quarta-feira, 25 de abril de 2012


Punição e Educação

Recentemente li em um livro de Michel Foucault chamado “Vigiar e Punir” sobre uma máquina a vapor que promovia a rápida correção de meninas e meninos desviantes. Aquela era direcionada às crianças preguiçosas, gulosas, indóceis, desobedientes, briguentas, mexeriqueiras, faladoras, sem religião ou que tenham qualquer outro defeito.  Esta fantástica máquina e ideias que colhi do livro de Foucault me fizeram pensar sobre a punição. Até porque se formos punidos cada vez que aqueles adjetivos se referirem a nós o “trem vai ficar feio”. Pelo menos posso falar de mim. Sou humana 24 horas por dia, e nessas horas sempre carrego comigo alguma característica “desviante”.
A ideologia da punição por vezes me parece um tanto quanto patética. A verdade é que ensinar é muito mais eficaz do que punir, além disso, é também muito mais nobre. Na ausência do elemento punitivo o sujeito pode voltar a repetir o ato, mas com o ensinamento a mudança ocorre espontaneamente por mera crença em uma ideia. Não quero começar a filosofar sobre certo e errado, porque essa discussão é longa, mas o fato de existir um errado legitima a punição e preconceito.
Quando eu era criança meu irmão, em situações em que meus pais reprovavam algum tipo de comportamento meu, fazia-se de general e pedia 5 minutos sozinho comigo para que pudesse aplicar suas própria metodologia de correção. “5 minutos com ela e eu resolvo tudo!”- dizia ele.  De acordo com minha mãe eu , com olhos assustados, olhava pra ela com cara de medo, pensando se dessa vez eles iam ceder ou não. Não cediam é claro, mas eu ficava apavorada. Por vezes eu tive medo do meu irmão, saga de toda irmã mais nova, mas assim como acontece na maioria das vezes,  o tempo nos presenteou com maturidade e nossa relação foi construída em cima de sentimentos bons e apoio mútuo. Falarei mais do meu querido irmão depois, hoje o assunto é outro.
Voltando ao raciocínio da punição. Ao se pensar mais profundamente sobre o papel do estado como punidor, o que ele ensina? Será que é preciso ter medo de algo para não se fazer? Acho que não. Essa relação não vem só do estado, ela pode ser personificada também nos pais que punem um filho ou até na igreja que abomina os pecadores. Porque se for preciso temer as trevas para ter que amar ao próximo, tem algo de errado nessa ideologia toda. É o medo da punição que tem que conduzir nossas escolhas, ou a busca pelo que acreditamos e consideramos certo?
Eu sei que o estado deve zelar pelo bem da maioria, e não pode esperar “sentado” que todos mudem. Mas pra mim ele tem que servir de exemplo também. E não acho que isso tem acontecido. Não tenho todas as respostas para essa crítica e deixo o espaço aberto para sugestões, mas o fato é que nunca vi a punição como algo bom. Em contrapartida, o exemplo de ícones em que me espelhava sempre influenciou meu comportamento de maneira muito mais intensa do que o medo. As conversas que não viravam brigas me faziam pensar muito mais do que palmadas no bumbum. Estas só me geravam raiva e mais revolta. Não que eu tenho sofrido com isso na minha infância, mas o ponto que quero chegar é que violência gera violência. E não só violência física. A violência psicológica e humana é mais profunda, mais dolorosa. Ela gera ódio e revolta.
Antigamente a punição judicial era estritamente corporal. Os suplícios eram feitos em praça pública e contavam com métodos de tortura que representavam o poder do sistema penal. Ou seja, a forma como a punição é feita representa a relação de poder por trás dela. Então, o tipo de punição hoje também representa o poder, de quem está no poder, certo?
Ai você pensa como quem está nas cadeias, em quem apanha quando faz algo errado, no louco que fica em manicômios e em quem não atende ao padrão do que é imposto socialmente deve sentir. Mais raiva que reflexão, mais revolta do que educação. A punição do estado não é educativa, em minha opinião. Ela reflete a forma como a sociedade é construída e por isso não é totalmente neutra. Quem fica preso mesmo? Os ricos? Brancos?Poucos.
Atualmente estudo em uma matéria de Política e Pesquisa que põe em questão os saberes como posicionados, ou seja, chama atenção para o fato de que eles nunca são neutros. Que as posições que escolhemos, por mais neutras que pareçam, representam uma relação de poder. Isso é válido também para os posicionamentos que são considerados legítimos, como a justiça, a lei, os costumes, os valores e até a moral. Eles vêm de algum posicionamento. Acho que é hora de nos questionarmos qual é o posicionamento do sistema punitivo e aonde ele quer chegar. Não o vejo como educativo e muito menos como instrumento de reinserção social.
Desculpem se não dei respostas para todas as questões que levantei. É que minhas ideias ainda estão em metamorfose. Todos os dias algo em mim muda de ideia e me constrói aos pouquinhos. Logo depois, começo a perambular por aí... 


