Quem não teve infância?
Cansei de ver meus pais e avós falando que criança que
brinca em prédio e não na rua não teve infância de verdade. Que o
enclausuramento decorrente do aumento da violência (quem está preso mesmo?) faz
com que as crianças fiquem em casa, fechadas, brincando com seus vídeo games ao
invés de correr nas ruas e usar a imaginação para criar monstros, castelos,
guerras, no limits.
Venho aqui quebrar esta teoria tão difundida. Eu tive
infância. Morei em apartamento, brinquei no P e nunca joguei vídeo game. A
imaginação também funciona dentro de quatro paredes, dentro de grades e até
dentro dos sonhos. Tive a sorte de cruzar com pessoas que compartilharam dela
comigo, sem limites.
Faço aqui uma homenagem à querida Tita que trabalhou na
minha casa quando eu era criança. Ela sim não tinha limites para a imaginação.
Hoje estava na casa da minha avó (onde ela trabalha atualmente) e começamos a
conversar sobre minha infância. Ela me fez lembrar dos memoráveis “banheirões”
que fazíamos no banheiro do meu antigo apartamento.
Ela permitia o proibido.
Podíamos encher a banheira até que a mesma transbordasse e todo o
banheiro virava uma piscina. Porque não é preciso o objeto real para que a
satisfação venha. É tudo uma questão de se permitir imaginar. Acho que essa é a
melhor característica das crianças. Um quarto pode virar um castelo, uma boneca
uma pessoa, uma banheira o oceano.
Eu e meu irmão escorregávamos no chão molhado, jogávamos
água para cima, nadávamos como se o espaço fosse enorme. E não era, mas isso
nunca foi impedimento para a diversão daquelas tardes. Os frutos dessa
experiência são as lembranças, poderosas máquinas do tempo que servem de apoio
para os dias difíceis e monótonos que o cotidiano nos impõe.
Já fui chamada de louca por conversar com as plantas, por
falar sozinha, por fazer teatros, ler em voz alta e até gritar, por dar
estrelas até machucar. Minha imaginação me obrigava a ser assim e é por isso
que tive infância. Por vezes ainda me perco na minha própria imaginação e não
quero perdê-la nunca. Ela da cor a vida, da infância a quem não pode ter, dá
sentido à vida.
Ps: A ilustração foi feita por Mateus Lima, baseado na leitura. O mesmo é dono de outros blogs como este: http://mateuserelima.blogspot.com.br/. Muito obrigada, Mateus, você captou bem o que eu sentia.
Ps: A ilustração foi feita por Mateus Lima, baseado na leitura. O mesmo é dono de outros blogs como este: http://mateuserelima.blogspot.com.br/. Muito obrigada, Mateus, você captou bem o que eu sentia.

pequena, a sua vida é uma infância. você é um ser criativo, cheia de boa imaginação, dessas que faz até rir de conversar.
ResponderExcluirvocê tem bom assunto, boa história, boa lembrança e, melhor de tudo, bom humor.
eu tive infância de brincar na terra, (na floresta, como vc sabe), de subir em árvore, correr na rua, de ter muito espaço. mas quando voltei pra apartamento não me enclausurei, também acho paredes criativas, mesas criativas, luzes, sons e até uma caixa vazia, criativa.
como você disse: existe o sonho. o sonho é a nossa ferramenta mais potente de imaginação, nos permite voar e ir para qualquer espaço, sem dali sair fisicamente.
sair é importante, como agora você sabe ainda mais, conhecer, viajar, desfrutar do mundo. mas não é a unica saída pra imaginação.
é só vc pensar que Arthur Bispo do Rosário teve detido e dali o que fez de arte, poesia, bordado, foi vida. isso é que é enclausuramento criativo.
é onde a mente te permite sair de um mesmo lugar.
Lu, somos iguais no coração e na criatividade. Não é a toa que já apresentamos um programa de TV juntas! Saudades de vc!
ExcluirCheguei aqui meio que sem motivo, vagando em perfis alheios vi o post da Anna sobre o seu blog, e como costumo confiar no gosto dela resolvi ler. Acho que o texto me alcancou pelo fato deu ser uma destas pessoas que dizia que criancas de apartamento nao tiveram infancia. Devo ter a mesma idade que voce, mas como fui criado no interior minha infancia sempre foi na rua. Mas nunca tinha parado pra pensar que o que faz a infancia nao e o lugar fisico onde se brinca, mas os lugares que voce cria, e a imaginacao nao e barrada pelas paredes de um apartamento. Como eu estava precisando dar uma variada de estilo e atualizar meu portfolio, resolvi ilustrar seu texto. Espero que nao se importe. http://on.fb.me/HZw0IU
ResponderExcluirAdorei a ilustração e fico feliz que meu texto tenha servido de inspiração para você! Compartilhei ele na minha página de facebook, espero que não se importe também. A infância é de fato uma questão de magia e imaginação, e para isso não existem limites. Seja bem vindo ao meu blog e quando quiser ilustrar algum texto meu fique a vontade. Podemos até fazer uma parceria hahaha...
Excluirgrande abraço
Que bom que gostou, e nao tem problema em compartilhar. Estava precisando de mais ilustracoes infantis no meu portfolio e ler seu texto sobre infancia caiu como uma luva. Nao prometo nada, mas passarei por aqui de vez em quando, quem sabe nao faco outras ilustracoes?!? hehe...
ExcluirAbraco
Entendi tudo como aconteceu agora! hahaha!
ResponderExcluirdiadorim, você é foda! a ilustração ficou massa!
pequena, não tinha ninguém melhor para "desenhar" sua fala do que ele, imaginário gigante, sensibilidade, bom humor e belos traços!
orgulho duplo nesse instante!
Brigadao Anna!!!
ExcluirEssas duas são pequenas notáveis. Como escrevem a vida... Amei Débora!
ResponderExcluirEu lembro direitinho de você brincando de planta na fazenda...só você entendia e brincava até sozinha se precisasse...mas não esqueço das nossas noites tentando fazer uma linha de dominós em pé no corredor da sua casa, de quando a gente recortava revista para fazer nossos próprios bonecos, das nossas disputas de barquinhos na piscina da fazenda...saudade demais de ser criança!
ResponderExcluirNos aproveitamos muito mesmo! Brincávamos de Leão com o André também, lembra? Ou era tigre? Agora já estou confusa. Propaganda também, olhando para o espelho do nosso quarto. Tempo bom.
ExcluirQue texto lindo. E que imagem linda também. De fato, acho que há uma imposição da nostálgica infância que se deu com o pé na terra vermelha. Fui criado em apartamento ( e pisei, na lama, quando ia, anualmente, à casa da minha avó.. era muio bom!). No entanto, sei como é possível entrar numa banheira de um apartamento e descobrir um mundo maravilhoso, tão nostálgico quanto sentir cheiro de terra molhada...
ResponderExcluirRicardo, acho que a infância é um período delicioso da vida que não deve ser limitado pelas circunstâncias. Ela pode acontecer em qualquer lugar, seja no sertão, na favela, no apartamento ou na rua. Não é a toa que as crianças socializam tão fácil e brincam com qualquer coisa. Só tenho lembranças boas dessa época e desejo isso a todos. Obrigada pela visita!
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