Parede de sonhos
O
ser-humano é muito rico. Ignorante quem não sabe disso. Essa semana comecei a
realizar o meu projeto sobre a história de vida de uma comunidade de Belo
Horizonte. Entrevistei um casal, que já carrega certa idade, sobre a sua vida e
seu papel na construção da comunidade onde residem. Contaram-me a respeito de
sua casa, de como a construíram e das dificuldades que a vida sempre lhes
presenteou.
Não
vim aqui relatar exatamente as palavras deste casal. Estas guardarei para o
livro que será fruto dessa experiência. Mas vim refletir sobre o que me foi
contado. A casa em que os dois habitam é pequena, simples, mas é reflexo da
vida que foi construída pelos dois. Acho que as casas são assim, um pedaço de
nós, uma projeção do nosso interior. A forma como a tratamos e como a
construímos não deixa de dizer muito sobre nós. E aí fico pensando em quem
perde a casa, ou em um desabamento, ou pela destruição da chuva, de um tsunami,
de um furacão, o que for, deve se sentir. A tristeza não é só pela perda
material, a tristeza é também pela perda interior. Dentro de quatro paredes
construímos e vivemos momentos de considerável importância.
Não
consigo esquecer a cena do filme “O Pianista” em que o ator principal observa
sua cidade destruída pela guerra. As casas em pedaços, as vidas devastadas. Não
desabaram só paredes, mas junto com estas, pessoas, sonhos e memórias. No filme
o sofrimento do ator é nítido, pois sua vida fora embora junto com a cidade
despedaçada pela guerra. Isso me fez refletir em como cada tijolo, cada móvel
adquirido, cada dia vivido se transformam em um lar. Então, na manhã em que
escutei o casal falar a respeito de seu lar, na verdade só os ouvi falar sobre si
mesmos, sobre seus segredos mais preciosos e profundos.
Outro
dia assisti a um documentário que trata de um projeto da prefeitura chamado
“Vila Viva” que visa urbanizar as favelas. O documentário trata da realidade
que é remover famílias de suas casas, despejando-as em outras casas sem que ao
menos sejam consultadas. Entendo que a
proposta do projeto é positiva, mas a execução deixou a desejar. Assistam ao
documentário e verão, deixarei o mesmo no final do texto.
Acho
que o programa parece não levar em consideração que quando se remove uma família de seu lar,
não se remove um punhado de pessoas e alguns de seus pertences, o que está em
jogo é muito mais do que isso. São histórias de vidas construídas ali, que
serão demolidas e padronizadas em forma de prédios. Famílias enormes, que
tinham uma dinâmica de se relacionar, que tinham espaço, que tinham tijolos em
forma de memórias saudosas são removidas com um prazo para acharem uma casa
sabe-se onde.
Fico
a observar a minha casa e imagino se me tirassem daqui, mudassem tudo e depois
me colocassem de volta. Eu não ia gostar. Não dá pra brincar com pessoas iguais
brincamos com bonecos. Demoramos mais para se adaptar do que eles, apesar
disso acontecer eventualmente. Evoluir é adaptar e nesse aspecto a raça humana tem sido Expert.
Lembro-me
de quando mudei para o prédio onde resido. Era um pouco jovem e acho que o
processo foi tão rápido que demorei pra processar a mudança. Mas toda vez que
passo na frente do meu prédio antigo sempre vivo uma sensação meio nostálgica,
de saudades, lembro-me de minha infância. Aquela estrutura cinza em forma de
bloco é a coisificação dos meus sonhos e das ótimas lembranças que tenho da
minha infância. Brinquei muito no P daquele prédio com meus vizinhos, que eram
bons amigos. Esconde-esconde, patins, teatros, as festas de aniversário, tantas
coisas. É engraçado revê-los, pois sinto uma energia boa, acho que eles também.
Passamos muitos bons momentos juntos e isso não dá pra esquecer, a partir daí
sempre associo essas pessoas com essa parte da minha vida.
Lembro-me
também que minha mãe saiu deste apartamento aos prantos, com saudades do que
foi vivido nele. Foi lá onde eu e meu irmão nascemos e crescemos. Vejo as fotos
das tantas coisas que vivi naquele apartamento e não tem como negar os sonhos
que ficaram embutidos nas paredes, nos corredores e nos quartos deste. É a
coisificação da minha infância, do meu passado. O modelo da casa pouco importa,
o número de cômodos, o valor dos eletrodomésticos, isso são detalhes. O que
importa é do que a casa é palco, é aí que ela deixa de ser casa e passa a ser
lar. Deixo aí uma sugestão de inspiração para os engenheiros, arquitetos e
decoradores, ou qualquer um que participe da construção de um lar.
Vejam
onde cheguei, fui longe e acabei dentro de mim, vasculhando a minha casa
interna e o meu passado. É tão fácil refletir quando se escreve e fica
impossível impedir o curso da imaginação. Para mim é fácil falar das
preciosidades humanas, a riqueza delas me salta aos olhos. Conheci um casal que
era simples de aparência, mas rico de garra e perseverança. Nisso eles me
deixam no chinelo. Superaram a vida e venceram, enfrentaram os monstros e
sofreram muito com isso. Mas estão lá, juntos, protegidos pela sua casa,
abrigadora de suas vidas, de seus sonhos e de suas lembranças. Uma manhã de
sábado combinada com uma conversa virou um mar de riquezas para mim e me fez
pensar sobre meu lar. Ao final, muito me agradeceram, ofereceram-me café e
ainda me levaram para conhecer o lado de dentro da casa. Mas quem tem a
agradecer sou eu. Que dia rico e que história impressionante. O ser-humano me
fascina, dá fome aos meus dias. Quero mais, a barriga em minha mente já anda a
reclamar, vou dar um volta em busca de alimento para o meu pensamento
perambulante.
http://www.youtube.com/watch?v=rlxKVtikzPw
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