terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Tudo Sempre igual 

Hoje, depois de rever o Poderoso Chefão na ótima companhia de meu pai, voltei ao meu quarto para desarrumar a minha cama para dormir. Sempre fecho a janela primeiro e, ao fazê-lo, lembrei-me de um hábito que havia esquecido que estava habituada. Todas as noites, antes de dormir, no meu mágico ritual de fechar a janela do quarto, sempre paro um instante para cheirar a noite. Tudo envolve a observação dessa dama de vestido preto, que compõe a trivial vista da meu quarto, como brincos brilhantes como a lua. Tudo sempre igual, agora, com a trivialidade perturbada por um novo prédio, que me roubou o pôr do sol. 

 Subitamente, sou sempre surpreendida com o cheiro da noite, leve, mas denso e sempre delicioso. Trazido por uma bossa suave, que beija o meu rosto lentamente, e mexe os meus cabelos como um leve carinho que me faz cócegas. É como o cheiro de um bolo doce, que lembra carinhosamente uma avó. Da mesma forma, o odor da noite me lembra o passado, ou aquilo tudo que poderia ter sido. 

Lembra-me de conversas calmas ao luar, olhares sonhadores, ou novas possibilidades de diversão e memórias, o que sempre procurei nas noites frias ou quentes. A frase de Oscar Wilde nunca fez tanto sentido, “ Estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas”. Talvez seja isso mesmo. Eu gosto de olhar. E olho sempre. 

Ao deitar e seguir o meu ritual de leituras antes do sono, acho que estou ficando velha (sem envelhecer), pensei no que realmente o que importa na vida. Larguei a Piauí e uma interessante reportagem sobre Cuba, que me pareceu decadente aos olhos do escritor, e sobre Padura, autor do Homem que Amava os Cachorros, livro que já aguarda para ser lido por mim. Este homem é um dos únicos escritores que ainda ousa criticar a Cuba que tanto ama, e permanecer nela. Além desta revista, coloquei de lado também o livro que conta a história de Tristão e Isolda, lenda medieval de autor desconhecido. 

Minha conclusão sobre esta singela e, quem sabe boba, reflexão antes de dormir: penso que o que importa na vida são somente, e tão somente, as relações bem vividas, as viagens, os sorrisos, as noites e os livros. Claro, os livros, meu caso de amor. Termino com a frase Jules Renard que traduz o sentimento que levei para o mundo dos sonhos comigo neste dia, ou melhor, nesta noite: “ Quando penso em todos os livros que ainda posso ler, tenho a certeza de ser feliz.”

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Mil Vidas

Talvez agora, diante de uma nova oportunidade e de uma nova possibilidade de me apaixonar pelo que pretendo fazer, seja o momento de voltar a escrever. Nem acredito que talvez as coisas possam dar certo, ou não, mas gosto de acreditar que sim. E como não comemorar este momento fazendo o que mais gosto? Hoje sentei animada e motivada em frente ao computador, sentimentos que não sentia fazia muito tempo. O trabalho pode nos absorver completamente, quem sabe, inibir qualquer que seja a nossa fonte de inspiração. Nesse meio tempo de novas possibilidades ainda não concretizadas, um turbilhão de ideias passou pela minha cabeça, algumas criativas, outras não, mas é assim que as coisas novas se iniciam afinal. Por que não incentivar as pessoas a lerem, a se aventurarem pelas tantas vidas que são possíveis, a partir do que eu vejo lendo? Outro dia, caminhando por Lavras Novas em uma deliciosa viagem com meu amor, entrei em uma livraria bastante interessante. Não sei se posso assim chamá-la, já que não vendia livros propriamente, mas era um espaço com uma bela decoração onde se podia trocar os livros que se estava lendo com algum livro da proprietária, claro, se ela se interessasse pelo seu e você pelo dela. Perdi-me por aquele pedacinho de porta do céu, com uma decoração semelhante do que penso ser um lugar ideal para se ler. Livros em prateleiras nada tradicionais, muitas cores, e frases maravilhosas escritas nos moveis que ali se situavam. Uma frase que chamou a minha atenção segue: “ Un lector vive mil vidas antes de morir, el que no lee, solo vive una”. Foi como se aquelas palavras fossem extraídas da minha boca, do meu coração. Sinto-me assim toda vez que leio um livro. Conversei muito com Cintia, uma Moça curiosa, de coração aberto e com história de vida bastante interessante. A partir disso, a vontade já acesa dentro do meu corpo, virou uma ordem, um desejo, um objetivo de vida. Lembrei-me do livro que acabara de ler, que se chama “O Banqueiro dos Pobres”, que conta a historia de Muhammad Yunus, um economista de Bangladesh que parece não ver limite para o que acredita. Este nobre homem foi capaz de peitar um sistema de exploração que acontece da mesma forma em todo o mundo, de olhar nos olhos malignos da pobreza e de desconstruir o sistema elitizado com que os bancos eram (são) criados, ou seja, que segregam os pobres. Foi capaz de criticar as políticas assistencialistas e demonstrar o mal que elas fazem para o espírito empreendedor que cada um que garante a sua sobrevivência é capaz de ter. A pobreza é talvez a mais antiga das cóleras que alastra o mundo, e mesmo pisando na lua, ainda não fomos capaz de acabar com ela. Na verdade, acredito que não seja um problema de capacidade, mas sim de negligencia, de descaso e comodismo. Lembrei-me tanto dos catadores de papel, objetivo maior do meu ultimo emprego como consultora, onde o que buscávamos através de projetos era a sua ascensão, o seu protagonismo, o rompimentos com os exploradores atravessadores, para que pudessem ser reconhecidos por todos como trabalhadores cuja atividade preserva o mundo, no sentido econômico, ambiental e social. Eu pude ver as palavras do Muhammad nesta realidade ainda pouco desnudada. Parêntesis, recomendo o documentário “ Aterro” de Marcelo Reis, para aqueles que gostariam de conhecer as poderosas catadoras que trabalhavam no antigo lixão de Belo Horizonte, e como foram guerreiras, capazes de vencer na vida, reciclando. São verdadeiras artistas, o filme vale a pena. Parabéns ao diretor que compreendeu bem o que a realidade parece ser, pelo menos ao meus olhos também. Injusta. Por fim, falei de muita coisa, mas não falei do que queria falar. é claro que a minha causa nem chega aos pés daquilo que Muhhamad Yunus fez, mas talvez o meu sonho seja de que todos os brasileiros se apropriem da literatura e da leitura, como uma forma de libertação. Educar é libertar, como já disse Frei Beto. E assim possam essas tantas histórias e realidades, que nada são mais do que o retrato do humano, de si mesmos, fazer com que todos queiram mudar o mundo alguma forma positiva, que seja como uma forma de melhorarem a si mesmos. Fica aqui, talvez, o início de uma história.