quarta-feira, 19 de setembro de 2012



Última noite em Leeds


Outro dia combinei de conversar no Skype com uma amiga alemã que conheci em Leeds. Ano passado fiz um intercâmbio possibilitado pela UFMG para esta cidade. Cursei um semestre de Psicologia na Universidade de Leeds e vivi bons momentos por lá. Devo isso aos bons amigos que fiz naquela cidade cinzenta e industrial que possui muitas cores nas minhas saudades. Ao falar com essa querida amiga, lembramo-nos do passado e de tudo passamos durante esta experiência. Muitas histórias vieram à tona e me lembrei com saudades dos momentos que passei naquela terra chuvosa de cervejas gostosas.

Morei em uma residência estudantil repleta de intercambistas. Sua estrutura física era composta por vários prédios antigos divididos por letras, enfileirados em ordem alfabética. Chamava-se Saint Marks e era muito próxima da universidade, perfeita para render o tempo de sono antes das aulas começarem. O andar onde morava era dividido em dois flats, cada um com cinco quartos, uma cozinha e um banheiro. Do meu lado moravam eu, um americano, um canadense, uma australiana e uma honconguêsa (obrigada,Google). Do outro lado moravam duas australianas, um italiano, outro americano e um letão (obrigada, Google, mais uma vez).


Tornamo-nos uma família que mantinha as portas que nos separavam sempre abertas. A cozinha nunca estava vazia, sempre havia alguém conversando, ou então promovendo uma festinha antes de sair. Com o tempo criamos intimidade para várias brincadeiras, piadas e muita conversa. Os flats nunca estavam vazios, a sensação era de casa cheia. Acho que aquelas portas abertas eram reflexo do que estávamos nos propondo, todos muito abertos a se mostrarem e a conhecerem pessoas novas. Foi assim que nossa amizade começou.




As conversas na cozinha eram uma viagem pela história de cada um que morou comigo. A difícil relação entre os chineses e os honconguêses, a influência da igreja na Itália, a rivalidade entre o lado francês do Canadá e o lado inglês, o alto custo de vida australiano e por aí vai. Aprendi muito com essas pessoas, não só sobre a vida, mas também sobre seus costumes. Por vezes, nos estranhávamos um com a alimentação do outro, e por outras compartilhávamos nossa comida. Lembro-me de um jantar em que a seleção gourmet foi comida chinesa preparada pela Katrina, a jovem de Hong Kong que morava comigo. A comida ficou deliciosa, muito diferente do chinês tradicional que eu estava acostumada a comer. De sobremesa foi servido milkshake do Roberto, italiano viciado em doce. Foi uma delícia.

Nos aniversários nos reuníamos, comprávamos bolo e presente e comemorávamos com muita festa. No Natal preparamos uma ceia pré-recesso de final de ano em que cada um cozinhou uma comida típica de seu país. O resultado foi uma mistureba interessante. Tudo para minimizar a distância da velha família, pois a nova já estava formada. Brincamos de vários drinking games importados dos EUA e ensinados por Charlie e Matt, os dois queridos americanos com quem morei. Charlie me tratava como sua irmã mais nova, apesar de ser mais novo do que eu. Sempre me falava que se algum garoto me mal tratasse era só chamá-lo. Meio machista, mas carinhoso. Por vezes fugia para o andar de cima onde fiz bons amigos também, inclusive a Marleen a alemã que mencionei no começo do texto.

Vivi mais no ciclo universitário, logo não conheci muito a cidade de Leeds. O que conheci foi a cidade de Saint Marks, como disse Roberto em uma de nossas filosofadas na cozinha. E foi por essa cidade que me apaixonei. Viajei sem viajar enquanto viajava. As pessoas com quem convivi traziam o seu mundo até mim. Essa foi a passagem mais barata que comprei, e de brinde ainda ganhei amigos, experiência e riqueza. Riqueza interna, pois acho que isso tudo me acrescentou como ser-humano.

