Pedrinho
Estou prestes a acabar um livro e,
quando isso acontece, fico mais emotiva, sei lá, mais emocionada. O final
está triste e agora sinto toda aquela melancolia gostosa que um punhado de
sentimentos e uma boa história me proporcionam. Acho que um bom livro tem que
esse efeito sobre mim. Enfim, essa sensação me obrigou a tirar um tempo
da minha vida mal organizada para voltar a escrever.
Isso me fez pensar em como escolho um
tema para escrever. Mas na verdade os temas é que se escolhem, saltam sobre
meus olhos e não me dão opção. Não é um processo democrático. Nos dias em que
não sei sobre o que escrever, deixo minhas mãos me guiarem sozinha, mas na
verdade elas falam dos meus sentimentos. Acho que estou aprendendo a me
reconhecer na escrita e transpor o que sinto.
Enfim, outro dia, depois de um ótimo
almoço em um restaurante indiano aqui de Bh (tanto falo desse restaurante,
chama-se Namastê), parei em um sinal de trânsito. Momento este em que os meus pensamentos
vão longe, principalmente quando estou sozinha, penso nas coisas mais
mirabolantes possíveis. No meio dessa corrente confusa de ideias, deparei-me
com um dos salões especializados em corte de cabelo para crianças, chamado
“Pedrinho”. Acho que aqui em Belo Horizonte a maioria das pessoas da minha
idade de classe média o frequentaram quando crianças.
Sua estrutura, sem muita
complexidade, é feita para crianças. As cadeiras, onde os condenados a perder
suas madeixas se assentam, são carrinhos dos mais variados possível. Ao final
do corte, momento entediante para muitas crianças, ganha-se um pirulito. Uma
recompensa para a boa criança que ficou quietinha. Bom, pelo menos na minha
época era assim que funcionava. Fui pesquisar como anda o salão hoje e vi fotos
e mais fotos de crianças assistindo televisão a um metro da cadeirinha,
vidrados pelas historinhas televisionadas. As coisas mudaram. Se bem que outro
dia, conversando com um amigo querido, descobri que a TV e o vídeo game já se
faziam presentes naquela época. Quanta ingenuidade a minha.
Já estava indignada com as crianças
de hoje que não sabem usar a imaginação, mas acho que estou equivocada. O fato
é que naquela época o espelho que refletia a minha transformação capilar
durante uma corrida automobilística (simulada na minha cabeça) era um motivo de
diversão. Pelo menos até onde me lembro, posso estar enganada. Descobri também
que o Pedrinho não é apenas um nome aleatório comercial, é também uma pessoa
que se chama Pedro Máximo, que foi quem fundou a rede de salões (é uma rede de
quatro lojas). Foi essa a informação que consegui no site, no dia da história
do sinal não deu tempo de descer e entrevistar os funcionários. Talvez minha
escrita ficasse mais interessante. Vai saber...
Esse nome Pedrinho é engraçado, todo
mundo já teve um vizinho, um colega de escola ou um primo que chama Pedrinho.
Eu tive um salão de beleza e um amigo (mas não chamo ele de Pedrinho). Resolvi fazer
uma pesquisa rápida na internet sobre a origem do nome e seu significado. Não
sei se posso confiar em todos os sites que li, mas eles repetiram alguns pontos
acerca desse nome.
Pedro é um nome de origem grega, Pétros,
que significa pedra. Na bíblia, São
Pedro foi um dos apóstolos de Jesus e foi sobre essa pedra, rocha, que se
edificou a igreja romana, fundada por ele e São Paulo. É um dos nomes
mais difundidos em todos os idiomas e, de acordo com o que li, significa uma
pessoa simples, mas que procura realização pessoal. Interessante relacionar o
significado pedra com esse nome e transpô-lo a ideia do Pedrinho, pedrinha. Ser
forte como uma pedra significa simplicidade e realização pessoal? É uma forma
interessante de se pensar.
Pedrinho (salão) me proporcionou
realização capilar, mas de fato é uma pessoa bem sucedida, pois sua rede
perdura até hoje. Tanto pensei em Pedros que lembrei de outros, como Pedro I,
Pedro II, Pedro Almodóvar, Pedro Bandeira, Pedro Bial (desculpem-me, queria
falar só nomes de quem admiro, mas lembrei desse aí também) e claro o Pedrinho,
do sítio do Pica Pau Amarelo, jovem aventureiro. E fico pensando em alguma
relação cósmica entre eles. São muitas características para condensar, trabalho
árduo.
Outro dia li em um artigo na revista
Serrote que o nome é uma espécie de vestimenta. Essa vestimenta tão comum,
chamada Pedro, poderia indicar alguma coisa? É
interessante pensar que os nomes possam exercer alguma influência sobre o nosso
futuro, mas penso que, antes disso, é muito importante ter um nome para se
apresentar ao mundo. O nome é o conglomerado da nossa identidade e é a chamada
por quem as pessoas que conhecemos vão nos lembrar. Ou seja, é apresentação e
memória ao mesmo tempo, presente e passado. Sofre mutações com os apelidos, mas
se faz importante na sua origem. E mais do que isso, penso que não há nome
bonito, o dono do mesmo sempre o transforma em uma ideia nova. Ou o nome
transforma a pessoa? Vixi...
(E as Deborahs? Quem serão? Melhor
não cutucar nesse ponto não, rs, hoje já tenho análise ...)
Bom, todo este processo de reflexão
mirabolante foi iniciado pelo meu antigo salão de beleza proporcionado por
Pedro. Acho que a diversão criada nesse salão se fez importante o suficiente
para me gerar uma lembrança (e um texto). O fato é que o mundo visto por uma
criança é de fato peculiar. E nisso,
o salão do “Pedrinho” tem de sobra, milhares de pequenos olhares sobre o mundo.
É uma mina de ouro. Penso que escrever talvez seja um pouco isso, ser maduro o
suficiente para reavaliar o mundo de uma maneira curiosa, assim como uma
criança. Talvez seja conseguir fazer esse movimento, quase impossível, de
reviver. Mas não só reviver na lembrança, reviver no olhar, na interpretação,
na curiosidade e na abertura para abraçar o mundo que só um coração infantil
tem.

