sexta-feira, 11 de maio de 2012


Geração instantânea
 Há alguns dias atrás assisti a uma reportagem que abordava as diferenças entre as gerações. A partir daí comecei a me questionar sobre a minha própria geração. Quem somos nós? Geração Y? Mas no fundo, o que isso representa? Antes de nós a juventude sofria com a repressão e a ditatura em todo mundo. Período triste, mas ao mesmo tempo, de muita contestação e produção artística. A música, o cinema, a arte, a maneira de se vestir e de se comportar eram uma forma de expressão política. De afirmação de uma ideologia. Pensando bem, todas estas instâncias mencionadas anteriormente são sempre uma forma de afirmar alguma ideologia. Antes e agora, mesmo que esta seja vazia.
Aí eu parei para me perguntar qual é a ideologia da minha geração. Seria a do consumo? Do culto ao corpo? Do enriquecimento? Da imagem? Da tecnologia? Da versatilidade?  Das mudanças constantes e da informação instantânea?  Da individualidade?
Somos uma geração inquieta. Que muda o tempo todo e que produz muito. Como usar isso a nosso favor? Essas são características interessantes que podem ser um caminho para um futuro melhor. Nossa geração é mais globalizada, conhece mais o mundo, apesar disso não significar necessariamente que respeite mais a diferença. Mas já é um começo.
Podemos refletir mais afundo: que tipo de arte temos produzido? Quais livros temos escrito? Em quem temos votado? Quais manifestações fazemos? Qual ideologia buscamos? Às vezes esta me parece vazia, mas talvez não seja. As pessoas têm reclamado nos consultórios terapêuticos dessa sensação de vazio que não tem origem. Eu sei a origem, pelo menos acho que sei. Ela mora no vazio do sistema. Capital não é base para o sentido da vida de ninguém. Carros na garagem e um corpo perfeito são bacanas, aparentemente. Porém, não dão significado à vida, não preenchem a alma. Isso nos leva a tentar preencher um buraco com o que nos é oferecido na mídia e com o que é valorizado. E o que é valorizado, não tem valor na verdade. Não tem valor humano.
Todas as pessoas que conheço que criticam a nossa falta de ideologia idolatram o passado e a juventude que nos precedeu.  O presente fica esquecido e isso é um tanto quanto desanimador. Em contrapartida, nossa geração é tão individualista que no âmbito pessoal atinge muito. Cria e produz igual a uma máquina. Aonde isso vai dar?
Acho que outra forma de definir a minha geração é através da contradição. Aliás, essa é uma das grandes questões da vida. A quem devemos dar prioridade? A nós ou ao mundo? Aproveitar a fugacidade que é a nossa passagem pela terra ou doar o nosso tempo aos que precisam mais que nós? É uma escolha difícil acompanhada da culpa de não viver e de não ajudar. Quem deveríamos ser? Vida incerta essa nossa.
Mas voltando às contradições da minha geração. Um exemplo seria o culto ao corpo, ele é irônico. Vivemos afundados em um mar de propagandas de fast food  que garantem uma alimentação rápida e prazerosa. Mas a que custo? Essa indústria virou uma fábrica de obesos e problemas de saúde. Ao mesmo tempo temos que ser magros, bonitos e bem sucedidos, certo?  O problema mora na nossa incapacidade de esperar. Queremos tudo para ontem. Até a comida. O prazer não pode demorar a vir. Talvez essa tenha sido uma resposta adaptativa para o que tantas mudanças exigem de nosso corpo. Temos que mudar juntos para sobrevivermos, o problema é o que o corpo acostumou a essa velocidade.
 Somos a geração instantânea. Ficamos ligados na tomada igual a um computador. Não existem momentos de ausência às redes sociais e às notícias. Os Smart phones vieram para completar o buraco que faltava. Com isso foi se embora também a privacidade. Não que isso seja necessariamente um problema, mas a necessidade de mostrar para o mundo as nossas atividades é um tanto quanto duvidosa. Será que somos felizes mesmo? Para que tanta afirmação de felicidade no Facebook e no Twitter?  Ainda não sei bem no que isso tudo vai dar. O tempo, instância mais antiga da vida, nos dirá. Espero que a sua velhice nos traga alguma sabedoria.
O nosso imediatismo é tanto que já não sabemos suportar nem a dor, ela é substituída por remédios e drogas, desculpem-me a redundância. Queremos a forma de prazer mais rápida possível. E para tal, temos um mercado focado em atender o cliente a qualquer hora do dia. Prazer e tecnologia. A que custo? O imediatismo se faz necessário no amor, nas drogas, no trabalho e no trânsito. Esperar pra que? As coisas mudam do dia para a noite, não há tempo para espera. Esquecemos a paciência em qualquer lugar do passado.
No Brasil a juventude é a maioria. Ou seja, o futuro esta de fato nas nossas mãos. Agora não é mais “balela” de discurso de motivação, ou papo de político. É tudo nosso. O que será que vai acontecer então? Vamos levantar voo com essa velocidade toda? Ou produziremos algo de novo, de fato inovador e útil para todos? Algo que seja inclusivo para com as diferenças e desigualdades. Saberemos usar o que nossa versatilidade e flexibilidade têm a oferecer? Espero que sim. A resposta é aprender a como administrar nossas potencialidades.
Sei que falei muita coisa, mas não acho que tenha falado de todos. Não posso esquecer que somos uma geração segregada. O acesso à tecnologia é garantido para muitos, mas a classe social, a etnia e região ainda separam os usuários.  Existe outro lado da juventude da qual não quero esquecer. Esse lado vive a mesma realidade do que nós, mas é separado por um muro feito de dinheiro e poder. Falo de mim aqui, mas gostaria de falar de todos.
Acho que o nome do meu blog já me faz um grande fruto da década em que nasci. Metamorfose é mudança e esse é nosso sobrenome. Penso que é hora da nossa geração assumir a responsabilidade a que nós é inerente, uma vez que somos a maioria, e saber usá-la para um mundo melhor. Essa frase pode ser clichê, mas é algo que foi sempre falado e nunca foi alcançado. Será porque? Provavelmente nunca interessou a quem manda de verdade. Mas mesmo assim eu sonho e faço o que posso. Deixo o convite a vocês, para refletirem e metamorfosearem o nosso mundo para que ele saia por aí voando com igualdade e respeito para todos.

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