Na hora da despedida final, eu fui a última a ir embora. Os horários dos voos eram diversos, alguns iriam continuar sua viagem para outro local (que era o meu caso), outros iriam para casa. Foi difícil assumir o fim, sempre é. Arrumei minhas malas (quanto entulho juntei em poucos meses, que horror!) e olhei para meu quarto agora só com a cama, a escrivaninha e o armário. Parecia que ninguém havia morado ali. Mas esse foi meu pequeno abrigo durante importantes meses. Assisti também aquele velho flat se esvaziar, pois a minha carona para ir embora foi a última. Despedi de meus amigos com um abraço confuso e ingênuo. Sabíamos que muito provavelmente aquela era a última vez que nos veríamos, mas não era fácil acreditar. Sentimentos confusos passavam pelas nossas cabeças. Como pude ser tão próximo e viver um momento tão intenso com pessoas que provavelmente não veria mais? Que vida mais louca e maravilhosa ao mesmo tempo. A cada abraço de despedida, meu irmãos pegavam suas malas e voltavam para enfrentar a vida  deixada para trás. Não foi fácil ver o flat vazio. Só restaram os móveis e uma cozinha cheia de entulhos.  Encarar o fim é um banho de água fria em conta gotas. Não da para acreditar até que venham as saudades. Olhava para aquele local vazio, mas vazio estava meu coração. A presença das pessoas, mesmo em atividades rotineiras, preenche. Morar com pessoas da minha idade, jovens, é diferente. Todos estão vivendo o mesmo momento, sabem o mesmo tanto da vida, é um momento de compreensão e divertimento ao mesmo tempo. E brigas claro, não dá para viver sem conflito. Mas é um se ver e rever no outro diário. Ainda mais com conflitos culturais. Acho que nem preciso dizer a minha vontade de reviver tudo isso.


Esse tipo de experiência reforça o fato de não existir certo, não existir cultura que deva predominar e que o respeito se faz mais do que necessário quando lidamos com pessoas de outros países. Acho que depois de conversar meses com meus novos irmãos, repensei sobre o meu país, a minha cidade e claro, sobre mim mesma. Pude reunir tudo de bom que essas pessoas me ofereceram e transforma-lo em parte de mim. Acho que é assim que vou carregar pra sempre essas pessoas comigo, tive a sorte de cruzar com elas em algum momento da minha vida.


Ser intercambista é viver com uma intensidade que não se encontra em outro lugar, em outra hora, ainda mais quando se é jovem (sem discriminar os mais velhos, mas nessa fase a disposição redobra). Fiz amigos para a vida inteira, mas ao mesmo tempo amigos que viverão na minha memória. Já são amigos só por terem me presenteado com tanto aprendizado. Isso é amizade, proporcionar crescimento, agregar coisas boas. Quem sabe um dia ainda cruzarei com um deles, a vida surpreende, não sei onde vou parar. Essa é toda a saga de quem viaja, adorar e abandonar. Acredito que todos que já viveram fora do país devam estar se identificando com algum ponto desse texto.  A intensidade vale a pena, mas cobra seu preço através da sua fugacidade. 






“Nós mesmos, eis a grande questão da viagem. Nós mesmos e nada mais. Ou pouco mais. Certamente há muitos pretextos, ocasiões e justificativas, mas em realidade só pegamos a estrada movidos pelo desejo de partir em nossa própria busca com o propósito, muito hipotético, de nos reencontrarmos ou, quem sabe, de nos encontrarmos. A volta ao planeta nem sempre é suficiente para obter esse encontro. Tampouco uma existência inteira, às vezes. Quantos desvios, e por quantos lugares, antes de nos sabermos em presença do que levanta um pouco o véu do ser!” -  Livro A "Teoria da Viagem: Poética da Geografia"