segunda-feira, 23 de abril de 2012


                                 
FALEI DE TUDO E NÃO FALEI DE NADA

Hoje eu pretendia escrever sobre Paris, queria fazer uma homenagem a esta linda cidade por onde viajei, mas a verdade é que estou triste demais para isso. Quando estou assim fico com a sensibilidade aflorada. Acabei de ler em um livro uma coisa linda. Falava do mar como um elo que unia corações em momentos de separação.
Achei bonito, pois o mar é de fato um elo. Um elo lindo, só para constatar. Agora penso nos amigos que fiz quando morei fora e penso no mar como nosso elo. Mesmo que o país que alguns moram não encontre o mar, um oceano separa nosso contato. Ou liga. É tudo uma questão de interpretação. Pensar no mar como um encontro e não como uma distância consola as minhas saudades.
Toda essa conversa me fez lembrar de uma exposição de fotografias de pontes que fui em Avignon no sul da França. A exposição se situava também em uma ponte chamada Ponte Saint Benezet* e englobava fotos de pontes do mundo todo (vide as fotos abaixo). As pontes eram todas muito lindas, já havia até visitado algumas (é sempre bom se identificar no novo), era tudo muito interessante.
Junto com as fotos expunha-se também a ideia da ponte não só como uma ligação entre dois pedaços de terra, mas também como um local que permite o encontro de pessoas. Fiquei sensibilizada com essa imagem da ponte. Assim como o mar, também liga corações, também é um elo para os saudosos amigos, familiares, românticos e por aí vai. Quem já sentiu saudades sabe como o reencontro é bom. Ele guarda uma energia exclusiva que consola a desolação da separação.
Perambular pelo mundo implica em deixar para trás os lugares visitados, as pessoas conhecidas, as experiências vividas. Mas na verdade é isso mais ou menos porque depois de ir embora a gente carrega tudo a que me referi antes junto com a gente. A sociedade se escraviza por dinheiro, mas aquele é um bem muito mais valioso do que este. As memórias, as lembranças e os pensamentos não existem concretamente, mas sua experiência é real, forte e imponente. O que não existe de verdade influência mais a gente do que o que existe concretamente. A religião, o poder e o status não me deixam mentir.
Escritos confusos esses, falei um pouco de tudo e no final não falei de nada. Aliviei o coração, lembrei-me do passado e apesar de não falar de Paris, falei da França.  Hoje era só isso que tinha para dizer e mais nada.

*Esta ponte fica sobre o rio Rhône, sua fama vem da menção feita a ela em uma canção infantil francesa que se chama Sur le pont d’Avignon. Dos seus originais 22 arcos restaram-se 4, os outros foram destruídos por enchentes do rio que a atravessa. Quem se interessar mais pela história da ponte e pela cidade de Avignon (que é linda) onde fica o Palácio do Papa, deve entrar no site da cidade: http://www.palais-des-papes.com/anglais/index.html. A história da ponte fica no final da página à esquerda

domingo, 22 de abril de 2012


                                                                 Quem não teve infância?


Cansei de ver meus pais e avós falando que criança que brinca em prédio e não na rua não teve infância de verdade. Que o enclausuramento decorrente do aumento da violência (quem está preso mesmo?) faz com que as crianças fiquem em casa, fechadas, brincando com seus vídeo games ao invés de correr nas ruas e usar a imaginação para criar monstros, castelos, guerras, no limits.
Venho aqui quebrar esta teoria tão difundida. Eu tive infância. Morei em apartamento, brinquei no P e nunca joguei vídeo game. A imaginação também funciona dentro de quatro paredes, dentro de grades e até dentro dos sonhos. Tive a sorte de cruzar com pessoas que compartilharam dela comigo, sem limites.
Faço aqui uma homenagem à querida Tita que trabalhou na minha casa quando eu era criança. Ela sim não tinha limites para a imaginação. Hoje estava na casa da minha avó (onde ela trabalha atualmente) e começamos a conversar sobre minha infância. Ela me fez lembrar dos memoráveis “banheirões” que fazíamos no banheiro do meu antigo apartamento.
Ela permitia o proibido.  Podíamos encher a banheira até que a mesma transbordasse e todo o banheiro virava uma piscina. Porque não é preciso o objeto real para que a satisfação venha. É tudo uma questão de se permitir imaginar. Acho que essa é a melhor característica das crianças. Um quarto pode virar um castelo, uma boneca uma pessoa, uma banheira o oceano.
Eu e meu irmão escorregávamos no chão molhado, jogávamos água para cima, nadávamos como se o espaço fosse enorme. E não era, mas isso nunca foi impedimento para a diversão daquelas tardes. Os frutos dessa experiência são as lembranças, poderosas máquinas do tempo que servem de apoio para os dias difíceis e monótonos que o cotidiano nos impõe.
Já fui chamada de louca por conversar com as plantas, por falar sozinha, por fazer teatros, ler em voz alta e até gritar, por dar estrelas até machucar. Minha imaginação me obrigava a ser assim e é por isso que tive infância. Por vezes ainda me perco na minha própria imaginação e não quero perdê-la nunca. Ela da cor a vida, da infância a quem não pode ter, dá sentido à vida. 

