Aos mestres
Durante a minha infância minha mãe
sempre me proporcionou diversos livros. “Onde está Wally?”, “De Onde Vêm os Bebês”,
“A Bonequinha Preta”, “Os Três Porquinho”, entre outros tantos. Lembro-me
também de possuir um vinil que narrava historinhas de clássicos infantis que
adorava ouvir na vitrola de meus pais (retrô mais ingênuo da vida). Na sala de
televisão de nosso antigo apartamento, todos os livros da casa se conglomeravam
em estantes e armários e por lá costumava brincar com todos eles. Alguns meus e
a maioria de meus pais. Brincava de biblioteca, em que pessoas imaginárias
vinham alugar os meus livros. Mal sabia eu o que tinha por trás desses tantos
livros que me fascinavam mais pela capa e tamanho do pelo conteúdo. Mas isso
mudou, e como mudou.
Aos poucos posso dizer que a
importância que a literatura carrega tomou conta de mim, foi o feitiço do tempo
que encomendou esta mudança. Percebi que investir em livros significa investir
em si mesmo. Aqueles que leem sabem os maravilhosos caminhos que uma leitura
pode proporcionar, é como uma viagem. Sei que minha mãe e meu pai sempre
tiveram uma grande admiração a um tio que também era apaixonado pela
literatura. Morava em um apartamento que era integrado em outro onde todos os
seus livros eram guardados. Era uma espécie de biblioteca apartamento. Corri e
brinquei no meio daquelas estantes com minhas primas, também com tamanha
ingenuidade, sem saber a abrangência do local onde andava. Falo isso porque na
verdade corria entre histórias, palavras, romances, poesia, contos e crônicas. Mas
ainda não ouvia seu sussurro convidativo.
Depois
que cresci e comecei a me deliciar com a literatura adulta, fui percebida por
este tio com quem passei a conversar muito. Papear com ele era uma verdadeira
aula. Ele de tudo sabia e com a característica dos maiores e melhores mestres,
valorizava toda a minha ação em prol do que ensinava. Realmente se interessava
e se alegrava ao ouvir que alguém leu um livro. E ainda por cima, complementava
a leitura de seu ouvinte com milhares de informações sobre o autor, o contexto,
tamanha inteligência possuía. Minha mãe uma vez me relatou que, quando
adolescente, lia escondido os livros proibidos deste tio, que ficavam guardados
em um armário em seu antigo quarto. Emmanuelle, O Poderoso Chefão, entre outros
escritos que tinham a audácia de tratar dos tabus mundanos. Ela, quando meio
tio saía, visitava esse armário e brincava com os livros, lendo-os,
aproveitando para provar o gostinho que toda situação proibida oferece.
Bom, foi assim, aos poucos, que
comecei a ler e cada vez que lia mais, gostava mais. Não me entendam errado,
pois ainda não li nem metade dos livros que gostaria de ler. Estou verde nesse
quesito, não entendo quase nada de literatura, mas sei que este é um caminho
que gostaria que acompanhasse a minha vida. Não consigo mais imaginar a os dias
sem essa arte. Isso, sobretudo, não só porque amo os livros, mas amo mais ainda
a sensação que a leitura remete o leitor. É um convite a um mundo paralelo,
particular, que te apresenta muitas questões novas, que te coloca em situações
impossíveis que você daria de tudo para participar. Pode-se imaginar o que
quiser quando se lê, comparar os personagens com alguém do cotidiano vira quase
um vício durante a leitura. E nos tantos relatos que já li, sempre me encontrei
em parte deles, vários de meus pedaços subjetivos passeando pelas palavras de
outrem.
Não só pelas belas histórias, mas a
literatura é um retrato de uma época e de uma forma de pensar. Ela é uma linha
histórica e muito mais que isso, é um auto-retrato do escritor. Não dá para se
ausentar do que se diz, nem no jornalismo, nem na ciência, nem no nada. Nosso
modo de ver o mundo é particular, não é neutro. E a tendenciosa literatura é que
está de parabéns. Ousada o suficiente para assumir algo novo, para colocar no
papel o humano subjetivo e também para tomar uma posição, ora bolas. É isso que
mais falta à humanidade. Tantas pessoas em cima do muro que ele vai acabar por desabar
de tanto peso que sustenta.
