sexta-feira, 18 de maio de 2012


Espelho
Outro dia passei na frente do espelho e me vi. Observei minha imagem com cuidado e com certa curiosidade. Vinte e poucos anos, baixa estatura, cabelo cor de mel. Não vi só aparências, vi também um aglomerado de sentimentos e memórias que se conglomeravam no meu corpo.  Um mundo fervilhava dentro de mim. Olhei novamente e pude ver mais claramente.
Não me achei totalmente bonita, nem totalmente feia. Amo e detesto todas as partes do meu corpo. Depende do meu humor e do que aconteceu no dia. Algumas vezes acordo sem vontade de falar uma palavra e outras vezes durmo falando. Detesto cometer um erro, pois isso faz com que me sinta burra, apesar de por vezes me sentir inteligente. Já menti, já roubei uma bala do Carrefour quando tinha sete anos e já usei carteira falsa. Já dirigi e bebi, já fiz coisas erradas. Já fiz coisas certas também e já ajudei muita gente. Aprendi que não há nada melhor do que conversar e que a sinceridade é muitas vezes essencial. Para nós mesmos e para os outros. Mas não vale usá-la só para magoar, isso é maldade. Já magoei e já fui magoada.
Alguns dias olho no espelho e vejo uma pessoa capaz, alegre e bonita. Outros dias  vejo coisas ruins, falta de personalidade e atos corretos. O espelho pode ser maldoso, ou podemos também ser maldosos com ele. O reflexo depende mais de nós do que da física. A ideia é externalizar o mundo interno e ver no que vai dar. Por isso mesmo, já quis quebrar minha imagem, assim como já quis abraçá-la.
Vejo que aprendi muito sobre mim mesma viajando sozinha. É nessas horas que nossos defeitos e qualidades nos ajudam ou prejudicam e não há a quem recorrer. O jeito é aprender a lidar com a pessoa mais difícil de conviver: nós mesmos. Gosto de observar as pessoas e posso me entreter muito fácil com isso. Já disse antes o quanto a minha imaginação é fértil, ainda mais quando o cenário a minha frente é novo e curioso. Outro dia, fiquei uma hora sozinha rindo de um neném de fralda levantar e cair na praia. Dava alguns passinhos e logo caia, puxado pelo peso da fralda. Era tão patético e pequenino que a imagem era linda de se assistir. As coisas simples da vida me entretêm e me fazem rir. Adoro rir, dar gargalhadas, mas às vezes rio de nervoso. Tenho insônia aos domingos e nessa hora minha cabeça acelera muito.
Sei também que às vezes me sinto muito sozinha e fico com raiva de mim por isso. Sei que posso ser mesquinha, egoísta e que posso até mentir. Sei que cometo erros e que cedo a muitas tentações. Em contrapartida, não sou orgulhosa e sei assumir isso. Adapto-me com a maior facilidade a qualquer ambiente e sempre tive a maior facilidade de fazer amigos, além de saber cultivá-los. Sei reconhecer o sofrimento de cada um deles e as alegrias e aceito os defeitos sem julgá-los. Sou companheira, mas não cobro isso de volta, embora já o tenha feito. Gosto de viajar, de comer, de beber, de festa e de dançar.
Consigo aproveitar com a maior intensidade do mundo um momento e também com a maior sinceridade. Mas por vezes sinto culpa, culpa de tudo que faço. E isso me deixa arrasada, perdida. Às vezes nem sei de que sinto culpa, nem sei o que fiz, ou talvez não queira enxergar. Negar pode ser mais fácil. Sou versátil e indecisa. Mas também sou muito decidida. Forte fora de mim, fraca dentro de mim.
Já me apaixonei, já me desapaixonei e não sei mais o que esperar desse sentimento. Sou sensível e adoro arte. Amo lidar e conviver com pessoas e são elas que dão sentido a profissão que escolhi. Acho que todos têm algo a oferecer independente do que já fizeram. Considero toda forma de sofrimento legítima. Amo meus amigos e minha família. Amo os animais, mas tenho dificuldade com insetos. Não gosto deles. Lembro-me de um episódio de criança perversa em que pisei em cima de todo um caminho de formigas da fazenda onde meus avós paternos moram. A cada formiga morta, sentia vontade de matar mais uma. Hoje tenho um olhar crítico sobre essa situação e sei que toda criança tem uma parcela perversa. Assim como todos os adultos, mas acho que conseguimos disfarçar melhor.
Nem sempre sou boa, mas sempre tento ser. Detesto preconceito e a mesmice. O que mais abomino é a hipocrisia. Acho que temos que ser críticos do cotidiano e das nossas vidas. Além de, é claro, assumir quem somos, sem medo.  Acredito em um mundo melhor e espero o melhor das pessoas.
