terça-feira, 11 de setembro de 2012


Cartas

                Não me conformo com o fim das cartas escritas à mão e enviadas pelo correio. E-mail é prático, mas não supre a pessoalidade de palavras escritas pela própria pessoa. Mesmo que por vezes a letra fique ilegível, contenha erros e rabiscados, prefiro isso ao padrão das letras do computador. A meu ver a forma de escrever é uma projeção de alguém em um papel.
                Quando era criança me indignava diante da ausência de cartas para mim. Estas sempre chegavam endereçadas aos meus pais, nunca incluíam o nome Deborah no destinatário. Sofria com a solidão do esquecimento dos outros. Resolvi então fazer parte do mundo das correspondências. Mal sabia eu que aquela pilha de papéis entregados pelo funcionário do correio para os meus pais continha, na sua grande maioria, contas e propagandas. Com um problema nas mãos fui dividi-lo com meu pai e minha mãe, em busca de uma solução.  A sua sugestão foi genial: “Ora, se quer receber cartas terá que enviar cartas para que as pessoas possam lhe enviar a resposta”.
                Dito e feito. Selecionei um grupo de pessoas com quem gostaria de conversar.  Tias, tios, primas, avós, conhecidos, amigos, o céu era o limite. Escrevi as cartas à mão, algumas sem muito assunto, mas todas envolvendo um desejo de estabelecer esse tipo de vínculo.  Logo as respostas começaram a voltar. Alguns se comprometeram mais do que outros, mas o fato é que durante meses troquei cartas com pessoas muito queridas.
                Não sei mais quando foi que este processo terminou, como as cartas pararam de chegar e de serem enviadas. Não sei se fui eu que cansei, o assunto que acabou, ou os meus destinatários que desanimaram. Talvez seja a vida, que exigiu mais atenção do que estas pequenas ações, às vezes aquela é mandona.  Possuo até hoje estas cartas guardadas em uma mala, unem-se para formar uma memória particular.
                Ao ler estas cartas, penso nas queridas pessoas que tiveram carinho e atenção para me responder. Lembro-me do que acontecia naquele tempo comigo e com meus destinatários e ainda me recordo de como a letra dessas pessoas era, coisa que não vejo desde os tempos da escola. Nesta época não era uma questão de opção, todos sabem bem. Através destes tantos envelopes enxergo uma linha do tempo.  Minha madrinha que morava nessa época em Governador Valadares, um convite de uma tia querida para algum dia visitarmos a Torre Eiffel juntas (o que aconteceu), notícias de uma irmã americana que morou em minha casa, um tio especial apaixonado por literatura, desculpas pela ausência de alguém importante em uma data comemorativa, e por aí vai, ainda não tive tempo de reler todas.
Vi em uma das cartas que, pela resposta do destinatário, eu havia manifestado gosto por astronomia em uma de nossas conversas. Como as coisas mudaram! Atualmente só me interesso pelo brilho da lua e a reflexão que olhar para as estrelas implica. Vejo pelas cartas que já fui outra pessoa que às vezes esqueço que faz parte de mim.  Não fui só eu que mudei, a vida de todos os meus correspondentes também. Alguns não os vejo mais, não sei mais o que se passa em suas vidas. Mas já soube, já filosofei sobre a vida com estes meros conhecidos do presente.
                Existe uma trilogia de livros que adoro chamada “Griffin e Sabine” (o autor se chama Nick Bantcock). Conta a história, somente através de cartas, de um homem e uma mulher que começam a se conhecer por meio de correspondências. Os li e reli várias vezes, sempre adorando a parte interativa do livro em que o envelope das cartas era colado na página do livro e com isso era possível remover a carta do envelope, que ficava desprendida do livro. É uma história interessante, vale a pena ler. Mas acho que o que mais gostava do livro era essa interação entre o papel e minha mão, livres para se sentirem. É poderoso segurar um livro, uma carta, não dá para substituir por uma tela de computador que nunca muda. Eu acho um tédio, pelo menos.
                Antigamente a troca de cartas com desconhecidos acontecia com mais frequência. Lembro-me de minha mãe contar que trocava cartas com um polonês quando era jovem. Conversavam em inglês sobre a vida e suas realidades. A dele era dura, pois sofria com a repressão comunista e ao mesmo tempo com crise do fim desse sistema. Por fim, ele propôs a minha mãe que se casassem. Por sorte, minha mãe não aceitou e se casou com meu pai (se não eu seria mais loirinha e estaria escrevendo em outra língua). Mas essa é uma outra história.
                Agora observo a mala onde guardo todas essas cartas. Um objeto antigo, cor de rosa, que me foi presentada por uma prima, há muitos anos atrás. Tudo isto estava jogado no fundo do meu armário, esquecido. Quantas coisas importantes são deixadas de lado. Mergulhei no tempo ao reler estas cartas e gostaria de agradecer a todos que participaram desta pequena experiência da minha infância. Gostaria de retomar este hábito, porém não sei se será possível. Mas uma coisa toda essa comunicação deixou para trás, não há sensação melhor do que ver uma cartinha no chão próxima à porta esperando para ser lida. Melhor ainda é quando o remetente é alguém especial. É uma surpresa muito gostosa. Todo o processo de abrir a carta, lê-la, relê-la é um encontro com o correspondente muito particular. É uma forma de interação distante, mas próxima.  Termino aqui com saudades do que já passou, mas feliz de ter experimentado estas sensações mesmo que por pouco tempo. Vivi uma pequena era das cartas muito mágica.

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