Ps: A ilustração foi feita por Mateus Lima, baseado na leitura. O mesmo é dono de outros blogs como este: http://mateuserelima.blogspot.com.br/. Muito obrigada, Mateus, você captou bem o que eu sentia.

sexta-feira, 20 de abril de 2012



                                                        LIBERDADE

Atualmente participo de um estágio na APAC (Associação de Proteção e Assistência ao Condenado) onde atendo um recuperando.  Para quem não sabe a APAC é uma Entidade Civil de Direito Privado atuante nos presídios, que tem como metodologia a valorização humana e que visa oferecer ao condenado formas de se recuperar e retornar à vida social. O meu trabalho lá é de construir, junto com o recuperando que atendo, um livro que conte um pouco de sua história de vida.
Hoje, depois da profunda experiência que tive ao atendê-lo, sai desnorteada da sala onde tudo acontecera. É tudo muito intenso, muito real. Difícil mesmo de engolir. Milhões de pensamentos começaram a brotar na minha cabeça e aqui desejo transformá-los em palavras, texto e reflexão.
A sociedade vende o preso como um monstro. Mentira. Eles são como nós, eles fazem parte de nós. Nós somos eles, mas como nascemos em contextos diferentes, não ficamos sujeitos à mesma realidade. A verdade é que o ser-humano, em sua grande parte, é um ser fraco. Ele cede às tentações, ele cede às incertezas, ao medo que a realidade passa. Por isso, reage do jeito que dá.
Ao sair da sala, fiquei esperando a minha companheira de estágio para irmos embora juntas. Resolvi aguardá-la na recepção onde não tinha ninguém e onde eu permaneceria presa. Trancada. Olhando através das grades da Apac fiquei tentando imaginar a sensação de se estar preso. Obviamente que o que eu senti naquele momento não se compara a uma real experiência, mas ao pensar nisso, só consegui encontrar em mim uma angústia gigantesca. Angústia de animal castrado, preso, recluso. Pensei no que a liberdade representa. Ser livre é a melhor coisa do mundo, acho que esta é a palavra mais bela que já ouvi. Ela não implica em fazer o que quiser, mas implica ser o que quiser, sentir o que quiser, respirar fundo e apreender o nosso eu interior. Eu mirava do portão a paisagem que se encontra em frente ao prédio e só pensava como queria poder ir ali, até ali que fosse. Mas ir se quisesse. Isso é ser livre, palavra e poesia ao mesmo tempo. Eu amo a liberdade.
Refleti então sobre a ideia de que quem faz algo para ser preso é punido, principalmente, através da perda da liberdade. Perde o respeito da sociedade, vira um estereótipo e muitas vezes não é aceito de volta. Corrijo, nunca é aceito de volta. Ninguém lembra que aquele ser vivo, da nossa espécie, que sente igual a gente, que pagou pelo que fez em condições sub humanas  tem o direito de voltar para a vida social. Ninguém se lembra disso, nem o governo, muitos menos os cidadãos ocupados em cuidar do próprio umbigo e da própria carteira. É muito mais fácil unir essas pessoas marginalizadas às categorias da nossa cognição que eliminam os mesmos das nossas preocupações.
Vale a pena? Esse tipo de punição funciona? Porque até onde eu sei, no Brasil ele não muda nada. Ele ensina os condenados a odiar mais o mundo e a resolver as coisas do jeito que eles sabem. O sistema é tão precário que chega a ser ridículo, “dá raiva” mesmo. O resultado é uma experiência mágica que cria dragões, feras e monstros. Porque não tem jeito, quero ver se fosse com você, ou comigo.
Não estou negando os crimes cometidos, muito menos os aprovando. Mas uma vez li que quando não é possível mudar a situação em si é possível ainda mudar a nossa posição diante dela. Nós como sociedade estamos proporcionando o melhor para formar cidadãos honestos que busquem meios legais de viver? Acho que essa pergunta nem precisa de resposta. Está óbvio, cidadão brasileiro, que não! E disso ninguém lembra na hora de julgar o criminoso.  Não podemos controlar o comportamento, nem os pensamentos que tomam cada um dos homens e mulheres todos os dias. Mas, podemos mudar o jeito que o mundo é construído. Ou vocês acham que do jeito que as coisas andam está funcionando?  A mudança deve começar por aí.
Foi isso que senti hoje ao ir a APAC e conhecer mais um pouquinho dos tantos pouquinhos da vida que não conheço, e que unidos  transformam-se no mundo todo. Vale a pena pensar, repensar, criticar e mudar!