segunda-feira, 25 de junho de 2012


O Lixo Humano
               
                Outro dia participei de um evento no Centro Mineiro de Referência em Resíduos que envolvia os catadores de papel de Minas Gerais. Comecei a refletir sobre esta profissão tão estigmatizada e marginalizada na nossa sociedade. É engraçado pensar primeiro no papel do lixo. Até o uso da palavra em si, sem ser no seu significado literal, é depreciativa. Dizer que algo está um “lixo” significa dizer que  este algo está muito ruim.
                O lixo é o nosso resto, que pode ser encontrado em latas de lixo, na rua, nos rios, no mar, até dentro de nós, ele está em todos os lugares. Mas acho que por isso mesmo é muita irresponsabilidade nossa tratá-lo da forma com que tratamos. Primeiro porque aqueles que mais negligenciam e produzem o lixo somos nós. Somos péssimos pais, decididos a tentar mudar um adulto inconsequente, pois é isso que virou a questão do lixo, uma bola de neve mimada que resiste em reverter a situação. Queremos dar um jeito nele agora, pois ele anda a nos dar problema. Se não desse era só abandoná-lo no lugar dele e voltar para nossa vida(inha).  
                Queremos o lixo longe de nós, mas não paramos de produzi-lo. Engraçado pensar que aquelas pessoas que se propõe a fazer algo com ele são desvalorizadas e consideradas parte dele. Pessoas essas que arrumaram uma fonte de renda digna, que colaboram com a reciclagem do lixo e ainda não poluem o meio-ambiente, pois transportam a sua mercadoria com a gasolina do corpo. Quem já não ficou de mau-humor por esperar no trânsito um catador ou uma catadora de lixo, que graças a sua condição humana, não consegue puxar o seu carro na velocidade das nossas máquinas, brinquedinho do homem (porque me desculpem, mas já deixou de ser só meio de transporte há muito tempo, virou arma, brinquedo, símbolo de status, virilidade e mais um monte de bobagens). Buzinamos, pensamos no nosso atraso e na pressa que temos de viver. Esquecemos que aquela pessoa está trabalhando, que anda o dia inteiro no sol, ou na chuva, em busca de seu sustento. Que ela não tem um carro com ar condicionado para se transportar. Melhor parar para repensar essa atitude desrespeitosa, que desconsidera o fato de que nem todas as pessoas têm as mesmas oportunidades na vida. E nem se for por escolha, isso não deixa este trabalho menos digno. Indignos são os que não pensam fora da caixa, que vivem dentro do próprio umbigo e se acham melhores por sentarem em uma cadeira de escritório. Adivinhe só, existe um mundo lá fora!
                 Os catadores de papel são tratados como se fossem o lixo humano. Isso é triste, pois a sua profissão é bela. E não só a deles, como com todos aqueles que conseguem produzir algo com o que consideramos que já é resto, que não pode ser reaproveitado. Eles produzem com o que consideramos inutilizável. Isso é arte. Arte para os olhos, arte para a vida. Além de arte é gestão de resíduos, é gerencia do resto. Estas pessoas são como nós, mas viveram oportunidades diferentes, lutam para serem reconhecidas como profissão, e até hoje não entendo porque não são. Isso nem moralismo é, é preconceito mesmo. Existe uma proposta do governo para que contribuam menos com impostos sobre sua renda, mas mesmo assim recebam  um aposentadoria digna . Se o retorno fosse garantido a conversa seria outra, aliás, o texto seria outro.
O trabalho realizado por estas pessoas é muito mais digno do que muitos outros que contribuem com a produção de lixo e com a reprodução de uma sociedade desigual. O pior de tudo é desconsiderar as vidas envolvidas por trás dessa profissão. Assisti ao documentário “Lixo Extraordinário” e me lembrei de como isso é verdade e emocionante (o documentário é maravilhoso, recomendo!).  As histórias ali contadas não são exceção, mas se transformam junto com a individualidade de cada um. Agora, multiplique-as por um país inteiro, e veja o que está sendo deixado de lado. Pouco? Acho que não.
                O  verdadeiro lixo humano são aqueles sentimentos de hierarquia, de segregação, de acreditar que alguém é melhor do que alguém. O lixo humano não mora nos lixões e sim dentro de nós, que somos incapazes de enxergar o valor humano. O lixo somos nós, e me parece difícil transformar esta matéria-prima. Não cansamos de reproduzir uma sociedade que ao invés de trabalhar unida, prefere trabalhar separada, fingindo que contas no banco e cor de pele são suficientes para dizer quem tem direito a ser melhor. Parecemos crianças imaturas precisando de boas referências para nos espelhar. Gerenciamos mal nosso mundo ao reproduzir o desigual e principalmente, ao não repensarmos sobre as escolhas que fazemos. Isso começa com as palavras que usamos, com a forma com que tratamos os desconhecidos e que interpretamos as pessoas. Trabalhar humaniza, socializa e colabora com a autoestima de cada um, além de contribuir para o mundo de uma forma coletiva. Quem se propõe a segregar quem trabalha é pior do que lixo. Pois o que de fato é lixo não é o lixo, e sim o lixo humano (confuso, mas é verdade). Este pode ficar na lixeira bem longe de nossos corações. O outro virou fonte de trabalho, de renda e de histórias lindas, virou referência de como ter garra na vida. Desculpem-me, mas essa característica anda em falta nos supermercados. Deve estar por aí em algum lixão...

