O céu
Viagem de família é uma coisa
boa. Gostosa. Pra mim envolveu conversas na varanda do quarto, com pessoas
queridas sobre assuntos quaisquer. Mas o melhor da noite era o céu. Que céu
lindo, ainda mais dividido com primas-irmãs queridas. Céu laranja avermelhado
com o vento da praia para relaxar e descansar a mente. Jogar conversa fora,
olhar o entardecer, rir a toa. Delícia.
Algumas noites são especiais.
Temos e devemos de aproveitá-las. Como diria meu irmão existem aqueles que
sabem aproveitar a vida e aqueles que a veem passar. Desculpem-me, mas os
últimos cometem um erro grave. A vida vai passar, já está passando e nós junto
com ela. Os dias cheios e acelerados que vivemos, completos de atividades e
informações imediatas que preenchem as horas, não deixam espaço para o tempo a
toa. Tempo para pensar na vida, pensar bobagens, fazer planos impossíveis e
refletir sobre aqueles assuntos que não nos saem da mente. Não há noite ou dia
que não deva ser aproveitado. Não há boa companhia que não deva ser valorizada.
A vida é fugaz e não há tempo que volte, como diria Lulu. Façamos dela o melhor
possível. Aproveitemos o céu, todos os dias.
Lembro-me das noites que já passei e penso
agora no céu mais bonito que já vi. Estava eu no Marrocos, com uma ilustre
companhia, um amigo para a vida. Havíamos viajado para visitar uma comunidade
chamada Beri- Beri, povo que tem origem diferente da árabe aquela compartilhada
pelos marroquinos. Observar as casinhas cor de ocre cobertas por um dia de céu
azul, e ao fundo mirar a vista das montanhas Atlas cobertas de neve resultou em
um lugar interessante, novidade para meus olhos. Almoçamos em uma tenda que
servia comidas marroquinas, paramos em uma loja que ensinava a fazer tapetes,
compramos artesanato na beira da montanha. Dia bom.
Na volta fomos surpreendidos por um motorista
bêbado que quase trombou de frente com a nossa van. Toda experiência inesperada
tem resquícios de reflexão. Ao esperarmos o carro de polícia na beira da
estrada, fiquei a observar o céu. Nossa que céu! Acho que não tenho palavras
nem habilidades descritivas para descrevê-lo. Mas, mesmo diante da minha
insignificância literária, tentarei colocar em palavras o que foi aquela
experiência. Parecia que estávamos cobertos por um tapete cheio de pontos
brilhantes. O escuro e altura da montanha onde nos encontrávamos só faziam
aquela visão saltar mais aos nossos olhos. Era impossível não olhar. No meio do
nada, olhar para cima e admirar as estrelas significa também se perguntar sobre
a vida, questionar-se sobre as angustiantes questões que às vezes tiram nosso
sono. Estamos sozinhos nesse mundo? Para onde vamos depois dessa passagem pela
terra? Porque às vezes nos sentimos tão sozinhos, mesmo acompanhados? Faz-nos
pensar como somos nada diante do tudo e do belo. Somos uma insignificância
mundana que se acha. Vai falar que não.
Toda aquela loucura que é quase
bater de frente com um carro no Marrocos de fato valeu a pena. Viver é muito
perigoso, parafraseando Guimarães. Ainda bem. Estranho pensar que quase morrer
pode valer a pena. Acho que entendo melhor agora aqueles que arriscam a vida
para viver no limite da mesma, bêbados de adrenalina. A vida é muito incerta, o
melhor que fazemos é tirar algum proveito do tic tac de incerteza do nosso fim.
Nesse dia não foi difícil. Todas essas reflexões não exigiram muitas conversas,
o silêncio também tem muito a dizer. Os
outros turistas conversavam sobre o incidente e eu pensava. Oscar que me dê
licença, não sei se estamos de fato todos na sarjeta, mas olhar para estralas
certamente nos faz admirar aspectos da vida e da beleza que embarcar nessa
jornada implica.
Aquela viagem ao Marrocos foi
maravilhosa. Seja pela companhia de Mariana e Pedro, seja pelo fato de que
conheci uma cultura diferente, cheia de questões e pessoas que falam todas as
línguas, seja pela visita à casa do sultão, seja pelo melhor cuscuz que já
comi, seja pelo passeio de carruagem que fiz, seja pelas conversas no saguão do
albergue que tive. Uma boa viagem é assim, nunca se sabe ao certo qual foi a
melhor parte, mas as boas lembranças são seguras, vem a tona de vez em quando e
nos fazem rir, querer voltar.
Andei de camelo, caminhei pelas
estreitas ruas da Medina, comi Tajine, bebi vinho, conheci especiarias das mais
diversas, vi os encantadores de naja com sua flauta, tirei foto com macaquinhos
explorados que fizeram xixi em mim (dizem que dá sorte, ou mau cheiro à roupa,
vai saber), dancei junto a uma dançarina de dança do ventre em um restaurante e
vivi aventuras das quais não cabem falar. Tudo inédito e único. Pena que já
acabou. Mas essa cultura certamente me fascinou, me envolveu e me fez querer
voltar. Não sei se vou, não sei meu destino me levará lá. Mak tub já diria meu
avô e vovó Marita. Já está escrito, então vai saber, tomara...
O fato é que valeu a pena. Viajar
sempre vale. Mas o céu, este não me sai da mente. O Marrocos, o céu e as
estrelas. Por hoje, nada mais quero, nada mais preciso. O céu e as estrelas já
bastam.
Adoro ler seus textos petit! Parece que voce ta dentro da minha cabeça e do meu coração descrevendo tudo que eu sinto, indago e receio!
ResponderExcluirBeijos Bibi!
Sinta-se parte da minha inspiração, primoca! São vocês que me fazem assim.=)
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