LIBERDADE
Atualmente participo de um
estágio na APAC (Associação de Proteção e Assistência ao Condenado) onde atendo
um recuperando. Para quem não sabe a APAC
é uma Entidade Civil de Direito Privado atuante nos presídios, que tem como
metodologia a valorização humana e que visa oferecer ao condenado formas de se
recuperar e retornar à vida social. O meu trabalho lá é de construir, junto com
o recuperando que atendo, um livro que conte um pouco de sua história de vida.
Hoje, depois da profunda
experiência que tive ao atendê-lo, sai desnorteada da sala onde tudo acontecera.
É tudo muito intenso, muito real. Difícil mesmo de engolir. Milhões de
pensamentos começaram a brotar na minha cabeça e aqui desejo transformá-los em
palavras, texto e reflexão.
A sociedade vende o preso como um
monstro. Mentira. Eles são como nós, eles fazem parte de nós. Nós somos eles,
mas como nascemos em contextos diferentes, não ficamos sujeitos à mesma
realidade. A verdade é que o ser-humano, em sua grande parte, é um ser fraco.
Ele cede às tentações, ele cede às incertezas, ao medo que a realidade passa.
Por isso, reage do jeito que dá.
Ao sair da sala, fiquei esperando
a minha companheira de estágio para irmos embora juntas. Resolvi aguardá-la na
recepção onde não tinha ninguém e onde eu permaneceria presa. Trancada. Olhando
através das grades da Apac fiquei tentando imaginar a sensação de se estar
preso. Obviamente que o que eu senti naquele momento não se compara a uma real
experiência, mas ao pensar nisso, só consegui encontrar em mim uma angústia
gigantesca. Angústia de animal castrado, preso, recluso. Pensei no que a
liberdade representa. Ser livre é a melhor coisa do mundo, acho que esta é a
palavra mais bela que já ouvi. Ela não implica em fazer o que quiser, mas
implica ser o que quiser, sentir o que quiser, respirar fundo e apreender o
nosso eu interior. Eu mirava do portão a paisagem que se encontra em frente ao prédio
e só pensava como queria poder ir ali, até ali que fosse. Mas ir se quisesse.
Isso é ser livre, palavra e poesia ao mesmo tempo. Eu amo a liberdade.
Refleti então sobre a ideia de
que quem faz algo para ser preso é punido, principalmente, através da perda da
liberdade. Perde o respeito da sociedade, vira um estereótipo e muitas vezes
não é aceito de volta. Corrijo, nunca é aceito de volta. Ninguém lembra que
aquele ser vivo, da nossa espécie, que sente igual a gente, que pagou pelo que
fez em condições sub humanas tem o
direito de voltar para a vida social. Ninguém se lembra disso, nem o governo,
muitos menos os cidadãos ocupados em cuidar do próprio umbigo e da própria
carteira. É muito mais fácil unir essas pessoas marginalizadas às categorias da
nossa cognição que eliminam os mesmos das nossas preocupações.
Vale a pena? Esse tipo de punição
funciona? Porque até onde eu sei, no Brasil ele não muda nada. Ele ensina os
condenados a odiar mais o mundo e a resolver as coisas do jeito que eles sabem.
O sistema é tão precário que chega a ser ridículo, “dá raiva” mesmo. O
resultado é uma experiência mágica que cria dragões, feras e monstros. Porque
não tem jeito, quero ver se fosse com você, ou comigo.
Não estou negando os crimes
cometidos, muito menos os aprovando. Mas uma vez li que quando não é possível
mudar a situação em si é possível ainda mudar a nossa posição diante dela. Nós
como sociedade estamos proporcionando o melhor para formar cidadãos honestos
que busquem meios legais de viver? Acho que essa pergunta nem precisa de
resposta. Está óbvio, cidadão brasileiro, que não! E disso ninguém lembra na
hora de julgar o criminoso. Não podemos
controlar o comportamento, nem os pensamentos que tomam cada um dos homens e
mulheres todos os dias. Mas, podemos mudar o jeito que o mundo é construído. Ou
vocês acham que do jeito que as coisas andam está funcionando? A mudança deve começar por aí.
Foi isso que senti hoje ao ir a
APAC e conhecer mais um pouquinho dos tantos pouquinhos da vida que não conheço,
e que unidos transformam-se no mundo
todo. Vale a pena pensar, repensar, criticar e mudar!
Ei deborah!
ResponderExcluirAdorei esse seu primeiro post. Não sabia que vc estava trabalhando na APAC, pelo visto está sendo uma experiência e tanto!
Achei bem legal a reflexão sobre liberdade, e fiquei curiosa para saber qual seria pra você a alternativa à prisão.... enfim, escreva mais sobre o assunto!
Vou passar por aqui sempre que der para conferir o que vc tem postado viu!
