quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Mil Vidas

Talvez agora, diante de uma nova oportunidade e de uma nova possibilidade de me apaixonar pelo que pretendo fazer, seja o momento de voltar a escrever. Nem acredito que talvez as coisas possam dar certo, ou não, mas gosto de acreditar que sim. E como não comemorar este momento fazendo o que mais gosto? Hoje sentei animada e motivada em frente ao computador, sentimentos que não sentia fazia muito tempo. O trabalho pode nos absorver completamente, quem sabe, inibir qualquer que seja a nossa fonte de inspiração. Nesse meio tempo de novas possibilidades ainda não concretizadas, um turbilhão de ideias passou pela minha cabeça, algumas criativas, outras não, mas é assim que as coisas novas se iniciam afinal. Por que não incentivar as pessoas a lerem, a se aventurarem pelas tantas vidas que são possíveis, a partir do que eu vejo lendo? Outro dia, caminhando por Lavras Novas em uma deliciosa viagem com meu amor, entrei em uma livraria bastante interessante. Não sei se posso assim chamá-la, já que não vendia livros propriamente, mas era um espaço com uma bela decoração onde se podia trocar os livros que se estava lendo com algum livro da proprietária, claro, se ela se interessasse pelo seu e você pelo dela. Perdi-me por aquele pedacinho de porta do céu, com uma decoração semelhante do que penso ser um lugar ideal para se ler. Livros em prateleiras nada tradicionais, muitas cores, e frases maravilhosas escritas nos moveis que ali se situavam. Uma frase que chamou a minha atenção segue: “ Un lector vive mil vidas antes de morir, el que no lee, solo vive una”. Foi como se aquelas palavras fossem extraídas da minha boca, do meu coração. Sinto-me assim toda vez que leio um livro. Conversei muito com Cintia, uma Moça curiosa, de coração aberto e com história de vida bastante interessante. A partir disso, a vontade já acesa dentro do meu corpo, virou uma ordem, um desejo, um objetivo de vida. Lembrei-me do livro que acabara de ler, que se chama “O Banqueiro dos Pobres”, que conta a historia de Muhammad Yunus, um economista de Bangladesh que parece não ver limite para o que acredita. Este nobre homem foi capaz de peitar um sistema de exploração que acontece da mesma forma em todo o mundo, de olhar nos olhos malignos da pobreza e de desconstruir o sistema elitizado com que os bancos eram (são) criados, ou seja, que segregam os pobres. Foi capaz de criticar as políticas assistencialistas e demonstrar o mal que elas fazem para o espírito empreendedor que cada um que garante a sua sobrevivência é capaz de ter. A pobreza é talvez a mais antiga das cóleras que alastra o mundo, e mesmo pisando na lua, ainda não fomos capaz de acabar com ela. Na verdade, acredito que não seja um problema de capacidade, mas sim de negligencia, de descaso e comodismo. Lembrei-me tanto dos catadores de papel, objetivo maior do meu ultimo emprego como consultora, onde o que buscávamos através de projetos era a sua ascensão, o seu protagonismo, o rompimentos com os exploradores atravessadores, para que pudessem ser reconhecidos por todos como trabalhadores cuja atividade preserva o mundo, no sentido econômico, ambiental e social. Eu pude ver as palavras do Muhammad nesta realidade ainda pouco desnudada. Parêntesis, recomendo o documentário “ Aterro” de Marcelo Reis, para aqueles que gostariam de conhecer as poderosas catadoras que trabalhavam no antigo lixão de Belo Horizonte, e como foram guerreiras, capazes de vencer na vida, reciclando. São verdadeiras artistas, o filme vale a pena. Parabéns ao diretor que compreendeu bem o que a realidade parece ser, pelo menos ao meus olhos também. Injusta. Por fim, falei de muita coisa, mas não falei do que queria falar. é claro que a minha causa nem chega aos pés daquilo que Muhhamad Yunus fez, mas talvez o meu sonho seja de que todos os brasileiros se apropriem da literatura e da leitura, como uma forma de libertação. Educar é libertar, como já disse Frei Beto. E assim possam essas tantas histórias e realidades, que nada são mais do que o retrato do humano, de si mesmos, fazer com que todos queiram mudar o mundo alguma forma positiva, que seja como uma forma de melhorarem a si mesmos. Fica aqui, talvez, o início de uma história.