quem não sabe disso. Essa semana comecei a realizar o meu projeto sobre a história de vida de uma comunidade de Belo Horizonte. Entrevistei um casal, que já carrega certa idade, sobre a sua vida e seu papel na construção da comunidade onde residem. Contaram-me a respeito de sua casa, de como a construíram e das dificuldades que a vida sempre lhes presenteou.
                Não vim aqui relatar exatamente as palavras deste casal. Estas guardarei para o livro que será fruto dessa experiência. Mas vim refletir sobre o que me foi contado. A casa em que os dois habitam é pequena, simples, mas é reflexo da vida que foi construída pelos dois. Acho que as casas são assim, um pedaço de nós, uma projeção do nosso interior. A forma como a tratamos e como a construímos não deixa de dizer muito sobre nós. E aí fico pensando em quem perde a casa, ou em um desabamento, ou pela destruição da chuva, de um tsunami, de um furacão, o que for, deve se sentir. A tristeza não é só pela perda material, a tristeza é também pela perda interior. Dentro de quatro paredes construímos e vivemos momentos de considerável importância.
                Não consigo esquecer a cena do filme “O Pianista” em que o ator principal observa sua cidade destruída pela guerra. As casas em pedaços, as vidas devastadas. Não desabaram só paredes, mas junto com estas, pessoas, sonhos e memórias. No filme o sofrimento do ator é nítido, pois sua vida fora embora junto com a cidade despedaçada pela guerra. Isso me fez refletir em como cada tijolo, cada móvel adquirido, cada dia vivido se transformam em um lar. Então, na manhã em que escutei o casal falar a respeito de seu lar, na verdade só os ouvi falar sobre si mesmos, sobre seus segredos mais preciosos e profundos.
                Outro dia assisti a um documentário que trata de um projeto da prefeitura chamado “Vila Viva” que visa urbanizar as favelas. O documentário trata da realidade que é remover famílias de suas casas, despejando-as em outras casas sem que ao menos sejam consultadas.  Entendo que a proposta do projeto é positiva, mas a execução deixou a desejar. Assistam ao documentário e verão, deixarei o mesmo no final do texto.
                Acho que o programa parece não levar em consideração  que quando se remove uma família de seu lar, não se remove um punhado de pessoas e alguns de seus pertences, o que está em jogo é muito mais do que isso. São histórias de vidas construídas ali, que serão demolidas e padronizadas em forma de prédios. Famílias enormes, que tinham uma dinâmica de se relacionar, que tinham espaço, que tinham tijolos em forma de memórias saudosas são removidas com um prazo para acharem uma casa sabe-se onde.
                Fico a observar a minha casa e imagino se me tirassem daqui, mudassem tudo e depois me colocassem de volta. Eu não ia gostar. Não dá pra brincar com pessoas iguais brincamos com bonecos. Demoramos mais para se adaptar do que eles, apesar disso acontecer eventualmente. Evoluir é adaptar e nesse aspecto a raça humana tem sido Expert.
                Lembro-me de quando mudei para o prédio onde resido. Era um pouco jovem e acho que o processo foi tão rápido que demorei pra processar a mudança. Mas toda vez que passo na frente do meu prédio antigo sempre vivo uma sensação meio nostálgica, de saudades, lembro-me de minha infância. Aquela estrutura cinza em forma de bloco é a coisificação dos meus sonhos e das ótimas lembranças que tenho da minha infância. Brinquei muito no P daquele prédio com meus vizinhos, que eram bons amigos. Esconde-esconde, patins, teatros, as festas de aniversário, tantas coisas. É engraçado revê-los, pois sinto uma energia boa, acho que eles também. Passamos muitos bons momentos juntos e isso não dá pra esquecer, a partir daí sempre associo essas pessoas com essa parte da minha vida.
                Lembro-me também que minha mãe saiu deste apartamento aos prantos, com saudades do que foi vivido nele. Foi lá onde eu e meu irmão nascemos e crescemos. Vejo as fotos das tantas coisas que vivi naquele apartamento e não tem como negar os sonhos que ficaram embutidos nas paredes, nos corredores e nos quartos deste. É a coisificação da minha infância, do meu passado. O modelo da casa pouco importa, o número de cômodos, o valor dos eletrodomésticos, isso são detalhes. O que importa é do que a casa é palco, é aí que ela deixa de ser casa e passa a ser lar. Deixo aí uma sugestão de inspiração para os engenheiros, arquitetos e decoradores, ou qualquer um que participe da construção de um lar.
                Vejam onde cheguei, fui longe e acabei dentro de mim, vasculhando a minha casa interna e o meu passado. É tão fácil refletir quando se escreve e fica impossível impedir o curso da imaginação. Para mim é fácil falar das preciosidades humanas, a riqueza delas me salta aos olhos. Conheci um casal que era simples de aparência, mas rico de garra e perseverança. Nisso eles me deixam no chinelo. Superaram a vida e venceram, enfrentaram os monstros e sofreram muito com isso. Mas estão lá, juntos, protegidos pela sua casa, abrigadora de suas vidas, de seus sonhos e de suas lembranças. Uma manhã de sábado combinada com uma conversa virou um mar de riquezas para mim e me fez pensar sobre meu lar. Ao final, muito me agradeceram, ofereceram-me café e ainda me levaram para conhecer o lado de dentro da casa. Mas quem tem a agradecer sou eu. Que dia rico e que história impressionante. O ser-humano me fascina, dá fome aos meus dias. Quero mais, a barriga em minha mente já anda a reclamar, vou dar um volta em busca de alimento para o meu pensamento perambulante.