PS: Fica a dica do documentário: http://www.youtube.com/watch?v=udpDCiLrg4k .
Vale muito a pena!!!

segunda-feira, 18 de junho de 2012


Parede de sonhos

                O ser-humano é muito rico. Ignorante quem não sabe disso. Essa semana comecei a realizar o meu projeto sobre a história de vida de uma comunidade de Belo Horizonte. Entrevistei um casal, que já carrega certa idade, sobre a sua vida e seu papel na construção da comunidade onde residem. Contaram-me a respeito de sua casa, de como a construíram e das dificuldades que a vida sempre lhes presenteou.
                Não vim aqui relatar exatamente as palavras deste casal. Estas guardarei para o livro que será fruto dessa experiência. Mas vim refletir sobre o que me foi contado. A casa em que os dois habitam é pequena, simples, mas é reflexo da vida que foi construída pelos dois. Acho que as casas são assim, um pedaço de nós, uma projeção do nosso interior. A forma como a tratamos e como a construímos não deixa de dizer muito sobre nós. E aí fico pensando em quem perde a casa, ou em um desabamento, ou pela destruição da chuva, de um tsunami, de um furacão, o que for, deve se sentir. A tristeza não é só pela perda material, a tristeza é também pela perda interior. Dentro de quatro paredes construímos e vivemos momentos de considerável importância.
                Não consigo esquecer a cena do filme “O Pianista” em que o ator principal observa sua cidade destruída pela guerra. As casas em pedaços, as vidas devastadas. Não desabaram só paredes, mas junto com estas, pessoas, sonhos e memórias. No filme o sofrimento do ator é nítido, pois sua vida fora embora junto com a cidade despedaçada pela guerra. Isso me fez refletir em como cada tijolo, cada móvel adquirido, cada dia vivido se transformam em um lar. Então, na manhã em que escutei o casal falar a respeito de seu lar, na verdade só os ouvi falar sobre si mesmos, sobre seus segredos mais preciosos e profundos.
                Outro dia assisti a um documentário que trata de um projeto da prefeitura chamado “Vila Viva” que visa urbanizar as favelas. O documentário trata da realidade que é remover famílias de suas casas, despejando-as em outras casas sem que ao menos sejam consultadas.  Entendo que a proposta do projeto é positiva, mas a execução deixou a desejar. Assistam ao documentário e verão, deixarei o mesmo no final do texto.
                Acho que o programa parece não levar em consideração  que quando se remove uma família de seu lar, não se remove um punhado de pessoas e alguns de seus pertences, o que está em jogo é muito mais do que isso. São histórias de vidas construídas ali, que serão demolidas e padronizadas em forma de prédios. Famílias enormes, que tinham uma dinâmica de se relacionar, que tinham espaço, que tinham tijolos em forma de memórias saudosas são removidas com um prazo para acharem uma casa sabe-se onde.