E tanto idolatro a literatura e me
delicio com a mesma somente por quem me a apresentou. Verdadeiros apaixonados
por livros. Tive o privilégio de cruzar com o exemplo de pessoas que cederam
parte da sua breve vida para viver o momento mais introspectivo e ao mesmo
tempo o menor deles que é a leitura. Não tinha como ser diferente, eis a foça
do exemplo. Conduzem nossos atos como se fossemos fantoches, e o pior,
escondem-se na inconsciência. Posso dizer que tive sorte de ser obrigada (por
mim mesma) a seguir este caminho.
Já chorei lendo, já gargalhei e já
até briguei com um livro. Não concordava com o que lia, não queria aquele
destino, mas o livro só reproduzia a realidade e eu reproduzia o humano,
revoltado com as imprevisibilidades da vida, esta madame poderosa e cheia de
vontades. Sempre buscamos respostas, mas poucos as sabem. O melhor de ler é
ser corajoso o suficiente para se expor às diversas emoções que podem surgir
através das palavras. É um ato de bravura, pois quando nos entregamos a uma
leitura estamos sujeitos ao que o autor quiser. Mas isso não funciona para
aqueles que não se abrem ao fantástico mundo das palavras. É quase como um
relacionamento amoroso. Não adianta se fechar para ele, se não, não vale a
pena.
Já nem sei mais o que escrever sobre
o maior motivo que me faz ter a coragem de me escrever nesses textos. Só sei
que nesta vida arrumei uma grande companheira. Peço licença a Muriel Barbery
para falar desta humilde companhia, ““...Pois existe distração mais
nobre, existe mais distraída companhia, existe mais delicioso transe do que a
literatura?”. Não saberei dizer. Talvez sim, mas que nobreza este lazer, faz-me
pensar, ensina-me a escrever, posso fazê-lo em qualquer lugar e ainda me faz
feliz
Não
sou poeta, não sou nem escritora, mas resolvi me render à ousadia da
necessidade de colocar uma ideia no papel e mostrar aos outros. Tem hora que
não há outra atitude mais certa para o momento, vira uma questão de
necessidade. Chega até a me incomodar, se não arrumar um papel para desabafar é
como se uma ideia fosse perdida para sempre e com ela um pedaço de mim mesma. A
ideia parece só se concretizar em palavras escritas. É um sufoco que se alivia
de uma maneira gostosa, como um gozo. A ideia passa para a ponta dos dedos, que
vai mais depressa do que penso pensar. Penso como quem escreve se entrega ao
sentimento para moldá-lo no papel. Licença, Fernando Pessoa, você sabe dizer
melhor do que eu:
O poeta é um
fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
Cheguei
a uma conclusão escrevendo, mas sei que talvez esta não seja de minha autoria,
ou talvez só de
minha autoria, mas escrever é um pensar que te faz repensar. Obriga-te a ir
além de si mesmo através da rede simbólica da linguagem, a rainha da cultura.
Está acima de todos os poderes. Depois
de tanta idolatria, vou idolatrar quem mais merece. A todos aqueles familiares
que me deram o exemplo da leitura, mas em especial a minha mãe, meu tio Júnior
e meus avós. Nunca vi pessoas falarem com tanta paixão a respeito de um livro.
Talvez esta seja a verdadeira herança familiar, e dela me orgulho muito. Ao meu
pai também que me ensinou a gostar de história (geografia não foi possível) e
aos mestres literários que se cederam para uma ponta de lápis e para o mundo
ler e reler o espelho que nasce de seu interior.
“Sempre
imaginei o paraíso como uma grande biblioteca” – Jorge Luís Borges. – Já tive a
sorte de passear por lá...
"Aquele que lê muito e anda muito, vê muito e sabe muito". Miguel de Cervantes Saavedra
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