Aprendi a cozinhar, mas detesto costurar. Detesto que me tratem como mais nova do que sou, apesar de achar que essa cara de menina que tenho faz parte da minha personalidade. Tenho a voz rouca, mas nunca a escutei desta forma, apesar de já ter ficado sem voz várias vezes. Odeio médicos, remédios e hospital. Detesto me sentir frágil e sentimental. Chorar em público é um pesadelo, mas já usei daquele para fazer chantagem.
Gosto de cantar em voz alta quando escuto uma música boa, adoro cinema e me encontro e reencontro na escrita. Adoro me refazer em um pedaço de papel e acho que não tem nada de mais belo do que as palavras, ou um aglomerado delas como em um livro.
Tenho muito medo de morrer e isso às vezes me tira o sono. Detesto café, maionese e comidas muito doces. Mas adoro sorvete, e tem que ser na casquinha. Listras, xadrez e bolinhas, são minhas estampas preferidas. Acho que as aparências não dizem das pessoas, mas um estilo interessante sempre atrai a minha atenção.
Consigo rir sozinha e principalmente de mim mesma. Acho que a melhor ferramenta para enfrentar as tragédias da vida é o humor. Vivo praticamente no futuro, pois planejo meu ano com muita antecedência. Sou extremamente pontual, detesto atraso. Isso me estressa e acho que revela a minha parcela de inflexibilidade.
Moro com meus pais e tenho uma boa relação com eles, apesar de por vezes ser rígida com os mesmos. Arrependo do tempo que não passei com pessoas queridas. Gosto de dormir em ônibus, trens e aviões. Ler pra mim é um vício que deve ser saciado semanalmente. Amo de paixão meu cachorrinho, mas sei que nem sempre sou a melhor mãe do mundo para ele. Sei respeitar as pessoas, mas também sei que às vezes sou muito individualista.
Já cheguei a questionar o quão minhas decisões eram importantes para mim, pois já abri mão delas por pouco. E não foi fácil reconhecer isso. Sou curiosa, mas consigo controlar isso por alguns segundos. Amo estudar e amo o conhecimento. Detestaria abandonar essa atividade que recria os meus pensamentos e forma de ver o mundo.
Gostaria de tocar algum instrumento, de desenhar melhor e ter algum ritmo para cantar. Tenho facilidade para escrever, apesar de ás vezes me faltar ânimo. Consigo reconhecer a beleza de um lugar, mas nunca vivo o momento plenamente, vivo vários ao mesmo tempo. Meu pensamento vive uma mistura de tempos. Futuro, passado e presente.
Sonho em escrever um livro, em conhecer o máximo de países que conseguir e, sobretudo conhecer mais o meu. Sonho em fazer mestrado, doutorado e quem saber dar aulas. Acho também que quero morar fora do país mais uma vez, apesar de ser completamente apaixonada pela minha pátria.
Amo rock, samba e tenho um fraco pelo sertanejo. Gosto de abobrinha, quiabo e azeitona. Cresci comendo salaminho, mas depois que descobri que tenho colesterol alto, não consegui mais comer. Sou escrava de minha culpa em muitas ocasiões. Ela pode me fazer bem, pois garante reflexões, mas às  vezes atrapalha meu divertimento.
Já tive cabelo curto, cabelo comprido, tenho quatro tatuagens e quem sabe farei mais. Gosto de mudar. Sei perdoar e não gosto de guardar rancor. Consigo ver as situações de diversos ângulos. Adoro o dia do meu aniversário, Natal e Ano Novo. Adoro comemorar a vida com as pessoas queridas. Gosto do recomeço, mas detesto quando as coisas acabam. O fim só é bom, pois permite a relembrança e o reencontro.
Sou extremamente ansiosa, embora isso nem sempre deixe transparecer. Descobri que por mais que achemos que nos conhecemos, sempre nós surpreendemos e podemos agir de uma maneira diversa. Já perdi o controle, mas já tive todo o controle da situação. Tento a cada dia ser uma pessoa melhor, mas sei que cometo muitos erros e que estou longe de ser quem gostaria de ser.
Outro dia passei na frente do espelho e me vi. Uma pessoa comum, como qualquer outra. Pessoa essa que alguns dias está feliz, outros triste. Que gosta de si e que desgosta também. Que tenta tomar suas decisões da melhor maneira que sabe, mas que também quer aproveitar cada momento. Logo em seguida, minha imagem sumiu. Já não era mais eu, outra pessoa começava a aparecer. Era hora da metamorfose recomeçar

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