sexta-feira, 13 de julho de 2012


Despedida

O meu objetivo hoje não é deixar ninguém triste, ou para baixo. Vim sentir por meio das palavras os obstáculos da vida. Às vezes eles me parecem injustos e um tanto quanto imprevisíveis. Quem já perdeu alguém, já despediu de verdade sabe do que eu estou falando. Na verdade essa situação é condição inerente a vida, pois não se pode escapar dela. Nós somos mortais, assim como todos aqueles com quem convivemos. O medo de perder alguém torna mais difícil amar, pois amar significa dizer adeus em algum momento. Mas isso não significa que não valha a pena passar por isso.
Sabemos que a perda de alguém irá acontecer, mas mesmo assim ela sempre nos surpreende em algum nível. Seja o de perceber que a vida é um fio fino, muito fácil de ser quebrado, de nos lembrar que somos meros mortais ou o de nos tirar alguém que amamos. Aqueles que já viveram essa experiência não sofrem menos, apenas sabem que o tempo ajeita as coisas. Amadurecem o sofrimento, mas não deixam de sofrer.
Essa sensação de estranheza em relação a morte não é restrita a quem conhecemos. Podemos ouvir uma história, assistir a uma tragédia na televisão, ou ler um livro que relata uma eterna partida. Podemos nos comover com isso sempre,  independente do nosso nível de relação com a pessoa. No fundo isso acontece, pois nos enxergamos nessa relação, enxergamos nossa vida tão sensível e passível de imprevisibilidades como a daquele que morreu. O amanhã é o certo mais incerto que conheço. E não poder explicar algo, demanda da nossa origem positivista, é angustiante, devastador. Não se pode explicar a morte, nem a nossa  nem a do outro. E quando alguém se vai, toma-se um banho de realidade, pois não existe muita explicação para esse acontecimento. O momento, o porquê da pessoa estar naquele lugar, o porquê um vai antes dos outros ninguém sabe. Se alguém souber a resposta não me esconda, por favor.
 A morte não tem lugar na fila da classe social, sexo ou nacionalidade. Ela pode nos abraçar a qualquer momento, assim como a qualquer outro, e nos levar embora. É muda, não explica, é eficaz. E nos devasta. Estranho pensar como somos despreparados para a separação. Somos de fato seres sociais, pois a despedida ataca a todos como um mal sem cura. Precisamos de algum outro para tornar nossos dias mais felizes. A possibilidade de ficarmos sozinho nos desampara como um filhote longe de sua mãe. A ironia mora em como entramos nesse mundo e como o abandonamos. Sempre sozinhos. Talvez nossa passagem por aqui aconteça para que vivamos isso, vivamos o outro e vivamos mesmo porque a palavra vivenciar significa experiência que acontece durante o viver. Penso que viemos para a terra para estar com o outro. Os amigos, os amores, a família, os colegas, quem for. Viemos para criar laços e dependemos uns dos outros para aguentar as peças que a vida nos prega. Esses laços são fonte de sofrimento, mas também de muita alegria.
Depois que alguém se vai passamos por um processo que não significa esquecimento, de forma alguma.Consiste em ondas de lembranças, de risadas seguidas de choros, sofrimentos, dias cinzas. O cotidiano tenta nos distrair, mas logo ele falha. Seu poder cresce com o tempo, pois a medida que ele passa nos conformamos e cedemos mais momentos para pensar em outras coisas. Mas a falta da pessoa nunca cessa. Ela só se acalma.

E então surgem questionamentos em como poderíamos ter sido melhores companhias, das vezes que fizemos algum mal para aquela pessoa, ou de como poderíamos ter sido mais presentes de alguma forma. Sentimos culpa pela nossa ausência e uma sensação de vazio profunda. Por mais que tenhamos feito o nosso melhor, nunca seremos perfeitos. Se fossemos não seríamos humanos. Por mais que nos questionemos, e por mais poderosos que achemos que somos, sempre seremos impotentes diante da morte. É devastador sentir isso, eu sei. Eu também me sinto assim. Na morte um um corpo vira uma memória, passa do real para o nosso irreal interior.
Resta-nos então, o privilégio de ter, diante das milhares possibilidades que a vida pode nos dar, ter convivido com aquela pessoa. De termos sido os sortudos que conheceram alguém especial o suficiente para fazer falta. Saudades é isso, é sinônimo de importância, de amizade, de sentimento. Ela ninguém nos rouba, é nosso passaporte para reviver o passado com aquela pessoa querida. O mais impressionante são as coisas que lembramos. Momentos que em vida, nunca repensamos. Pequenos detalhes que compunham aquela pessoa, dias que se tornam especais na nossa mente, mas que antes não eram percebidos assim. Até os defeitos fazem falta, e como fazem.
Com o tempo as saudades deixam de ser sofrimento e passam a significar reencontro. Reencontro com o passado e com as pessoas queridas. O nosso presente, no sentido de tempo e de pertence que se presenteia a alguém é composto por esses momentos, guardados dentro de nós para serem acionados a nossa vontade. Pode parecer pouco, mas eles são preciosos. E essa é a parte bonita e saudável das saudades, voltar no tempo e gostar. Rir, reviver, chorar, por dentro. O homem é um oceano sem fim, sem profundidade. Somos muito capazes e temos a máquina do tempo que volta ao passado dentro de nós. Quer poder maior do que esse? Cabe a nós saber usá-la.
Acho que diante do delicado assunto que hoje vim tratar reconheço outra coisa bela dessa experiência, que é a adaptação. Somos seres que sofrem, apanham, sentem saudades. Mas sobrevivemos, juntos de perto ou no coração. Sobreviver a momentos difíceis é um mérito de cada um, pois ele nos força a crescer e aprender a valorizar o que importa na vida. As saudades serão eternas, assim como nossa passagem na terra. Pois se não vivemos mais, vivemos dentro dos demais que nos amaram e nos acompanharam no breve sufoco que é a vida. Não há mais nada belo do que isso, pois saudades é reviver o outro todos os dias.

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