                Fico a observar a minha casa e imagino se me tirassem daqui, mudassem tudo e depois me colocassem de volta. Eu não ia gostar. Não dá pra brincar com pessoas iguais brincamos com bonecos. Demoramos mais para se adaptar do que eles, apesar disso acontecer eventualmente. Evoluir é adaptar e nesse aspecto a raça humana tem sido Expert.
                Lembro-me de quando mudei para o prédio onde resido. Era um pouco jovem e acho que o processo foi tão rápido que demorei pra processar a mudança. Mas toda vez que passo na frente do meu prédio antigo sempre vivo uma sensação meio nostálgica, de saudades, lembro-me de minha infância. Aquela estrutura cinza em forma de bloco é a coisificação dos meus sonhos e das ótimas lembranças que tenho da minha infância. Brinquei muito no P daquele prédio com meus vizinhos, que eram bons amigos. Esconde-esconde, patins, teatros, as festas de aniversário, tantas coisas. É engraçado revê-los, pois sinto uma energia boa, acho que eles também. Passamos muitos bons momentos juntos e isso não dá pra esquecer, a partir daí sempre associo essas pessoas com essa parte da minha vida.
                Lembro-me também que minha mãe saiu deste apartamento aos prantos, com saudades do que foi vivido nele. Foi lá onde eu e meu irmão nascemos e crescemos. Vejo as fotos das tantas coisas que vivi naquele apartamento e não tem como negar os sonhos que ficaram embutidos nas paredes, nos corredores e nos quartos deste. É a coisificação da minha infância, do meu passado. O modelo da casa pouco importa, o número de cômodos, o valor dos eletrodomésticos, isso são detalhes. O que importa é do que a casa é palco, é aí que ela deixa de ser casa e passa a ser lar. Deixo aí uma sugestão de inspiração para os engenheiros, arquitetos e decoradores, ou qualquer um que participe da construção de um lar.
                Vejam onde cheguei, fui longe e acabei dentro de mim, vasculhando a minha casa interna e o meu passado. É tão fácil refletir quando se escreve e fica impossível impedir o curso da imaginação. Para mim é fácil falar das preciosidades humanas, a riqueza delas me salta aos olhos. Conheci um casal que era simples de aparência, mas rico de garra e perseverança. Nisso eles me deixam no chinelo. Superaram a vida e venceram, enfrentaram os monstros e sofreram muito com isso. Mas estão lá, juntos, protegidos pela sua casa, abrigadora de suas vidas, de seus sonhos e de suas lembranças. Uma manhã de sábado combinada com uma conversa virou um mar de riquezas para mim e me fez pensar sobre meu lar. Ao final, muito me agradeceram, ofereceram-me café e ainda me levaram para conhecer o lado de dentro da casa. Mas quem tem a agradecer sou eu. Que dia rico e que história impressionante. O ser-humano me fascina, dá fome aos meus dias. Quero mais, a barriga em minha mente já anda a reclamar, vou dar um volta em busca de alimento para o meu pensamento perambulante.

