segunda-feira, 14 de maio de 2012


Quem tem medo do lobo mau?
Eu. Morro de medo. Uma vez escutei quando criança que durante a noite os lobisomens, em busca de suas presas, só enxergavam o branco dos olhos, das unhas e dos dentes das mesmas. A partir daí meu medo começou a se manifestar durante a noite. Dormia sempre com a boca bem fechada e escondia as unhas debaixo da coberta e do travesseiro com medo que ele me visse, se é que visitava meu quarto. Por sorte ou não o tal do lobisomem nunca deu as caras, pelo menos que eu saiba. Mas acho que o medo infantil que toda criança carrega não foi embora com o passar dos anos.
Hoje eu não tenho mais medo de lobisomem, nem de lobo mau. Quer dizer, acho que acabei de contradizer o que disse no primeiro parágrafo. A verdade é que nem eu sei o que habita espaços incertos deste mundo, então melhor não afirmar que não tenho medo, vai que estou errada. O fato é que mesmo que essa fantasia infantil tenha diminuído com o excesso de realidade que o amadurecimento nos trás, eu ainda, por vezes, acordo com as unhas escondidas debaixo do travesseiro igual eu fazia quando era criança. Acho interessante refletir sobre isso, pois no fundo significa que ainda carrego um pouco daquele medo que toda criança tem, do incerto, do mau, do mundo.
Crescer pode ser estranho. Ainda mais quando nos lembramos de como éramos quando criança. Seres desajeitados, curiosos pelo mundo e indefesos que fazem uso da fantasia para interpretar as peripécias mundanas. Não conheço ninguém que viva uma fantasia com tanta sinceridade como uma criança. Aquelas são construídas para explicar situações das quais não entendem, não conseguem colocar em palavras ou simplesmente não perguntam. A vida não é só difícil para os adultos, que se dizem cheios de responsabilidades e estresse. Ser criança envolve uma magia e uma incerteza que pode ser angustiante. Explicar as situações, entender o que se passa na cabeça dos adultos é confuso. Ainda mais quando as decisões do que irá acontecer não estão em suas mãos, fato que é sempre certo para quem é criança. Viver em um mundo de novidades faz dele muito interessante, mas muito duvidoso.
Tomemos-me como exemplo. Como saber se o lobisomem vem ou não? Se ele existe ou não? O que esse lobisomem representa? Uma querida amiga sempre dizia, ao conversármos a respeito do sobrenatural, que tinha muito mais medo das coisas que existem do que das que não existem.  Isso pode ser verdade, o fruto mundano pode ser mau assim como pode ser bom. E sentir medo é uma sensação estranha, ansiosa. Este estimula nosso corpo ao estremo, segundos eternos são estendidos em um pequeno espaço de tempo. Mas o fantasioso do mundo também gera medo, justamente porque não se sabe tanto sobre a realidade quanto se pensa. Não tenho certeza se metade das coisas que vejo são de fato verdade, ou se são realidade interagindo com as construções do meu cérebro. Então esse conceito de realidade é mais vago e menos aprendível do que imaginamos.
É engraçado pensar que todos carregam certo medo de alguma coisa. Seja de cobra, de altura, de aranha ou de lobisomem.  Os “monstros” infantis nos perseguem pela vida afora. Crescemos, ou achamos que sim, mas ainda carregamos dentro de nós uma criança indefesa. Quando nos deparamos com situações novas, quando perdemos o controle da situação, nos sentimos desprotegidos, como uma criança perdida. Mas aí fica muito mais difícil, pois não dá mais para correr para cama dos pais em busca de proteção. Crescer é encarar a vida de frente e isso exige um esforço psicológico do tamanho do mundo. Exige coragem para sentir medo sem fugir dele, aceitando a eternidade daquele momento angustiante e se possível amadurecendo com ele.
Meu pai costumava falar que eu nunca gostei de dormir na cama dele e de minha mãe. Sempre preferi o meu espaço, independente da minha idade. Acho que aprendi a encarar a solidão e o medo que ela pode implicar sozinha. Tenho que assumir que gosto de independência, apesar de isso nem sempre significar que o alcance da mesma seja algo fácil. Lembro-me que por volta dos quatro anos resolvi que não queria usar mais bico e para resolver este probleminha, joguei-o pela janela logo depois de acordar. Foi uma manifestação de liberdade sincera e bem caracterizada pela minha impulsividade. Que é enorme. Quando criança não senti falta do bico, mas jamais esqueci deste ocorrido.
Faz pouco tempo que comecei a minha vida adulta e acho que ainda não provei do mel e do veneno que ela tem a oferecer. Mas já fui criança e me lembro do que a imaginação infantil é capaz. Ela é uma ferramenta para enfrentar o que não se sabe, o que não se entende e o que gera medo. E acho que de tudo que ficou da minha infância esta é a instância de que mais gosto.  Ainda permito que meu cérebro fantasie e crie mil possibilidades para as situações do mundo. Isso deixa a vida mais leve e mais interessante. Momentos de espera no trânsito, no médico, em qualquer lugar são momentos de produção imaginária. E é por ela que estou aqui, escrevendo, desabafando minhas incertezas e percepções do mundo. Acho que ela me permite ver a vida de uma maneira mais sutil e refinada e mais do que tudo me permite entender um pouco do que viver pode ser para cada um. Viva a imaginação e viva às crianças que são verdadeiros artistas da realidade. Constroem e reconstroem a mesma de uma maneira linda, única. Talvez o que falte na nossa sociedade é escutar mais o que todos têm a dizer, mesmo os mais imaturos.  Eles são o presente do futuro e devem ter algo de interessante a dizer. Devemos admiração a eles, afinal fomos eles e ainda somos eles muitas vezes. Somos crianças de barba e salto alto. Fica aí a sugestão da escuta e lembrança da criança que fomos(somos).

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