segunda-feira, 18 de junho de 2012


Parede de sonhos

                O ser-humano é muito rico. Ignorante quem não sabe disso. Essa semana comecei a realizar o meu projeto sobre a história de vida de uma comunidade de Belo Horizonte. Entrevistei um casal, que já carrega certa idade, sobre a sua vida e seu papel na construção da comunidade onde residem. Contaram-me a respeito de sua casa, de como a construíram e das dificuldades que a vida sempre lhes presenteou.
                Não vim aqui relatar exatamente as palavras deste casal. Estas guardarei para o livro que será fruto dessa experiência. Mas vim refletir sobre o que me foi contado. A casa em que os dois habitam é pequena, simples, mas é reflexo da vida que foi construída pelos dois. Acho que as casas são assim, um pedaço de nós, uma projeção do nosso interior. A forma como a tratamos e como a construímos não deixa de dizer muito sobre nós. E aí fico pensando em quem perde a casa, ou em um desabamento, ou pela destruição da chuva, de um tsunami, de um furacão, o que for, deve se sentir. A tristeza não é só pela perda material, a tristeza é também pela perda interior. Dentro de quatro paredes construímos e vivemos momentos de considerável importância.
                Não consigo esquecer a cena do filme “O Pianista” em que o ator principal observa sua cidade destruída pela guerra. As casas em pedaços, as vidas devastadas. Não desabaram só paredes, mas junto com estas, pessoas, sonhos e memórias. No filme o sofrimento do ator é nítido, pois sua vida fora embora junto com a cidade despedaçada pela guerra. Isso me fez refletir em como cada tijolo, cada móvel adquirido, cada dia vivido se transformam em um lar. Então, na manhã em que escutei o casal falar a respeito de seu lar, na verdade só os ouvi falar sobre si mesmos, sobre seus segredos mais preciosos e profundos.
                Outro dia assisti a um documentário que trata de um projeto da prefeitura chamado “Vila Viva” que visa urbanizar as favelas. O documentário trata da realidade que é remover famílias de suas casas, despejando-as em outras casas sem que ao menos sejam consultadas.  Entendo que a proposta do projeto é positiva, mas a execução deixou a desejar. Assistam ao documentário e verão, deixarei o mesmo no final do texto.
                Acho que o programa parece não levar em consideração  que quando se remove uma família de seu lar, não se remove um punhado de pessoas e alguns de seus pertences, o que está em jogo é muito mais do que isso. São histórias de vidas construídas ali, que serão demolidas e padronizadas em forma de prédios. Famílias enormes, que tinham uma dinâmica de se relacionar, que tinham espaço, que tinham tijolos em forma de memórias saudosas são removidas com um prazo para acharem uma casa sabe-se onde.
                Fico a observar a minha casa e imagino se me tirassem daqui, mudassem tudo e depois me colocassem de volta. Eu não ia gostar. Não dá pra brincar com pessoas iguais brincamos com bonecos. Demoramos mais para se adaptar do que eles, apesar disso acontecer eventualmente. Evoluir é adaptar e nesse aspecto a raça humana tem sido Expert.
                Lembro-me de quando mudei para o prédio onde resido. Era um pouco jovem e acho que o processo foi tão rápido que demorei pra processar a mudança. Mas toda vez que passo na frente do meu prédio antigo sempre vivo uma sensação meio nostálgica, de saudades, lembro-me de minha infância. Aquela estrutura cinza em forma de bloco é a coisificação dos meus sonhos e das ótimas lembranças que tenho da minha infância. Brinquei muito no P daquele prédio com meus vizinhos, que eram bons amigos. Esconde-esconde, patins, teatros, as festas de aniversário, tantas coisas. É engraçado revê-los, pois sinto uma energia boa, acho que eles também. Passamos muitos bons momentos juntos e isso não dá pra esquecer, a partir daí sempre associo essas pessoas com essa parte da minha vida.
                Lembro-me também que minha mãe saiu deste apartamento aos prantos, com saudades do que foi vivido nele. Foi lá onde eu e meu irmão nascemos e crescemos. Vejo as fotos das tantas coisas que vivi naquele apartamento e não tem como negar os sonhos que ficaram embutidos nas paredes, nos corredores e nos quartos deste. É a coisificação da minha infância, do meu passado. O modelo da casa pouco importa, o número de cômodos, o valor dos eletrodomésticos, isso são detalhes. O que importa é do que a casa é palco, é aí que ela deixa de ser casa e passa a ser lar. Deixo aí uma sugestão de inspiração para os engenheiros, arquitetos e decoradores, ou qualquer um que participe da construção de um lar.
                Vejam onde cheguei, fui longe e acabei dentro de mim, vasculhando a minha casa interna e o meu passado. É tão fácil refletir quando se escreve e fica impossível impedir o curso da imaginação. Para mim é fácil falar das preciosidades humanas, a riqueza delas me salta aos olhos. Conheci um casal que era simples de aparência, mas rico de garra e perseverança. Nisso eles me deixam no chinelo. Superaram a vida e venceram, enfrentaram os monstros e sofreram muito com isso. Mas estão lá, juntos, protegidos pela sua casa, abrigadora de suas vidas, de seus sonhos e de suas lembranças. Uma manhã de sábado combinada com uma conversa virou um mar de riquezas para mim e me fez pensar sobre meu lar. Ao final, muito me agradeceram, ofereceram-me café e ainda me levaram para conhecer o lado de dentro da casa. Mas quem tem a agradecer sou eu. Que dia rico e que história impressionante. O ser-humano me fascina, dá fome aos meus dias. Quero mais, a barriga em minha mente já anda a reclamar, vou dar um volta em busca de alimento para o meu pensamento perambulante.

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