quarta-feira, 13 de junho de 2012


A vida
Viver é uma arte, um ofício, um fardo e uma benção. Misture bem estes ingredientes e verá o resultado. Nem sempre a mistura fica bonita, com a consistência correta, mas temos que engoli-la da mesma forma. Não há outra saída. Outras vezes ela cheira bem e fica saborosa, além disso, deixa saudades. Acho que esta é a melhor régua dos bons momentos que passamos na vida. Mede-os com muita precisão, além de revelar a preciosidade de outros tempos, aqueles que nunca achamos importantes, mas que na realidade eram, e muito. Esse processo acontece através da fala, começamos a relatá-lo e quando percebemos estamos rindo anestesiados levemente pela sensação de sentir falta. Ai é que percebemos o quanto foi bom.
Vejo que ainda sou jovem e que tenho muito que viver. Mas também não posso dizer que vivi pouco. Talvez os anos não juntem um número muito grande, mas as experiências certamente sim. Não fazem de mim uma velha, nem uma sábia e muito menos uma pessoa experiente. Fazem de mim uma cidadã, não só do mundo, mas que ama o mundo e que reconhece o que é ser humano e toda ladainha que isso implica. Vejo que não sou mais criança, nem adolescente, que não posso mais ver meus amigos todos os dias, que minha família não responde por mim de primeira mão, pois as responsabilidades agora são mais minhas do que de ninguém. Eu sou dona de minhas decisões e de meu caminho.
Sinto que as tantas estradas que já cruzaram com a minha e os tantos viajantes que nela vi e que fiz amizade, valeram a pena, mas não me pertencem mais. Tantas pessoas maravilhosas já passaram por mim (e ainda passam), mas algumas destas, provavelmente, tomarão outros rumos que não o meu. Acho que parte de crescer é assumir essa faceta da vida, a fugacidade. Nada permanece, nem quem mais amamos ou quem mais nos damos bem. Os amigos são parte interessante da vida, com eles vivemos tudo. E vivemos com uma intensidade única, pois o melhor de ser amigo é compartilha-la, além de ter a certeza de que aquela pessoa ali do seu lado, mesmo que muito diferente, está vivendo a mesma coisa que você. Sentindo da mesma forma, rindo e tremendo por dentro, compartilhando uma energia sem explicação.  Muitas vezes nem é preciso dizer, só é preciso sentir. Ou olhar e rir. Mesmo que isso aconteça depois, pois momentos ruins também compartilham desta caraterística.
Já sinto saudades daqueles que vejo que se afastam. Sei que alguns voltam, que outros não e que alguns se vão, mas o reencontro será como nos velhos tempos. Intimidade aquela que não passa. O que passa são os detalhes da vida, coisa que quem é próximo acompanha e sabe. Parece bobagem saber o nome da mãe de seu amigo, ou a profissão do irmão dele, ou mesmo o nome do cachorro. O sorvete preferido e aquele pior defeito, que te irrita todos os dias, mas que caracteriza seu amigo como mais ninguém. Mas para mim isso é ter carinho. Isso é conhecer uma pessoa de verdade. Some tudo isso que falei antes e muito mais, dê um contorno humano, coloque algumas coisas belas outras não e voilá, terá um ser-humano. Um amigo, uma pessoa qualquer. Que deixa de ser qualquer ao passar pela nossa rede de amizades e pelo nosso coração.
Essa bagunça que somos e essa imprevisibilidade que nunca nos abandonará se transforma em todos que andam pelas ruas do mundo. O fato de escolhermos uns loucos para nos acompanhar pela jornada da vida, ou para aturar a nossa própria loucura  é que  é fascinante. Bela é a amizade e ela eu conheço bem, conheço pessoalmente e sei o nome de todos que chamo por este nome. Talvez eu devesse mudar o nome desse texto para amizade, mas na verdade quer coisa mais da vida do que um amigo? Sem eles não sei se valeria a pena.
Acho que hoje comecei a pensar nisso, pois vi vários rostos nas redes socais, mas que gostaria de ver ao vivo, conviver, rir, reviver. Sinto saudades, mas não há tempo para investir em todos esses, pois a vida é injusta e nos faz escolher. As escolhas moldam de certa forma com quem conviveremos, apesar disso não significar que não se sente falta daqueles que por algum motivo não fazem parte delas. Estes também têm seu próprio caminho a seguir e sua estrada para desvendar. Queria viver tudo de novo, com todos vocês amigos, mas como não posso guardo-os dentro de mim no lugar mais especial que tenho dentro das muitas compartimentações do meu pequeno corpo.
Sobre a vida, como esta é complicada. Não sei o que esperar dela, não sei que dia ela não será mais minha, nem sei do que sei. Acho que hoje me deu saudades de muitos tempos que já vivi, que sorri e que chorei ( ai Roberto Carlos). Queria que todos fizessem parte de um filme em que eu pudesse atuar como atriz principal quantas vezes quisesse. Talvez eu tenha acabado de descobrir a maior injustiça da vida. Mas proponho a melhor justiça para não bancar a pessimista, reviver, relembrar e recomeçar. As possibilidades são infinitas e vai saber o que nos espera. Sei que muito de bom ainda virá, mas arrastar a mala pesada que são as saudades por aí, às vezes é difícil. Viver é um passeio de tamanho incerto. Mas se tem um amigo ao lado, já vale a pena. Acho que é por isso que não me canso de viajar.

