domingo, 22 de julho de 2012


Recomendo

Pensei e pensei em tantas coisas para escrever e tive que escolher um assunto. Essa semana imagens da minha infância invadiram minha cabeça sem pedir licença. Depois disso fiz uma associação. A parte preferida dos meus dias sempre foi a tarde. Adoro final de tarde, em que sol começa a abaixar, a temperatura dá uma trégua e a noite começa. Acho que essa parte do dia sempre foi composta por atividades das quais gostei muito quando criança, e por isso tenho um carinho especial pelo lusco- fusco.
Lembro-me de quando a Rita, querida amiga que já trabalhou em minha casa quando era criança, fazia bolos dos mais diversos sabores para o lanche. Ela sempre os fazia no final da tarde e o meu presente com tudo isso era a rapa . Eu ficava sentada na bancada da cozinha  segurando o recipiente onde o bolo fora feito e sem pudor mergulhava minhas mãos no restante de massa de bolo que ali tinha sobrado e comia tudo. Lambuzava a cara, as mãos, a blusa, sujeira era sinônimo de alegria. Era uma delícia. Ação simples, tarde gostosa.
Recordo-me de Prado, cidade no sul da Bahia onde minha família tem casa. As tardes que passava lá envolviam passeios de bicicleta com meus primos pelas ruas de terra daquela pequena cidade, algumas vezes perdidos pelos caminhos que beiram a praia e outros até a sorveteria. A brisa do mar, a lua que começava a aparecer tornavam aquela experiência muito agradável. Deitar na areia no final da tarde e jogar conversa fora, observando a maré subir, falando bobagens, lembrando da vida. Ai que saudades...
No segundo andar da casa existe uma varanda onde se espalham diversas redes. Deitar nelas e ler um bom livro, ou cochilar, ou apenas observar a monotonia da rua onde vez por outra passava algum pedestre desocupado era muito bom. Acho que tenho muito que agradecer pela minha infância, pois não tinha com o meu preocupar, fora os dramas da infância comuns. Sei que não é assim que a vida acontece para todos, então convido os meus leitores a viajarem comigo pelo meu passado, permitindo-se a se colocar onde quiserem. Isso agora não é mais meu, é nosso. Até porque a memória não é uma função cognitiva perfeita, então nem tudo que eu lembro pode ter acontecido exatamente da forma em que narro. Melhor pensar nesses relatos como o que ficou do meu passado na minha cabeça, a minha interpretação dos retalhos do ontem. Lembro-me também de dançar em cima dos bancos de Prado com minhas tias e minha mãe, cantando Roberto Carlos e Lulu Santos. Quando escuto músicas desses cantores já sinto sabor de nostalgia, não tem como evitar.
Considero a piscina no final da tarde a melhor. A água fica quente, o sol menos escaldante,  situação muito convidativa. Meus avós paternos moram em uma fazenda que tem uma piscina deliciosa. Água realmente é terapêutico, lava a alma, relaxa. Nadar no final da tarde brincando de Marco Polo e postergando ao máximo o banho, atividade que procede a esse momento, era o clímax do meus dias passados na fazenda. O banho também não era um problema. A banheira da minha avó cabia, sabe-se lá como, eu, meu irmão e minhas duas primas da família paterna, Marina e Gabi. Brincávamos com uma coleção de bonequinhos dos mais diversos na água quente. Cada um era um boneco e lembro-me de que a água era sempre muito quente. No começo da noite, pois os dedos enrugados no final da brincadeira acompanhavam uma água morna e uma chamado para o jantar.
Jantar. Lembro-me de brincar debaixo da extensa mesa do apartamento da minha avó paterna e observar as pernas e pés da cada pessoa assentada. É impressionante o universo que pode existir debaixo de um pedaço de madeira quando se é criança. Eu adorava. Hoje, se deixo cair algo debaixo da mesa, sinto mau humor e uma leve sensação de raiva ao ter que abaixar para pegar o objeto derrubado. Por vezes no caminho de volta dessa situação de resgate, ainda bato a cabeça na mesa, fico extremamente irritada com tudo isso. Se eu ainda soubesse ou lembrasse o que era esse espaço no passado. Ingenuidade minha, não da infância.
Agora retornei para o meu antigo apartamento. Próximo ao Natal ajudava a minha mãe a arrumar a árvore de natal, tomando Coca e escutando música. Pendurávamos as luzinhas e todos os enfeites juntas, na antiga árvore que decorava a sala de jantar do apartamento da Rua dos Otoni. Estes nunca tiveram uma lógica decorativa muito óbvia, mas todos uma história muito pessoal. Isso é uma verdade, minha mãe sempre deixou o meu lar muito pessoal. Sempre com resquícios das pessoas que cruzaram e ainda cruzam nosso caminho, e dos momentos que vivemos juntos. Acho que essa é uma característica que gostaria de reproduzir quando tiver a minha casa. Faz a gente se sentir perto, do que está longe no espaço e no tempo.
No meio desse processo de escrita, minha mãe me informou que iria para Silvianópolis, cidade no sul de Minas onde minha bisavô morava. Não pude evitar e comecei a pensar. 5000 habitantes que hoje a minha prisão urbana me faz pensar em monotonia. Mas isso não era obstáculo para os feriados que passei lá. O vendedor de pastel de queijo que ficava na esquina da praça era disputado por mim e pelos meus primos para quem ganharia o primeiro pastel. Delicioso. Na praça, tinha uma TV comunitária, cercada de grades, para que toda a cidade pudesse assistir a novela. Banquinhos brancos se enfileiravam na frente da TV. Hoje penso, como é possível uma coisa dessas? Tão maluca e tão genial. A cidade se reunia para ver a novela na praça. Eu devia estar dentro de um livro, rolando no meio de palavras, pois essa cena era memorável. Tão distante de centro urbano (que não é tão urbano assim) como Belo Horizonte. Eu sempre achei aquela cena engraçada, desde pequenina.  
Lembro-me também de fazer colares na varanda da casa e depois vendê-los pela cidade. Uma vez derrubei a caixinha onde guardava as miçangas compradas no centro da cidade no chão. Elas rolaram rua abaixo, para bem longe de mim e da minha memória. Nessa pequena cidade eu também fiz amigos, que hoje não vejo mais. Uma teve um filho e juntou o outro estuda engenharia e mede quase dois metros de altura. E ai a vida vai...Naquela época, no auge da minha infância, eu não projetava em realidade o futuro, só em brincadeiras. Não imaginava em quem nos transformaríamos. Se é que essa metamorfose tem fim, mas isso é uma outra história.
Comecei falando de fases do dia que se transformaram em fases da vida, ou melhor, fase da vida. Melhor parar por aqui, se não vou cansá-los de histórias. Relembrar vicia. Acho que me provei que não preciso de muito para viajar. Uma ideia é ponte para outra. As memórias vão sendo associadas em cadeia, e percebo quantas recordações ficam esquecidas, apagadas pelo estresse do cotidiano. Lembrar-se disso deixa a vida mais saborosa e mais leve, devo confessar. Comecei falando da tarde, mas que bobagem, qualquer fase do dia é gostosa, é só saber aproveitar, ainda mais quando se é criança. Acho que já perceberam que tenho carinho pela minha infância e acho engraçado como ainda sou parecida com aquela muleca pirua que fui e ao mesmo tempo muito diferente dela. Mas gosto de reviver esses momentos de tempos em tempos, para não esquecê-los. Viajar no tempo não tem custo, pode ser feito a qualquer hora do dia e trás de volta um tempo perdido. Recomendo.

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