terça-feira, 11 de setembro de 2012


Cartas

                Não me conformo com o fim das cartas escritas à mão e enviadas pelo correio. E-mail é prático, mas não supre a pessoalidade de palavras escritas pela própria pessoa. Mesmo que por vezes a letra fique ilegível, contenha erros e rabiscados, prefiro isso ao padrão das letras do computador. A meu ver a forma de escrever é uma projeção de alguém em um papel.
                Quando era criança me indignava diante da ausência de cartas para mim. Estas sempre chegavam endereçadas aos meus pais, nunca incluíam o nome Deborah no destinatário. Sofria com a solidão do esquecimento dos outros. Resolvi então fazer parte do mundo das correspondências. Mal sabia eu que aquela pilha de papéis entregados pelo funcionário do correio para os meus pais continha, na sua grande maioria, contas e propagandas. Com um problema nas mãos fui dividi-lo com meu pai e minha mãe, em busca de uma solução.  A sua sugestão foi genial: “Ora, se quer receber cartas terá que enviar cartas para que as pessoas possam lhe enviar a resposta”.
                Dito e feito. Selecionei um grupo de pessoas com quem gostaria de conversar.  Tias, tios, primas, avós, conhecidos, amigos, o céu era o limite. Escrevi as cartas à mão, algumas sem muito assunto, mas todas envolvendo um desejo de estabelecer esse tipo de vínculo.  Logo as respostas começaram a voltar. Alguns se comprometeram mais do que outros, mas o fato é que durante meses troquei cartas com pessoas muito queridas.
                Não sei mais quando foi que este processo terminou, como as cartas pararam de chegar e de serem enviadas. Não sei se fui eu que cansei, o assunto que acabou, ou os meus destinatários que desanimaram. Talvez seja a vida, que exigiu mais atenção do que estas pequenas ações, às vezes aquela é mandona.  Possuo até hoje estas cartas guardadas em uma mala, unem-se para formar uma memória particular.
                Ao ler estas cartas, penso nas queridas pessoas que tiveram carinho e atenção para me responder. Lembro-me do que acontecia naquele tempo comigo e com meus destinatários e ainda me recordo de como a letra dessas pessoas era, coisa que não vejo desde os tempos da escola. Nesta época não era uma questão de opção, todos sabem bem. Através destes tantos envelopes enxergo uma linha do tempo.  Minha madrinha que morava nessa época em Governador Valadares, um convite de uma tia querida para algum dia visitarmos a Torre Eiffel juntas (o que aconteceu), notícias de uma irmã americana que morou em minha casa, um tio especial apaixonado por literatura, desculpas pela ausência de alguém importante em uma data comemorativa, e por aí vai, ainda não tive tempo de reler todas.
Vi em uma das cartas que, pela resposta do destinatário, eu havia manifestado gosto por astronomia em uma de nossas conversas. Como as coisas mudaram! Atualmente só me interesso pelo brilho da lua e a reflexão que olhar para as estrelas implica. Vejo pelas cartas que já fui outra pessoa que às vezes esqueço que faz parte de mim.  Não fui só eu que mudei, a vida de todos os meus correspondentes também. Alguns não os vejo mais, não sei mais o que se passa em suas vidas. Mas já soube, já filosofei sobre a vida com estes meros conhecidos do presente.
                Existe uma trilogia de livros que adoro chamada “Griffin e Sabine” (o autor se chama Nick Bantcock). Conta a história, somente através de cartas, de um homem e uma mulher que começam a se conhecer por meio de correspondências. Os li e reli várias vezes, sempre adorando a parte interativa do livro em que o envelope das cartas era colado na página do livro e com isso era possível remover a carta do envelope, que ficava desprendida do livro. É uma história interessante, vale a pena ler. Mas acho que o que mais gostava do livro era essa interação entre o papel e minha mão, livres para se sentirem. É poderoso segurar um livro, uma carta, não dá para substituir por uma tela de computador que nunca muda. Eu acho um tédio, pelo menos.
                Antigamente a troca de cartas com desconhecidos acontecia com mais frequência. Lembro-me de minha mãe contar que trocava cartas com um polonês quando era jovem. Conversavam em inglês sobre a vida e suas realidades. A dele era dura, pois sofria com a repressão comunista e ao mesmo tempo com crise do fim desse sistema. Por fim, ele propôs a minha mãe que se casassem. Por sorte, minha mãe não aceitou e se casou com meu pai (se não eu seria mais loirinha e estaria escrevendo em outra língua). Mas essa é uma outra história.
                Agora observo a mala onde guardo todas essas cartas. Um objeto antigo, cor de rosa, que me foi presentada por uma prima, há muitos anos atrás. Tudo isto estava jogado no fundo do meu armário, esquecido. Quantas coisas importantes são deixadas de lado. Mergulhei no tempo ao reler estas cartas e gostaria de agradecer a todos que participaram desta pequena experiência da minha infância. Gostaria de retomar este hábito, porém não sei se será possível. Mas uma coisa toda essa comunicação deixou para trás, não há sensação melhor do que ver uma cartinha no chão próxima à porta esperando para ser lida. Melhor ainda é quando o remetente é alguém especial. É uma surpresa muito gostosa. Todo o processo de abrir a carta, lê-la, relê-la é um encontro com o correspondente muito particular. É uma forma de interação distante, mas próxima.  Termino aqui com saudades do que já passou, mas feliz de ter experimentado estas sensações mesmo que por pouco tempo. Vivi uma pequena era das cartas muito mágica.