MEDO
Sentir medo é uma sensação
bizarra. Começamos a suar, nosso coração dispara, ficamos com os músculos
contraídos, atentos, tensos, buscando na realidade o menor sinal para agirmos.
Somos o mais cautelosos que conseguimos, apesar de isso nem sempre dar certo.
O medo tem uma função biológica de proteção
muito importante, pois ele deixa os animais em estado de alerta o suficiente
para lutarem pela sua vida diante de algum sinal de ameaça. Medo significaria
assim, a nossa reação ao perigo contra a vida. Mas nós, seres humanos,
complexos que somos, já arrumamos outras formas de sentir medo. Não precisamos
de uma ameaça concreta para nos sentirmos dentro dessa sensação, profunda e
difícil de aguentar que só ela.Cada qual com o seu medo, respeitemos. Acontecem
em proporções diferentes e de formas muito peculiares. É nessa hora que nos
sentimos indefesos e mais mortais do que nunca. Não temos controle sobre a
situação e isso nos enlouquece.
Sempre gostei de dormir no
escuro, mas já devaneei bastante a noite com medo, amedrontada pela falta de
certeza do que estava em volta de mim. Às vezes achava que alguém entrara na
minha casa, por ouvir barulhos estranhos, latidos do meu cachorro inesperados,
ventanias uivantes que faziam a vidro da janela tremer. Nunca era nada, ainda
bem, mas nessas situações me via paralisada, muito tensa, até enjoada. Ficava
imóvel, com a escuta aguçada para qualquer sinal de perigo. Parece bobagem
falar, mas acontece. É como se ficássemos em um extremo muito tênue prontos
para o que vier, mas desesperados por estar nessa situação. A sensação mal cabe
dentro de nós, devo dizer.
Lembro-me de quando era mais
nova, quando meus pais saíam e eu ficava sozinha em casa, sempre sentia uma
pontinha de medo da incerteza de tudo que poderia estar acontecendo no meu
apartamento. Enfrentava essa situação andando pela casa para garantir que não
existia nenhuma alma perambulando por lá, viva ou morta. Às vezes gritava para
sentir de uma vez o medo inerente a esses dias e aumentar a minha coragem para enfrenta-lo.
Gritar é uma certa forma de descarregar essa sensação, essa tensão. Eu sentia
menos medo depois disso e mais coragem. Cada doido com sua mania.
O engraçado é que somos, muitas
vezes, obrigados a enfrentar essas situações, essa experiência é uma espécie de
fazer força dentro de si mesmo, obrigar-se a uma ação. Não tem coisa mais difícil do que isso, mas
tem de ser feito. Nem sempre escolhemos enfrentá-la e às vezes esse medo é
tamanho, tão profundo que vira pânico. O estranho é que essa sensação de pânico
pode vir na cabeça e tomar conta de nós. Imaginamos as piores tragédias,
conosco e com os outros. Mas isso não precisa acontecer necessariamente como em
um filme de terror, quem sente medo de algo que os demais normalmente não
sentem deve saber do que estou falando. É difícil ainda ver tanta tragédia na
televisão ( eu esperava mais do jornalismo , francamente) e não deixar a
imaginação tomar conta. Ele pode ser saudável muitas vezes, mas nem sempre
trabalha a nosso favor. Pode se transformar em uma voz mandona e decidida que
vai aonde quer. E nos leva junto. Às vezes é difícil escapar e existem aqueles
que não conseguem.
Sei que estou discutindo sobre um
assunto que não é tão agradável, mas aprendi escrevendo a não ter
"medo" do que sinto. Sentir qualquer sensação virou motivo para reflexão
através da escrita. Sentir medo é parte de nós como humanos e não conheço
alguém que nunca o sinta. Se não sentisse não era humano. Nunca gostei de
sentir medo, por isso sempre evitei filmes de terror, prefiro deixar essa
sensação de tensão para quando ela tiver que existir.
Independente disso, busco aqui
causar alguma sensação sobre meus leitores, se causar já me darei por
satisfeita. Sentir é mais importante do que entender, e vez ou outra
experimentar novas sensações nos mostra mais da vida. Seres racionais? Balela,
a maior parte do tempo somos muito irracionais, emoção pura. Sempre soube que
não havia perigo em minha casa, mas sentia medo mesmo assim. Não dava para
controlar. E nesses momentos me perguntava sobre minha vida, sobre a vida e a magnitude
da mesma, vivia muitas sensações poderosas. Testava minha vida dentro de mim. E
ainda estava preparada para qualquer monstro que resolvesse fazer uma visita.
Ou pelo menos estava da forma mais cautelosa o possível.
Ser sentimental não é ruim, esse
discurso também está equivocado. Os sentimentos, ruins ou bons, deliciosos ou
insuportáveis movem mundos. Sem medo não correríamos, não perceberíamos o
quanto é importante viver e lutar pela nossa vida. Sem sofrer não amadureceríamos
e não nos apoiaríamos. Sem conflito, raiva, indignação há menos motivação para
melhorar, mudar, metamorfosear. Sem amor, não tem graça viver com o outro. Sem afeto
não há amizade que se sacrifique por outra. Sem paixão por uma causa, não há
solidariedade. Sem lágrimas, não há pedido desculpas, abraços, reconciliações.
Sem saudades, não há reencontro, não há reconhecimento da falta que alguém pode
fazer.
Acho que no final das contas
sentir medo significa que somos humanos e nada mais do que isso. Se o perigo
vai vir ou não, não posso dizer. Espero que não, mas nós mundanos somos mais
corajosos do que pensamos, pois viver é um risco mortal. Aguentar isso merece um
banho de emoções para comemorar. Lembrança sem sentimento é registro de
dicionário. Encarar isso e sobreviver é sensação maravilhosa. É sensação de
estar vivo, de vida, e de conquista. O futuro é incerto, o perigo existe, mas
nós sentimos, amamos, odiamos e nos transformamos em humanos. Para mim não há
nada de mais interessante nesse mundo. Observar as milhões de formas que cada
um lida com a realidade me fascina. Olhar para dentro de mim também é um tanto
quanto difícil, mas desmistifica a lupa da realidade. Na verdade, só um pouco.
Parte do meu fascínio é não ter como explicar a nossa condição de humanos...Sempre
surpreendentes, sempre se superando, brilhantes e fascinantes.