Geração instantânea
Há alguns dias atrás assisti a uma reportagem
que abordava as diferenças entre as gerações. A partir daí comecei a me
questionar sobre a minha própria geração. Quem somos nós? Geração Y? Mas no
fundo, o que isso representa? Antes de nós a juventude sofria com a repressão e
a ditatura em todo mundo. Período triste, mas ao mesmo tempo, de muita
contestação e produção artística. A música, o cinema, a arte, a maneira de se
vestir e de se comportar eram uma forma de expressão política. De afirmação de
uma ideologia. Pensando bem, todas estas instâncias mencionadas anteriormente são
sempre uma forma de afirmar alguma ideologia. Antes e agora, mesmo que esta
seja vazia.
Aí eu parei para me perguntar qual é a ideologia da minha
geração. Seria a do consumo? Do culto ao corpo? Do enriquecimento? Da imagem?
Da tecnologia? Da versatilidade? Das
mudanças constantes e da informação instantânea? Da individualidade?
Somos uma geração inquieta. Que muda o tempo todo e que
produz muito. Como usar isso a nosso favor? Essas são características
interessantes que podem ser um caminho para um futuro melhor. Nossa geração é
mais globalizada, conhece mais o mundo, apesar disso não significar
necessariamente que respeite mais a diferença. Mas já é um começo.
Podemos refletir mais afundo: que tipo de arte temos
produzido? Quais livros temos escrito? Em quem temos votado? Quais
manifestações fazemos? Qual ideologia buscamos? Às vezes esta me parece vazia,
mas talvez não seja. As pessoas têm reclamado nos consultórios terapêuticos
dessa sensação de vazio que não tem origem. Eu sei a origem, pelo menos acho
que sei. Ela mora no vazio do sistema. Capital não é base para o sentido da
vida de ninguém. Carros na garagem e um corpo perfeito são bacanas,
aparentemente. Porém, não dão significado à vida, não preenchem a alma. Isso
nos leva a tentar preencher um buraco com o que nos é oferecido na mídia e com
o que é valorizado. E o que é valorizado, não tem valor na verdade. Não tem
valor humano.
Todas as pessoas que conheço que criticam a nossa falta de
ideologia idolatram o passado e a juventude que nos precedeu. O presente fica esquecido e isso é um tanto
quanto desanimador. Em contrapartida, nossa geração é tão individualista que no
âmbito pessoal atinge muito. Cria e produz igual a uma máquina. Aonde isso vai
dar?
Acho que outra forma de definir a minha geração é através da
contradição. Aliás, essa é uma das grandes questões da vida. A quem devemos dar
prioridade? A nós ou ao mundo? Aproveitar a fugacidade que é a nossa passagem
pela terra ou doar o nosso tempo aos que precisam mais que nós? É uma escolha
difícil acompanhada da culpa de não viver e de não ajudar. Quem deveríamos ser?
Vida incerta essa nossa.
Mas voltando às contradições da minha geração. Um exemplo
seria o culto ao corpo, ele é irônico. Vivemos afundados em um mar de
propagandas de fast food que garantem
uma alimentação rápida e prazerosa. Mas a que custo? Essa indústria virou uma
fábrica de obesos e problemas de saúde. Ao mesmo tempo temos que ser magros,
bonitos e bem sucedidos, certo? O
problema mora na nossa incapacidade de esperar. Queremos tudo para ontem. Até a
comida. O prazer não pode demorar a vir. Talvez essa tenha sido uma resposta
adaptativa para o que tantas mudanças exigem de nosso corpo. Temos que mudar juntos
para sobrevivermos, o problema é o que o corpo acostumou a essa velocidade.
Somos a geração
instantânea. Ficamos ligados na tomada igual a um computador. Não existem
momentos de ausência às redes sociais e às notícias. Os Smart phones vieram
para completar o buraco que faltava. Com isso foi se embora também a
privacidade. Não que isso seja necessariamente um problema, mas a necessidade
de mostrar para o mundo as nossas atividades é um tanto quanto duvidosa. Será
que somos felizes mesmo? Para que tanta afirmação de felicidade no Facebook e
no Twitter? Ainda não sei bem no que
isso tudo vai dar. O tempo, instância mais antiga da vida, nos dirá. Espero que
a sua velhice nos traga alguma sabedoria.
O nosso imediatismo é tanto que já não sabemos suportar nem
a dor, ela é substituída por remédios e drogas, desculpem-me a redundância. Queremos
a forma de prazer mais rápida possível. E para tal, temos um mercado focado em
atender o cliente a qualquer hora do dia. Prazer e tecnologia. A que custo? O
imediatismo se faz necessário no amor, nas drogas, no trabalho e no trânsito.
Esperar pra que? As coisas mudam do dia para a noite, não há tempo para espera.
Esquecemos a paciência em qualquer lugar do passado.
No Brasil a juventude é a maioria. Ou seja, o futuro esta de
fato nas nossas mãos. Agora não é mais “balela” de discurso de motivação, ou
papo de político. É tudo nosso. O que será que vai acontecer então? Vamos
levantar voo com essa velocidade toda? Ou produziremos algo de novo, de fato
inovador e útil para todos? Algo que seja inclusivo para com as diferenças e
desigualdades. Saberemos usar o que nossa versatilidade e flexibilidade têm a
oferecer? Espero que sim. A resposta é aprender a como administrar nossas
potencialidades.
Sei que falei muita coisa, mas não acho que tenha falado de
todos. Não posso esquecer que somos uma geração segregada. O acesso à
tecnologia é garantido para muitos, mas a classe social, a etnia e região ainda
separam os usuários. Existe outro lado
da juventude da qual não quero esquecer. Esse lado vive a mesma realidade do
que nós, mas é separado por um muro feito de dinheiro e poder. Falo de mim
aqui, mas gostaria de falar de todos.
Acho que o nome do meu blog já me faz um grande fruto da
década em que nasci. Metamorfose é mudança e esse é nosso sobrenome. Penso que
é hora da nossa geração assumir a responsabilidade a que nós é inerente, uma
vez que somos a maioria, e saber usá-la para um mundo melhor. Essa frase pode
ser clichê, mas é algo que foi sempre falado e nunca foi alcançado. Será porque?
Provavelmente nunca interessou a quem manda de verdade. Mas mesmo assim eu
sonho e faço o que posso. Deixo o convite a vocês, para refletirem e
metamorfosearem o nosso mundo para que ele saia por aí voando com igualdade e
respeito para todos.
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