Beijos
Juju, fico feliz com a visita. Escrevi sobre punição e educação, depois dê sua opinião se se interessar. Fico feliz que mesmo pelas circunstâncias da nossa vida que nos levaram a caminhos diferentes ainda tempos tempo uma para a outra.=)
ExcluirBaixinha,
ResponderExcluirA ideia do blog me parece, realmente, muito boa. E, humildemente, devo ressaltar que você escreve muitíssimo bem. Sobre prisão e liberdade, gostaria de manifestar minha opinião, especialmente sobre a forma como encaramos a conduta criminosa e seus executores.
Alguns filósofos iluministas, há séculos atrás, já diziam "o homem é fruto do meio em que vive". Eu, particularmente, corroboro integralmente com esta opinião. Cada indivíduo é à exata medida do que o seu habitat lhe proporciona. De certa forma, acredito que esta característica atinja todos os seres animados.
O que eu quero dizer é que na maioria dos casos a conduta criminosa advém de anos de submissão a uma realidade que não é nada favorável ao criminoso. Ausência de infra-estrutura básica de saúde, educação, segurança, lazer e principalmente de dignidade é um fato que esclarece boa parte da motivação destas pessoas, mas como você mesma disse, não justifica quaisquer atos de violência.
Neste ponto encontramos o sistema Estatal de repressão à violência e contingência dos "desviados". Ou seja, aparato policial e prisional. Instrumentos que foram criados exclusivamente para manter a população sob controle. Lembra...aquele papinho de contrato social?! Então...isso é o resultado mais palpável daquela história. Mas, continuando...
O aparato estatal foi, é e continuará sendo muito bem utilizado pelas autoridades, posto que foi instituído com a única finalidade de controlar os desvios de conduta e manter a população (empobrecida, evidentemente a mais afetada pelas más condições de vida)sob o controle do Estado. A função deste aparato, conforme sua concepção, aquela real, diferente da ideológica, vem sendo cumprida.
Mas aí você se pergunta, você não mencionou ter concordado com meu pensamento sobre prisão e liberdade, bem como sobre a precariedade do sistema prisional brasileiro?! Sim! E continuo concordando. Só acho que a solução para essa reinserção social não pode vir exclusivamente de um sistema que é concebido para punir e controlar. A re-inserção destes indivíduos na sociedade deve começar com políticas preventivas junto às comunidades mais suscetíveis às "tentações" e cuja realidade mais se distancia do ideal de dignidade que almejamos para a vida de qualquer ser-humano. A solução, por mais clichê que possa parecer, está na cara e ninguém, absolutamente ninguém, se dispõe a enxergá-la. Resume-se a uma única palavra, no mais amplo sentido que sua interpretação lhe propicie "E D U C A Ç Ã O".
Quando a sociedade passar a valorizar de verdade a educação, aí sim, o sujeito que for preso por ter cometido um crime terá condição de ser re-inserido na sociedade. Pois terá capacidade de compreender que há outras opções, e sobretudo, pois a sociedade terá capacidade de compreender que há possibilidade de mudança na postura de qualquer um.
Beijo enorme.
Paulinho,
Excluirprimeiro gostaria de agradecer pelo carinho e pela visita.
Depois queria dizer que concordo plenamente com você. Quando falo que não produzimos uma sociedade que gera cidadãos honestos,refiro-me a tudo que pode ser feito antes da pessoa cometer o crime. Temos que mudar o meio antes de tentar mudar o criminoso. A cultura está errada e jogada às traças pela população. Se ninguém parar para pensar nisso vai ser difícil mudar. Estou lendo o livro do Focault "Vigiar e Punir" e estou delirando com as ideias desenvolvidas no livro.
Daqui alguns dias postarei umas ideias que já escrevi sobre educação e punição. Elas se originaram do livro que leio. Você é e sempre será bem vindo para dar sua opinião no meu blog. Quero desenvolver aqui, sobretudo, um espaço livre de discussão e reflexão. Mesmo que ela seja contrária a minha opinião. Como disse na minha descrição, adoro o novo e é ele que me faz crescer.
Gostei muito das suas palavras e fico feliz que pense assim
Grande abraço da sua pequena amiga!
Deborah,
ResponderExcluirEu havia escrito um texto enorme para esse post e, no entanto, a Internet não foi legal comigo e além de não enviar, sumiu com o que eu escrevi.
Retorno depois para opinar novamente sobre o texto.
Faço questão.
Excelentes perguntas! São as que tenho feito sobre esse estágio também.
Só adianto uma coisa: somos muito privilegiados e já passou da hora de compreendermos que não somos mais foda que ninguém... Só tivemos e abraçamos a oportunidades que nos levaram para onde, hoje, estamos. Oportunidade é algo que muitos não têm. E ali na APAC, oportunidade é um vazio, um silêncio que se repete toda vez que entendemos que um recuperando quer dizer: "não tem jeito pra mim!"
adorei o texto! reflexões absolutamente necessárias e muitas vezes deixadas de lado.
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