quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Sobre nossos pais

            Acho que todos chegam a uma fase da vida em que as figuras paterna e materna entram em metamorfose. Deixam de ser as únicas referências do que representa a cultura, do que é certo e, sobretudo, de tudo que queremos ser no futuro, para se tornarem seres ambulantes e perdidos como nós. Com o benefício da sabedoria que o tempo vivido garante, mas não isentos das fraquezas que nos dominam.

            Tornamos-nos então, críticos e exigentes com nossos pais, principalmente quando já temos idade para nomear os seus defeitos, quando estes começam a nos incomodar cada vez mais, e, mais ainda, quando temos força para contestá-los. As velhas lições do que é certo ou do que é errado deixam de fazer sentido quando aprendemos a questioná-las. Muitas vezes não concordamos com as mesmas, momento que difere da nossa infância, pois nele temos consciência do porquê pensamos diferente (isso vale mais para aqueles que se conhecem bem do que para os que se renegam). Os pais, pobre coitados, são obrigados a assistir a alguém que já  trocaram as fraldas os questionando e ameaçando abandonar o ninho e voar. 

            Nessa fase, reconhecemos que nossos pais podem ser adolescentes crescidos, zangados com a vida, cheios de questões mal resolvidas. E o pior, passamos o nos reconhecer nos mesmos, o que certamente torna tudo isso mais difícil.Ou então, nem isso conseguimos perceber e aí toda vez que essa característica deles (nossa) aparece, brigamos e ficamos com raiva. Mas na verdade repetimos, fazemos igual. E tentamos ser nós mesmos, uma criação nova do que eles nos ofereceram. Vencemos em alguns quesitos, mas em outros não. Repetimos e repetimos erros e escolhas.

            Acho que talvez o mais bonito dessa história toda, é que, depois de perdermos os nossos super heróis e super heroínas, reconhecemos que nossos pais são humanos solidários o suficiente para fazerem algum tipo de sacrifício por nós. Porque eu tenho certeza de que este sacrifício envolve tristezas e momentos dolorosos. Desde medo, raiva e um gosto amargo que colocar um sonho de lado implica, mesmo que seja por uma pessoa que amamos.

            Todos queremos viver uma vida egoísta no sentido de querer realizar nossas vontades e sonhos mais milaborantes. Mas isso nem sempre é possível, principalmente quando se tem um filho ou uma filha. E não acho que todAs que engravidem devam ser mães. E também não acho que todos e todas consigam abrir mão de suas vidas por uma vida nova, e não há nada de errado nisso. Ninguém é obrigado a ser nada que não queira. Nem pai, nem mãe, nem solteiros, casados, homossexuais, monogâmicos, poligâmicos, chineses, indianos, árabes, brasileiros e por aí vai. Somos livres, certo? A vida é muito curta para se viver a partir da expectativa alheia. Só os filhos é que sempre são obrigados a serem filhos. Veja que impacto, pois sempre serão filhos independente da realidade em que sejam gerados, mesmos que indesejados.

            A paternidade e maternidade não são sagradas. São gestos de altruísmo,  mas para mim, são muito mais belos quando são fruto de uma escolha. A questão aqui é sim, sou a favor do aborto, sou a favor do direito sobre o próprio corpo e sou a favor do direito de escolha. Eu sei, já estudei e já vi os efeitos que pais despreparados podem ter sobre um filho. E é muito fácil culpá-los. Como se fossem seres isolados do mundo em seu universo interior. O externo tem influência sobre nós e somos passíveis de erros. Acho o papo de religião e estado sobre isso balela, uma forma de manter as relações de poder machistas que controlam o corpo feminino. E pensem bem, não sou nada pioneira na minha colocação. Nem na América Latina isso é novo. Em Cuba a Lei que permite o aborto sem restrições vigora desde a Revolução Comunista, em 1959. Agora o Uruguai, mas quando o Brasil? Meu Brasil.

            Não são todas as pessoas que nasceram para serem mães e pais e não acredito em instinto materno ou paterno. O instinto na verdade pode ser uma construção social de um papel que exerce influência sobre nós. A minha visão glorifica, de certa forma, aqueles que escolhem ser pais, e glorifica também aqueles que optaram por uma vida sem filhos. E mesmo assim todos erram, porque não é uma ciência exata produzir (ou não) um ser humano. Mas pelo menos não erram na escolha. 

            Eu não sou mãe, mas hoje tenho um olhar crítico sobre meus pais. Esses seres humanos confusos que me amam muito e que devem ter se sentido indefesos quando viram um bebê que dependia em tudo deles. A ilusão de criança foi deixada para trás e virou um olhar maduro sobre as pessoas que podem errar e ao mesmo tempo nos ajudar. Essa visão que transforma os pais nos maiores artista do mundo, A PARTIR DE UMA ESCOLHA E NÃO UMA IMPOSIÇÃO, é nobre. É se ceder em parte para a vida, para gerar uma vida. Não é a única escolha, nem a melhor delas, mas é certamente muito bonita. Aos pais e mães que erram, acertam e se dão, vocês são fortes e solidários. Aos sem prole, como eu, vamos nos jogar nas escolhas que os outros deixam de lado para realizá-las. Esse também é um belo caminho...



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