quarta-feira, 6 de junho de 2012


Domingo
Hoje no carro, enquanto me encaminhava para almoçar com amigos e família, pensei em escrever sobre as montanhas. Deborah e as montanhas, um caso de amor. Realmente estas me seduzem todos os dias e me lembro de quando morei fora do país senti falta das mesmas diariamente. Tinha saudades de abrir a janela e ver a serra, grandiosa que só ela.  Respirar e tomar coragem de começar o dia através desse momento de olhá-la aliviava-me, limpava-me o corpo e a mente das preocupações da vida.
Depois disso, durante o almoço, conversamos muito sobre a Europa e o charme daquele continente. Como o simples fato de tomar café, mas em Paris, já é por si só charmoso. Mas tem que ser feito com esse pano de fundo encantador, palco de muita história e arte. Quem já viu a torre Eiffel piscar, ou já comeu uma massa em uma osteria italiana, ou viu um pôr do sol em Barcelona sabe do que estou falando. Quem não viu não se sinta excluído, por favor, imaginem, sempre.
Depois dessa conversa e de um almoço maravilhoso fui ver o pôr do sol do alto das montanhas. Minhas musas motivadoras dessas palavras retornaram ao meu mar de ideias. Aquele entardecer tirava meu fôlego, e as montanhas esnobavam sua exuberância. São poucos que têm o privilégio de ver um pássaro de cima e hoje fui um deles. Ainda mais poucos ainda são aqueles que sabem admirar tal possibilidade, simples, mas de uma completude indescritível.  A natureza é pura e imponente ao mesmo tempo e ela de fato me completa. O entardecer estava avermelhado, as montanhas verdes com capins rosa e do outro lado, como se não bastasse, a lua cheia nos acompanhava. Dona Lua deveria evitar o regime, pois arrasa nesses dias. Apesar de toda falação minha e das minhas companhias naquele momento, aquele visual não precisava de palavras, a imagem falava por si. Sentar e observar aquela vista encheu a minha alma de coisas boas. Tranquilizou-me, acalmou-me e me entreteve.
Sinto por vezes falta do mar, mas sempre o associei com férias. Descobri ao morar em outra cidade que sou filha das montanhas, que é delas que sinto falta e que são elas que procuro com olhar todos os dias, mesmo que não perceba. Elas viraram a melhor rotina das minhas manhãs. Acho que por mais que o dia vá ser difícil, ou o mau-humor tenha tomado conta de mim (normalmente quando acordo cedo), a espiada que dura segundos na serra me lembra que existem coisas que são sempre boas (isso se não resolverem remover minério dela), e isso me ajuda a lembrar de quem eu sou, que o dia vai começar e que viver vale a pena. O ar fresco me alimenta com motivação para recomeçar a luta que é viver. Todos sabem que não é fácil se carregar dentro de si todos os dias. Pesa, e muito.
Não sei onde estabelecerei minhas raízes e nem sei se elas crescem de dentro de mim, mas acho que vou sempre procurar as montanhas ao acordar. Esse caso de amor se estende para cidade onde moro. Já briguei com esta cidade, já me incomodei com a mentalidade conservadora do mineiro, já cansei de sair e ver as mesmas pessoas. Mas ao ficar longe, voltei e fiz as pazes com o que havia deixado para trás. Encantei-me de novo com a Praça do Papa, com o pôr do sol no Papinha, com a Praça da Estação e com a intimidade que essa cidade me passa.
Aqui é palco de arte, de cultura e de muita comida boa. Aqui eu tenho amigos, tenho família e tenho lembranças preciosas. Elas criaram pernas (pequenas) no formato de Deborah. Ando por aí para esnobá-las, pois são em sua maioria boas. Mas é um esnobe politicamente correto, pois é feito através de sorrisos.  Aprendi que ser mineiro é colocar um conhecido, ou amigo, dentro de casa. Acolhe-lo, e ainda dar de comer (comidas gostosas). E eu sou assim, aliás, acho que sou assim. Nós mineiros, somos pessoas próximas, gostamos de conviver de perto com as pessoas.
Passear na Savassi, sentar na Travessa, beber cerveja com os amigos nos milhares de botecos que a cidade comporta, ir a um show no Parque Municipal, andar pela Praça da Liberdade e ver as luzes de Natal, ir ao cinema do Belas Artes, comer pizza em Santa Teresa na Parada do Cardoso, dançar samba no Cartola, observar a Serra que abraça a cidade. Parecem simples essas palavras, esses momentos, mas eles dão valor à cidade. Eles agregam e me unem com ela. Acordar todos os dias e ver as montanhas, marca da minha cidade, é um conforto, uma alegria. O horizonte é belo. Não é um belo horizonte somente.
Não sei se fico, se vou, se volto, mas sei que amo esta cidade, estas montanhas e estes amigos que fiz aqui. A Europa é charmosa, a África fascinante, a Ásia não conheço desculpem-me, mas as minhas montanhas são demais. Viver a vida ao lado delas é um prazer e uma emoção.  Que sorte que te tenho ou que te tive, ou que terei, Serra do Curral. Pensando melhor, talvez por nunca possuí-la, palavra pesada, sou louca por você. Agora chega, falei demais, vou voltar para a janela para ver a vista. Um bom domingo a todos.