quarta-feira, 2 de maio de 2012


O céu
Viagem de família é uma coisa boa. Gostosa. Pra mim envolveu conversas na varanda do quarto, com pessoas queridas sobre assuntos quaisquer. Mas o melhor da noite era o céu. Que céu lindo, ainda mais dividido com primas-irmãs queridas. Céu laranja avermelhado com o vento da praia para relaxar e descansar a mente. Jogar conversa fora, olhar o entardecer, rir a toa. Delícia.
Algumas noites são especiais. Temos e devemos de aproveitá-las. Como diria meu irmão existem aqueles que sabem aproveitar a vida e aqueles que a veem passar. Desculpem-me, mas os últimos cometem um erro grave. A vida vai passar, já está passando e nós junto com ela. Os dias cheios e acelerados que vivemos, completos de atividades e informações imediatas que preenchem as horas, não deixam espaço para o tempo a toa. Tempo para pensar na vida, pensar bobagens, fazer planos impossíveis e refletir sobre aqueles assuntos que não nos saem da mente. Não há noite ou dia que não deva ser aproveitado. Não há boa companhia que não deva ser valorizada. A vida é fugaz e não há tempo que volte, como diria Lulu. Façamos dela o melhor possível. Aproveitemos o céu, todos os dias.
 Lembro-me das noites que já passei e penso agora no céu mais bonito que já vi. Estava eu no Marrocos, com uma ilustre companhia, um amigo para a vida. Havíamos viajado para visitar uma comunidade chamada Beri- Beri, povo que tem origem diferente da árabe aquela compartilhada pelos marroquinos. Observar as casinhas cor de ocre cobertas por um dia de céu azul, e ao fundo mirar a vista das montanhas Atlas cobertas de neve resultou em um lugar interessante, novidade para meus olhos. Almoçamos em uma tenda que servia comidas marroquinas, paramos em uma loja que ensinava a fazer tapetes, compramos artesanato na beira da montanha. Dia bom.
 Na volta fomos surpreendidos por um motorista bêbado que quase trombou de frente com a nossa van. Toda experiência inesperada tem resquícios de reflexão. Ao esperarmos o carro de polícia na beira da estrada, fiquei a observar o céu. Nossa que céu! Acho que não tenho palavras nem habilidades descritivas para descrevê-lo. Mas, mesmo diante da minha insignificância literária, tentarei colocar em palavras o que foi aquela experiência. Parecia que estávamos cobertos por um tapete cheio de pontos brilhantes. O escuro e altura da montanha onde nos encontrávamos só faziam aquela visão saltar mais aos nossos olhos. Era impossível não olhar. No meio do nada, olhar para cima e admirar as estrelas significa também se perguntar sobre a vida, questionar-se sobre as angustiantes questões que às vezes tiram nosso sono. Estamos sozinhos nesse mundo? Para onde vamos depois dessa passagem pela terra? Porque às vezes nos sentimos tão sozinhos, mesmo acompanhados? Faz-nos pensar como somos nada diante do tudo e do belo. Somos uma insignificância mundana que se acha. Vai falar que não.
Toda aquela loucura que é quase bater de frente com um carro no Marrocos de fato valeu a pena. Viver é muito perigoso, parafraseando Guimarães. Ainda bem. Estranho pensar que quase morrer pode valer a pena. Acho que entendo melhor agora aqueles que arriscam a vida para viver no limite da mesma, bêbados de adrenalina. A vida é muito incerta, o melhor que fazemos é tirar algum proveito do tic tac de incerteza do nosso fim. Nesse dia não foi difícil. Todas essas reflexões não exigiram muitas conversas, o silêncio também tem muito a dizer.  Os outros turistas conversavam sobre o incidente e eu pensava. Oscar que me dê licença, não sei se estamos de fato todos na sarjeta, mas olhar para estralas certamente nos faz admirar aspectos da vida e da beleza que embarcar nessa jornada implica.   
Aquela viagem ao Marrocos foi maravilhosa. Seja pela companhia de Mariana e Pedro, seja pelo fato de que conheci uma cultura diferente, cheia de questões e pessoas que falam todas as línguas, seja pela visita à casa do sultão, seja pelo melhor cuscuz que já comi, seja pelo passeio de carruagem que fiz, seja pelas conversas no saguão do albergue que tive. Uma boa viagem é assim, nunca se sabe ao certo qual foi a melhor parte, mas as boas lembranças são seguras, vem a tona de vez em quando e nos fazem rir, querer voltar.
Andei de camelo, caminhei pelas estreitas ruas da Medina, comi Tajine, bebi vinho, conheci especiarias das mais diversas, vi os encantadores de naja com sua flauta, tirei foto com macaquinhos explorados que fizeram xixi em mim (dizem que dá sorte, ou mau cheiro à roupa, vai saber), dancei junto a uma dançarina de dança do ventre em um restaurante e vivi aventuras das quais não cabem falar. Tudo inédito e único. Pena que já acabou. Mas essa cultura certamente me fascinou, me envolveu e me fez querer voltar. Não sei se vou, não sei meu destino me levará lá. Mak tub já diria meu avô e vovó Marita. Já está escrito, então vai saber, tomara...

O fato é que valeu a pena. Viajar sempre vale. Mas o céu, este não me sai da mente. O Marrocos, o céu e as estrelas. Por hoje, nada mais quero, nada mais preciso. O céu e as estrelas já bastam.

2 comentários:

  1. Adoro ler seus textos petit! Parece que voce ta dentro da minha cabeça e do meu coração descrevendo tudo que eu sinto, indago e receio!

    Beijos Bibi!

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  2. Sinta-se parte da minha inspiração, primoca! São vocês que me fazem assim.=)

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