O Lixo Humano
Outro dia participei de um evento no Centro Mineiro de Referência em Resíduos que envolvia os catadores de papel de Minas Gerais. Comecei a refletir sobre esta profissão tão estigmatizada e marginalizada na nossa sociedade. É engraçado pensar primeiro no papel do lixo. Até o uso da palavra em si, sem ser no seu significado literal, é depreciativa. Dizer que algo está um “lixo” significa dizer que este algo está muito ruim.
O lixo é o nosso resto, que pode ser encontrado em latas de lixo, na rua, nos rios, no mar, até dentro de nós, ele está em todos os lugares. Mas acho que por isso mesmo é muita irresponsabilidade nossa tratá-lo da forma com que tratamos. Primeiro porque aqueles que mais negligenciam e produzem o lixo somos nós. Somos péssimos pais, decididos a tentar mudar um adulto inconsequente, pois é isso que virou a questão do lixo, uma bola de neve mimada que resiste em reverter a situação. Queremos dar um jeito nele agora, pois ele anda a nos dar problema. Se não desse era só abandoná-lo no lugar dele e voltar para nossa vida(inha).
Queremos o lixo longe de nós, mas não paramos de produzi-lo. Engraçado pensar que aquelas pessoas que se propõe a fazer algo com ele são desvalorizadas e consideradas parte dele. Pessoas essas que arrumaram uma fonte de renda digna, que colaboram com a reciclagem do lixo e ainda não poluem o meio-ambiente, pois transportam a sua mercadoria com a gasolina do corpo. Quem já não ficou de mau-humor por esperar no trânsito um catador ou uma catadora de lixo, que graças a sua condição humana, não consegue puxar o seu carro na velocidade das nossas máquinas, brinquedinho do homem (porque me desculpem, mas já deixou de ser só meio de transporte há muito tempo, virou arma, brinquedo, símbolo de status, virilidade e mais um monte de bobagens). Buzinamos, pensamos no nosso atraso e na pressa que temos de viver. Esquecemos que aquela pessoa está trabalhando, que anda o dia inteiro no sol, ou na chuva, em busca de seu sustento. Que ela não tem um carro com ar condicionado para se transportar. Melhor parar para repensar essa atitude desrespeitosa, que desconsidera o fato de que nem todas as pessoas têm as mesmas oportunidades na vida. E nem se for por escolha, isso não deixa este trabalho menos digno. Indignos são os que não pensam fora da caixa, que vivem dentro do próprio umbigo e se acham melhores por sentarem em uma cadeira de escritório. Adivinhe só, existe um mundo lá fora!
Os catadores de papel são tratados como se fossem o lixo humano. Isso é triste, pois a sua profissão é bela. E não só a deles, como com todos aqueles que conseguem produzir algo com o que consideramos que já é resto, que não pode ser reaproveitado. Eles produzem com o que consideramos inutilizável. Isso é arte. Arte para os olhos, arte para a vida. Além de arte é gestão de resíduos, é gerencia do resto. Estas pessoas são como nós, mas viveram oportunidades diferentes, lutam para serem reconhecidas como profissão, e até hoje não entendo porque não são. Isso nem moralismo é, é preconceito mesmo. Existe uma proposta do governo para que contribuam menos com impostos sobre sua renda, mas mesmo assim recebam um aposentadoria digna . Se o retorno fosse garantido a conversa seria outra, aliás, o texto seria outro.
O trabalho realizado por estas pessoas é muito mais digno do que muitos outros que contribuem com a produção de lixo e com a reprodução de uma sociedade desigual. O pior de tudo é desconsiderar as vidas envolvidas por trás dessa profissão. Assisti ao documentário “Lixo Extraordinário” e me lembrei de como isso é verdade e emocionante (o documentário é maravilhoso, recomendo!). As histórias ali contadas não são exceção, mas se transformam junto com a individualidade de cada um. Agora, multiplique-as por um país inteiro, e veja o que está sendo deixado de lado. Pouco? Acho que não.
O verdadeiro lixo humano são aqueles sentimentos de hierarquia, de segregação, de acreditar que alguém é melhor do que alguém. O lixo humano não mora nos lixões e sim dentro de nós, que somos incapazes de enxergar o valor humano. O lixo somos nós, e me parece difícil transformar esta matéria-prima. Não cansamos de reproduzir uma sociedade que ao invés de trabalhar unida, prefere trabalhar separada, fingindo que contas no banco e cor de pele são suficientes para dizer quem tem direito a ser melhor. Parecemos crianças imaturas precisando de boas referências para nos espelhar. Gerenciamos mal nosso mundo ao reproduzir o desigual e principalmente, ao não repensarmos sobre as escolhas que fazemos. Isso começa com as palavras que usamos, com a forma com que tratamos os desconhecidos e que interpretamos as pessoas. Trabalhar humaniza, socializa e colabora com a autoestima de cada um, além de contribuir para o mundo de uma forma coletiva. Quem se propõe a segregar quem trabalha é pior do que lixo. Pois o que de fato é lixo não é o lixo, e sim o lixo humano (confuso, mas é verdade). Este pode ficar na lixeira bem longe de nossos corações. O outro virou fonte de trabalho, de renda e de histórias lindas, virou referência de como ter garra na vida. Desculpem-me, mas essa característica anda em falta nos supermercados. Deve estar por aí em algum lixão...
PS: Fica a dica do documentário: http://www.youtube.com/watch?v=udpDCiLrg4k .
Vale muito a pena!!!