Punição e Educação
Recentemente
li em um livro de Michel Foucault chamado “Vigiar e Punir” sobre uma máquina a
vapor que promovia a rápida correção de meninas e meninos desviantes. Aquela
era direcionada às crianças preguiçosas, gulosas, indóceis, desobedientes,
briguentas, mexeriqueiras, faladoras, sem religião ou que tenham qualquer outro
defeito. Esta fantástica máquina e
ideias que colhi do livro de Foucault me fizeram pensar sobre a punição. Até
porque se formos punidos cada vez que aqueles adjetivos se referirem a nós o
“trem vai ficar feio”. Pelo menos posso falar de mim. Sou humana 24 horas por
dia, e nessas horas sempre carrego comigo alguma característica “desviante”.
A
ideologia da punição por vezes me parece um tanto quanto patética. A verdade é
que ensinar é muito mais eficaz do que punir, além disso, é também muito mais
nobre. Na ausência do elemento punitivo o sujeito pode voltar a repetir o ato,
mas com o ensinamento a mudança ocorre espontaneamente por mera crença em uma
ideia. Não quero começar a filosofar sobre certo e errado, porque essa
discussão é longa, mas o fato de existir um errado legitima a punição e
preconceito.
Quando
eu era criança meu irmão, em situações em que meus pais reprovavam algum tipo
de comportamento meu, fazia-se de general e pedia 5 minutos sozinho comigo para
que pudesse aplicar suas própria metodologia de correção. “5 minutos com ela e
eu resolvo tudo!”- dizia ele. De acordo
com minha mãe eu , com olhos assustados, olhava pra ela com cara de medo,
pensando se dessa vez eles iam ceder ou não. Não cediam é claro, mas eu ficava
apavorada. Por vezes eu tive medo do meu irmão, saga de toda irmã mais nova,
mas assim como acontece na maioria das vezes, o tempo nos presenteou com maturidade e nossa
relação foi construída em cima de sentimentos bons e apoio mútuo. Falarei mais
do meu querido irmão depois, hoje o assunto é outro.
Voltando
ao raciocínio da punição. Ao se pensar mais profundamente sobre o papel do
estado como punidor, o que ele ensina? Será que é preciso ter medo de algo para não se fazer? Acho que não.
Essa relação não vem só do estado, ela pode ser personificada também nos pais
que punem um filho ou até na igreja que abomina os pecadores. Porque se for
preciso temer as trevas para ter que amar ao próximo, tem algo de errado nessa
ideologia toda. É o medo da punição que tem que conduzir nossas escolhas, ou a
busca pelo que acreditamos e consideramos certo?
Eu sei que o estado deve zelar pelo bem da
maioria, e não pode esperar “sentado” que todos mudem. Mas pra mim ele tem que
servir de exemplo também. E não acho que isso tem acontecido. Não tenho todas
as respostas para essa crítica e deixo o espaço aberto para sugestões, mas o
fato é que nunca vi a punição como algo bom. Em contrapartida, o exemplo de
ícones em que me espelhava sempre influenciou meu comportamento de maneira
muito mais intensa do que o medo. As conversas que não viravam brigas me faziam
pensar muito mais do que palmadas no bumbum. Estas só me geravam raiva e mais
revolta. Não que eu tenho sofrido com isso na minha infância, mas o ponto que
quero chegar é que violência gera violência. E não só violência física. A
violência psicológica e humana é mais profunda, mais dolorosa. Ela gera ódio e
revolta.
Antigamente
a punição judicial era estritamente corporal. Os suplícios eram feitos em praça
pública e contavam com métodos de tortura que representavam o poder do sistema
penal. Ou seja, a forma como a punição é feita representa a relação de poder
por trás dela. Então, o tipo de punição hoje também representa o poder, de quem
está no poder, certo?
Ai você
pensa como quem está nas cadeias, em quem apanha quando faz algo errado, no
louco que fica em manicômios e em quem não atende ao padrão do que é imposto
socialmente deve sentir. Mais raiva que reflexão, mais revolta do que educação.
A punição do estado não é educativa, em minha opinião. Ela reflete a forma como
a sociedade é construída e por isso não é totalmente neutra. Quem fica preso
mesmo? Os
ricos? Brancos?Poucos.
Atualmente
estudo em uma matéria de Política e Pesquisa que põe em questão os saberes como
posicionados, ou seja, chama atenção para o fato de que eles nunca são neutros.
Que as posições que escolhemos, por mais neutras que pareçam, representam uma relação
de poder. Isso é válido também para os posicionamentos que são considerados
legítimos, como a justiça, a lei, os costumes, os valores e até a moral. Eles
vêm de algum posicionamento. Acho que é hora de nos questionarmos qual é o
posicionamento do sistema punitivo e aonde ele quer chegar. Não o vejo como
educativo e muito menos como instrumento de reinserção social.
Desculpem se não dei respostas para todas as questões que levantei. É que minhas ideias ainda estão em metamorfose. Todos os dias algo em mim muda de ideia e me constrói aos pouquinhos. Logo depois, começo a perambular por aí...

