segunda-feira, 28 de maio de 2012


A mão e o Mundo
                Imaginemos uma mão. Deixarei a imaginação de vocês encarregada de construir as características físicas daquela. Podem criar o que quiserem, as aparências não importam neste texto. Imaginemos também um mundo, como o nosso, ou talvez com o que imaginemos que o nossa pareça. Desculpem-me mas nunca o vi de fora, só de dentro, do coração.
                A mão e o mundo moram juntos no universo. A mão controla o mundo à sua maneira. Alguns dias é generosa e carinhosa, abre-se e com este gesto dá tesouros ao mundo. Mas não só tesouros monetários, mas também, tesouros afetivos, aqueles que nos fazem sentir protegidos e amados. Outros dias, fecha-se e não da nenhuma explicação ao pobre mundo, que fica sem entender a lógica da mão. “ Porque ela abre e depois fecha?” – pensa o mundo. A ausência de explicações a esse comportamento o enlouquece, o desampara.
            A mão apesar de dar exige retorno. Um dedo pelo outro, um gesto de carinho por um favor. O amor tem um preço que deve ser pago em prestações e com juros. A relação afetiva do mundo e da mão assemelha-se a uma transação bancária. E o pobre mundo se resigna a essa atitude. Dá a mão tudo que tem, tudo que pode. Até sua última gota de apreço por si mesmo.
            O mundo pensa em ser livre. Deseja do fundo de sua alma a liberdade, mas a sua dependência se faz mais forte. Esta é poderosa e manipula suas ações. A força da mão não exige presença, não exige força física, ela é interna. Ela é condenatória e misteriosa. O mundo também se vê distraído pelo cotidiano dessa dominância. Deve ser forte o bastante para girar todos os dias e esse esforço é mental. Ocupa o tempo de reflexão e de revolta à sua situação.
            O mundo é fruto do meio da mão, poderosa mão. O tempo passa, tudo muda, menos o interesse da mão que só quer mandar, só quer o poder. Ela também é cega, embebida pelo poder que possui. Não há questionamento à sua posição, ela nasceu assim e por isso sua hierarquia é naturalizada. Seu poder é genético, é legítimo e na sociedade daquela mão e daquele mundo não existe outra possibilidade de vida, pelo menos é assim que situação é vista pelos moradores daquele vasto universo. E o mundo segue este caminho sem fim, sem luz, sem estrelas.
            Uma manda e o outro obedece, estilo de vida. O mundo vive acorrentado por correntes invisíveis que moram na sua mente, nos seus monstros interiores e na sua descrença em si, no seu total desconhecimento de seu valor. Pois é o mundo que carrega todos os sentimentos, todas as almas, toda a beleza humana. Ele tem tudo, mas não sabe.
            O futuro é incerto também na vida deste mundo e desta mão. Ele é escuro e sinuoso, não dá dicas e gosta de surpreender. Mas uma coisa não muda, a mão permanece a mandar e do mundo a obedecer, como um capacho. Seu coração aperta, as lagrimas lhe vem à superfície, mas não vê saída. Só sabe girar, como gira!
            O mundo já não sabe quem é já não questiona a realidade. Engole-a como uma criança tomando remédio. E ela lhe desce amarga e profunda. E assim ele se despedaça, derrete, se quebra em pedacinhos. E cada vez é mais difícil colá-los, tantos são, tanto se multiplicam estes pedacinhos. A raiva lhe vem, mas já não sabe mais canalizá-la e também não sabe mais o motivo que a causou, este foi perdido nas estradas do tempo. A origem dos fatos se esvaneceu com o passar dos anos. Só sabe que é um nada, um mundo qualquer. Não sabe que os tesouros são seus e não da mão.
            Este mundo, querido mundo, vai se afogando em um rio escuro de sentimentos melancólicos, afunda-se e já não vê mais a superfície. Perdeu-a de vista, as imagens já estão embaçadas, os sons não mais os escuta. De vez em quando luta contra si, tenta mudar, tenta sair daquela relação de dependência, mas logo em seguida recai à prisão que lhe enclausura. Ser livre implica em responsabilidades que ele não sabe se consegue assumir. Nunca lidou com esse sentimento, essa responsabilidade é uma novidade distante que lhe parece inalcançável. No fundo, o mundo luta contra si e não contra a mão. Não sabe que quem carrega a mão é ele e não o contrário, que o poder da mão só é garantido por si e ninguém mais. Não sabe da sua grandeza quando comparada a ela, aquela megera mandona.
            E assim a vida prossegue. A mão mais bate do que dá carinho e o mundo gira, silencioso, já não há o que dizer, não há o que sentir. Já não tem mais voz este pobre mundo, já não tem mais vida.  Esta se perdeu nos caminhos que a dominação implica. Esta palavra feia, recorrente e infelizmente trivial.

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