terça-feira, 31 de julho de 2012



MEDO

Sentir medo é uma sensação bizarra. Começamos a suar, nosso coração dispara, ficamos com os músculos contraídos, atentos, tensos, buscando na realidade o menor sinal para agirmos. Somos o mais cautelosos que conseguimos, apesar de isso nem sempre dar certo.
 O medo tem uma função biológica de proteção muito importante, pois ele deixa os animais em estado de alerta o suficiente para lutarem pela sua vida diante de algum sinal de ameaça. Medo significaria assim, a nossa reação ao perigo contra a vida. Mas nós, seres humanos, complexos que somos, já arrumamos outras formas de sentir medo. Não precisamos de uma ameaça concreta para nos sentirmos dentro dessa sensação, profunda e difícil de aguentar que só ela.Cada qual com o seu medo, respeitemos. Acontecem em proporções diferentes e de formas muito peculiares. É nessa hora que nos sentimos indefesos e mais mortais do que nunca. Não temos controle sobre a situação e isso nos enlouquece.
Sempre gostei de dormir no escuro, mas já devaneei bastante a noite com medo, amedrontada pela falta de certeza do que estava em volta de mim. Às vezes achava que alguém entrara na minha casa, por ouvir barulhos estranhos, latidos do meu cachorro inesperados, ventanias uivantes que faziam a vidro da janela tremer. Nunca era nada, ainda bem, mas nessas situações me via paralisada, muito tensa, até enjoada. Ficava imóvel, com a escuta aguçada para qualquer sinal de perigo. Parece bobagem falar, mas acontece. É como se ficássemos em um extremo muito tênue prontos para o que vier, mas desesperados por estar nessa situação. A sensação mal cabe dentro de nós, devo dizer.
Lembro-me de quando era mais nova, quando meus pais saíam e eu ficava sozinha em casa, sempre sentia uma pontinha de medo da incerteza de tudo que poderia estar acontecendo no meu apartamento. Enfrentava essa situação andando pela casa para garantir que não existia nenhuma alma perambulando por lá, viva ou morta. Às vezes gritava para sentir de uma vez o medo inerente a esses dias e aumentar a minha coragem para enfrenta-lo. Gritar é uma certa forma de descarregar essa sensação, essa tensão. Eu sentia menos medo depois disso e mais coragem. Cada doido com sua mania.
O engraçado é que somos, muitas vezes, obrigados a enfrentar essas situações, essa experiência é uma espécie de fazer força dentro de si mesmo, obrigar-se a uma ação.  Não tem coisa mais difícil do que isso, mas tem de ser feito. Nem sempre escolhemos enfrentá-la e às vezes esse medo é tamanho, tão profundo que vira pânico. O estranho é que essa sensação de pânico pode vir na cabeça e tomar conta de nós. Imaginamos as piores tragédias, conosco e com os outros. Mas isso não precisa acontecer necessariamente como em um filme de terror, quem sente medo de algo que os demais normalmente não sentem deve saber do que estou falando. É difícil ainda ver tanta tragédia na televisão ( eu esperava mais do jornalismo , francamente) e não deixar a imaginação tomar conta. Ele pode ser saudável muitas vezes, mas nem sempre trabalha a nosso favor. Pode se transformar em uma voz mandona e decidida que vai aonde quer. E nos leva junto. Às vezes é difícil escapar e existem aqueles que não conseguem.
Sei que estou discutindo sobre um assunto que não é tão agradável, mas aprendi escrevendo a não ter "medo" do que sinto. Sentir qualquer sensação virou motivo para reflexão através da escrita. Sentir medo é parte de nós como humanos e não conheço alguém que nunca o sinta. Se não sentisse não era humano. Nunca gostei de sentir medo, por isso sempre evitei filmes de terror, prefiro deixar essa sensação de tensão para quando ela tiver que existir.
Independente disso, busco aqui causar alguma sensação sobre meus leitores, se causar já me darei por satisfeita. Sentir é mais importante do que entender, e vez ou outra experimentar novas sensações nos mostra mais da vida. Seres racionais? Balela, a maior parte do tempo somos muito irracionais, emoção pura. Sempre soube que não havia perigo em minha casa, mas sentia medo mesmo assim. Não dava para controlar. E nesses momentos me perguntava sobre minha vida, sobre a vida e a magnitude da mesma, vivia muitas sensações poderosas. Testava minha vida dentro de mim. E ainda estava preparada para qualquer monstro que resolvesse fazer uma visita. Ou pelo menos estava da forma mais cautelosa o possível.
Ser sentimental não é ruim, esse discurso também está equivocado. Os sentimentos, ruins ou bons, deliciosos ou insuportáveis movem mundos. Sem medo não correríamos, não perceberíamos o quanto é importante viver e lutar pela nossa vida. Sem sofrer não amadureceríamos e não nos apoiaríamos. Sem conflito, raiva, indignação há menos motivação para melhorar, mudar, metamorfosear. Sem amor, não tem graça viver com o outro. Sem afeto não há amizade que se sacrifique por outra. Sem paixão por uma causa, não há solidariedade. Sem lágrimas, não há pedido desculpas, abraços, reconciliações. Sem saudades, não há reencontro, não há reconhecimento da falta que alguém pode fazer.
Acho que no final das contas sentir medo significa que somos humanos e nada mais do que isso. Se o perigo vai vir ou não, não posso dizer. Espero que não, mas nós mundanos somos mais corajosos do que pensamos, pois viver é um risco mortal. Aguentar isso merece um banho de emoções para comemorar. Lembrança sem sentimento é registro de dicionário. Encarar isso e sobreviver é sensação maravilhosa. É sensação de estar vivo, de vida, e de conquista. O futuro é incerto, o perigo existe, mas nós sentimos, amamos, odiamos e nos transformamos em humanos. Para mim não há nada de mais interessante nesse mundo. Observar as milhões de formas que cada um lida com a realidade me fascina. Olhar para dentro de mim também é um tanto quanto difícil, mas desmistifica a lupa da realidade. Na verdade, só um pouco. Parte do meu fascínio é não ter como explicar a nossa condição de humanos...Sempre surpreendentes, sempre se superando, brilhantes e fascinantes.

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