A mão e o Mundo
Imaginemos
uma mão. Deixarei a imaginação de vocês encarregada de construir as
características físicas daquela. Podem criar o que quiserem, as aparências não
importam neste texto. Imaginemos também um mundo, como o nosso, ou talvez com o
que imaginemos que o nossa pareça. Desculpem-me mas nunca o vi de fora, só de
dentro, do coração.
A
mão e o mundo moram juntos no universo. A mão controla o mundo à sua maneira.
Alguns dias é generosa e carinhosa, abre-se e com este gesto dá tesouros ao mundo.
Mas não só tesouros monetários, mas também, tesouros afetivos, aqueles que nos
fazem sentir protegidos e amados. Outros dias, fecha-se e não da nenhuma
explicação ao pobre mundo, que fica sem entender a lógica da mão. “ Porque ela
abre e depois fecha?” – pensa o mundo. A ausência de explicações a esse
comportamento o enlouquece, o desampara.
A
mão apesar de dar exige retorno. Um dedo pelo outro, um gesto de carinho por um
favor. O amor tem um preço que deve ser pago em prestações e com juros. A relação
afetiva do mundo e da mão assemelha-se a uma transação bancária. E o pobre
mundo se resigna a essa atitude. Dá a mão tudo que tem, tudo que pode. Até sua
última gota de apreço por si mesmo.
O
mundo pensa em ser livre. Deseja do fundo de sua alma a liberdade, mas a sua
dependência se faz mais forte. Esta é poderosa e manipula suas ações. A força
da mão não exige presença, não exige força física, ela é interna. Ela é
condenatória e misteriosa. O mundo também se vê distraído pelo cotidiano dessa
dominância. Deve ser forte o bastante para girar todos os dias e esse esforço é
mental. Ocupa o tempo de reflexão e de revolta à sua situação.
O
mundo é fruto do meio da mão, poderosa mão. O tempo passa, tudo muda, menos o
interesse da mão que só quer mandar, só quer o poder. Ela também é cega,
embebida pelo poder que possui. Não há questionamento à sua posição, ela nasceu
assim e por isso sua hierarquia é naturalizada. Seu poder é genético, é
legítimo e na sociedade daquela mão e daquele mundo não existe outra possibilidade
de vida, pelo menos é assim que situação é vista pelos moradores daquele vasto
universo. E o mundo segue este caminho sem fim, sem luz, sem estrelas.
Uma
manda e o outro obedece, estilo de vida. O mundo vive acorrentado por correntes
invisíveis que moram na sua mente, nos seus monstros interiores e na sua
descrença em si, no seu total desconhecimento de seu valor. Pois é o mundo que
carrega todos os sentimentos, todas as almas, toda a beleza humana. Ele tem
tudo, mas não sabe.
O
futuro é incerto também na vida deste mundo e desta mão. Ele é escuro e sinuoso,
não dá dicas e gosta de surpreender. Mas uma coisa não muda, a mão permanece a
mandar e do mundo a obedecer, como um capacho. Seu coração aperta, as lagrimas
lhe vem à superfície, mas não vê saída. Só sabe girar, como gira!
O
mundo já não sabe quem é já não questiona a realidade. Engole-a como uma
criança tomando remédio. E ela lhe desce amarga e profunda. E assim ele se
despedaça, derrete, se quebra em pedacinhos. E cada vez é mais difícil
colá-los, tantos são, tanto se multiplicam estes pedacinhos. A raiva lhe vem,
mas já não sabe mais canalizá-la e também não sabe mais o motivo que a causou, este
foi perdido nas estradas do tempo. A origem dos fatos se esvaneceu com o passar
dos anos. Só sabe que é um nada, um mundo qualquer. Não sabe que os tesouros
são seus e não da mão.
Este
mundo, querido mundo, vai se afogando em um rio escuro de sentimentos
melancólicos, afunda-se e já não vê mais a superfície. Perdeu-a de vista, as
imagens já estão embaçadas, os sons não mais os escuta. De vez em quando luta
contra si, tenta mudar, tenta sair daquela relação de dependência, mas logo em
seguida recai à prisão que lhe enclausura. Ser livre implica em
responsabilidades que ele não sabe se consegue assumir. Nunca lidou com esse
sentimento, essa responsabilidade é uma novidade distante que lhe parece
inalcançável. No fundo, o mundo luta contra si e não contra a mão. Não sabe que
quem carrega a mão é ele e não o contrário, que o poder da mão só é garantido
por si e ninguém mais. Não sabe da sua grandeza quando comparada a ela, aquela
megera mandona.
E
assim a vida prossegue. A mão mais bate do que dá carinho e o mundo gira,
silencioso, já não há o que dizer, não há o que sentir. Já não tem mais voz
este pobre mundo, já não tem mais vida.
Esta se perdeu nos caminhos que a dominação implica. Esta palavra feia,
recorrente e infelizmente trivial.
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