segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Jequitinhonha e Coleta Seletiva

Estou eu aqui no meu quartinho de hotel, em Jequitinhonha, convivendo com um inseto que quero chamar de grilo, mas tenho certeza de que não é um (desculpem meus queridos biólogos, insetos não são meu forte), tentando estabelecer um procedimento de convivência pacífico com ele. Ele lá eu cá. Ando pensando também, em tudo que vivi nesses últimos dias. Essa não é a primeira vez que venho nessa terra de gente simpática e simples, onde o céu parece mais próximo do que a própria terra. Aqui, o entardecer me transmite uma profundidade envolvente, embriagante, contornado pelas montanhas coloridas e pelos ipês, amarelos como gemas de ovos. Talvez sejam essas terras a minha inspiração para voltar a escrever, embora o escritor amante nunca o pare de fazê-lo, pois tem a mente como uma bela página em branco. Muitos caminhos me trouxeram ao Vale do Jequitinhonha no passado. A visita aos prefeitos de 16 municípios do Baixo Jequitinhonha,os seminários, o acompanhamento do trabalho, as estradas de terra, as montanhas tão simpáticas, a calma da zona rural (quase o nada), as estradas que passam literalmente por cima das rochas e as casas perdidas no meio do vale. Um cenário realmente fotográfico, onde se pode observar os trabalhadores tranquilos cuidarem de sua subsistência, ao som do vento, em um cenário indescritível. As montanhas e o canto do vento, somente. O estigma da pobreza chega a ser injusto diante da beleza desse povo, dessa cultura, transmitidos em toda a beleza natural que pode ser observada por estas terras. Pois bem, a minha missão por aqui é fruto de um trabalho que vem sendo feito desde o ano passado e que será culminado com a implantação da coleta seletiva em grande festa que acontecerá em duas semanas. Esta atividade parece a mim, de fato, uma experiência bastante interessante. Observar o mundo mineiro sobre diversas óticas, distintas e peculiares, conhecendo os municípios que juntos compõe o estado que tanto amo. Talvez seja a minha oportunidade de chegar mais perto dessa inatingível realidade que é o mundo. Aqui estive com os catadores, atores principais de toda essa história, que começaram a dar seu sangue há mais ou menos 60 anos atrás, dando início à verdadeira coleta seletiva no Brasil. Hoje, já reconhecidos pela sua profissão pela Classificação Brasileira de Ocupações, ainda trabalham em muitos municípios em lixões, nas ruas, invisíveis. Aprendi a enxerga-los, a escutá-los a adorá-los. Aqui em Jequitinhonha demos início à mudança da história de alguns dos catadores, junto a outros companheiros. Foi contagiante ouvir a história de vida do Seu Davi, que cata há 23 anos e me disse que sua profissão é um caso sério, que não gosta de "bestar", trabalha até domingo. Agora enfim, este senhor muito forte e trabalhador terá o seu esforço reconhecido. O meio ambiente agradece também. Temos trabalhado nos últimos dias para garantir que tudo aconteça: o caminhão esteja pronto para começar, a associação de catadores esteja estruturada, os cidadãos informados e mobilizados. Foi interessante e estranho ao mesmo tempo voltar às salas de aula e observar, em um passado próximo na minha memória, aqueles jovens, desatentos e muito atentos ao mesmo tempo me questionando e prontos para fazerem a mobilização de rua, passando de porta a porta para preparar os moradores do presente município para a coleta seletiva. No dia do lançamento será feito um cortejo, em que um grupo de teatro local, com toda sua arte, acompanhará 800 alunos caracterizados com as cores da coleta seletiva (vermelho, azul, verde e amarelo), junto ao caminhão até o local da festa. Talvez isso pareça um programa de índio para alguns dos meus leitores, mas para mim e para esta pequena cidade é um grande passo. É a primeira de toda a região a ter o serviço de coleta seletiva. Antes de ir embora, repenso o quanto essa terra é forte e sofrida. Na sala de espera para uma reunião, ouvi um secretário dizer que a zona rural está totalmente sem água e que se preparava para declarar situação de calamidade pública. Foi pesado ouvir e lembrar que ainda estamos longe de qualquer coisa como a justiça e igualdade. As pessoas ainda ficam sem água e é complicado entender isso, olhando para o meu Iphone, que faz quase tudo, mas nao brota água. Pela manhã com a brisa morna na minha cara vi o rio Jequitinhonha exibir pedras e barcos ao mesmo tempo, seco e abandonado. Os rios não deveriam ser cobertos e sujos como fazemos em várias cidades brasileiras, deveriam ser valorizados, livres para exibirem a sua beleza e revigorar a força de um povo desigual. Sinto que tudo faz sentido se existem pessoas envolvidas e que acreditam em alguma coisa melhor. Quem sabe este é o começo.Quem sabe esta é uma marca minha em um lugar qualquer, lugar único, Jequitinhonha.